Venezuela: Fractura Histórica e Transição
de Poder
A
Venezuela atravessa um momento de ruptura histórica, em que dinâmicas internas
de poder, instituições debilitadas e pressões externas convergem para uma crise
de governabilidade sem precedentes. Após anos de estagnação económica,
episódios de hiperinflação, degradação dos serviços públicos, dolarização
informal e uma diáspora massiva, o país viu, a 3 de Janeiro de 2026, o
tabuleiro político ser abruptamente reconfigurado com a captura de Nicolás
Maduro e da sua esposa por forças especiais americanas, sendo ambos apresentados
à justiça em Nova Iorque. O episódio abalou tanto a elite chavista como a
oposição, gerando perplexidade nas ruas de Caracas.
A
resposta imediata do aparelho estatal procurou recompor a cadeia de comando,
mas expôs tensões entre facções, dependências do poder militar e limites de
lealdade no topo da hierarquia. A sociedade civil, exausta e desconfiada, tenta
compreender o que esta transição forçada significa para o quotidiano como
salários, segurança pública, escassez energética e eventual abertura cívica
após anos de repressão selectiva e cooptação institucional. Entre ministros,
generais, magistrados, empresários, líderes comunitários e diplomatas, o
ambiente oscila entre cálculo e receio.
O
episódio central foi a detenção de Maduro, que segundo relatos provocou apagões
em partes da capital. Em Nova Iorque, o ex‑mandatário declarou‑se inocente
perante o tribunal. Em resposta, o governo venezuelano ordenou a prisão de
cidadãos acusados de “promoção ou apoio” à operação, numa tentativa de
reafirmar controlo e punir eventuais cúmplices internos. As Forças Armadas
reconheceram Delcy Rodríguez como presidente interina, numa solução de
continuidade destinada a evitar um vazio de poder. O Conselho de Segurança da
ONU reuniu‑se de emergência, reabrindo o debate sobre soberania, direitos
humanos e jurisdição transnacional. Apesar destas medidas, o país permaneceu em
suspenso, com ruas desertas e um silêncio pesado, enquanto analistas
sublinhavam a prudência estratégica dos actores que aguardam os próximos
desdobramentos legais e militares.
No
plano formal, a transição concentrou em Delcy Rodríguez prerrogativas
alargadas, com a mobilização da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) e a
reorganização dos órgãos de segurança para garantir estabilidade mínima.
Diosdado Cabello e o general Vladimir Padrino López surgem como pilares de
lealdade e coerção, encarregados de alinhar comandantes, conter dissidências e
calibrar respostas a protestos ou iniciativas oposicionistas. O governo
intensificou o recrutamento da milícia bolivariana e redesenhou rotas
logísticas, prevenindo eventuais intervenções ou novas pressões externas.
Contudo, esta arquitectura depende de acordos tácitos e da disposição de
oficiais‑chave, enfrentando o desafio de gerir um ambiente urbano fragilizado e
uma população fatigada.
Em
Caracas, o quotidiano revelou sinais de tensão social. Longe de celebrações,
predominou uma calma expectante, como se a cidade tivesse suspendido a
respiração. A posse de Delcy Rodríguez coincidiu com momentos de oração e recolhimento
em bairros populares, ilustrando a ambivalência entre esperança e temor. A
elite política reuniu‑se em encontros reservados, articulando estratégias
mediáticas e institucionais, enquanto embaixadas e missões multilaterais
acompanharam com cautela os acontecimentos. O país adoptou uma postura de
avaliação silenciosa, sem transformar de imediato a captura em mobilização
decisiva. A crise desenrola‑se em “modo de espera activa”, com causas
acumuladas e futuro incerto.
O
núcleo duro do chavismo com dirigentes partidários, altos oficiais,
governadores, prefeitos aliados e gestores estratégicos da PDVSA enfrenta uma
prova de coesão. Para Delcy Rodríguez, o desafio é simultaneamente político e
administrativo de manter o aparelho a funcionar, evitar cisões, demonstrar
controlo sobre a FANB e transmitir previsibilidade mínima. Cabello procura
assegurar a disciplina partidária e as redes clientelares, enquanto Padrino
López e o alto comando militar tentam impedir deserções e rupturas entre tropas
e oficiais médios, desgastados por anos de dificuldades materiais. O Tribunal
Supremo de Justiça (TSJ) e o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) procuram
conferir legitimidade jurídica às decisões, embora a sua credibilidade esteja
fortemente comprometida. A Procuradoria e os serviços de inteligência
investigam possíveis ligações internas à operação que culminou na captura de
Maduro, reforçando a narrativa oficial de defesa da soberania, mas arriscando
intensificar o ciclo de repressão e resistência.
Do
lado oposicionista, forças fragmentadas procuram capitalizar a conjuntura.
Sectores ligados ao legado do interinato de Juan Guaidó tentam reposicionar a
narrativa em favor de uma transição pactuada, enquanto correntes mais radicais,
próximas de María Corina Machado, exigem a redefinição completa do sistema e a
despartidarização das instituições. A sociedade civil com ONGs, sindicatos e
associações profissionais debilitadas pela emigração reivindica participação no
processo, sobretudo em torno de garantias eleitorais, liberdades civis, libertação
de presos políticos e abertura à ajuda humanitária. O empresariado, dividido
entre sobreviventes de arranjos informais e grupos marginalizados, clama por
previsibilidade regulatória e segurança jurídica. A diáspora, espalhada pela
América Latina e por destinos mais distantes, exige voz e voto, vendo nesta
conjuntura uma oportunidade de contribuir técnica e financeiramente para a
reconstrução, desde que existam garantias mínimas de governança.
Venezuela: Implicações Internacionais,
Económicas, Sociais e Políticas
No
plano internacional, os actores envolvidos são múltiplos e complexos. Os
Estados Unidos, ao capturarem Nicolás Maduro e submetê-lo a tribunal, assumem
responsabilidades legais e políticas que exigem explicação perante organismos
multilaterais e aliados. A ONU, através do Conselho de Segurança, enfrenta um
terreno delicado ao avaliar a natureza da acção americana e as suas implicações
para precedentes de intervenção, sanções e investigações de violações de
direitos humanos. A Organização dos Estados Americanos (OEA) e a União Europeia
acompanham o desenrolar institucional e discutem, nos bastidores, ajustes de
sanções condicionados a avanços verificáveis. Países com relações estreitas com
o chavismo, como Rússia, China e Cuba, calibram respostas em função de
interesses estratégicos e do risco reputacional. Vizinhos regionais, como
Colômbia e Brasil, ponderam impactos directos no fluxo migratório, na segurança
fronteiriça, na cooperação energética e na estabilidade diplomática regional.
Empresas
multinacionais com presença histórica na Venezuela sobretudo nos sectores da
energia, mineração, telecomunicações e bens de consumo avaliam o risco‑país e
as possibilidades de reentrada mais robusta, dependentes de mudanças tangíveis
no regime jurídico, cambial e contratual. A justiça americana, por sua vez,
encontra‑se no centro de um caso de enorme projecção, cujo desfecho poderá
redefinir parâmetros de jurisdição, extraterritorialidade e responsabilização
de mandatários, alimentando debates sobre direito internacional e soberania.
No
campo económico, a Venezuela chega a 2026 com uma estrutura produtiva
contraída, forte dependência de importações e uma moeda local desvalorizada, de
poder de compra instável, parcialmente compensada pela dolarização de facto em
áreas urbanas. A PDVSA sofre com décadas de subinvestimento, corrupção, sanções
e perda de capacidade técnica; apesar de esforços pontuais de recuperação, a
infra‑estrutura de refinarias, oleodutos e logística permanece debilitada. O sector
eléctrico, marcado por apagões e manutenção insuficiente, constitui um gargalo
estrutural que afecta produção, comércio e vida doméstica. A agricultura
encontra‑se fragmentada, com áreas abandonadas ou de baixa produtividade,
dependentes de insumos escassos e de um quadro jurídico inseguro. Pequenos e
médios empreendedores sobrevivem em condições adversas, contornando falhas
regulatórias e oscilações de preços e oferta. Esta paisagem económica, somada à
incerteza política, gera um círculo vicioso pois sem estabilidade institucional
não há investimento; sem investimento não há produção nem emprego e sem
produção nem emprego, a legitimidade política não se reconstrói.
Na
esfera social, a desapropriação de expectativas e a normalização do provisório
conduzem a uma sociedade em fadiga crónica. A diáspora de milhões,
intensificada desde meados da década passada, desestruturou famílias, reduziu
redes de solidariedade e alterou a demografia de bairros inteiros. Serviços
públicos essenciais como a saúde, educação e saneamento funcionam em regime de
escassez, dependentes de iniciativas locais, redes comunitárias e, em parte, de
ajuda internacional limitada. A criminalidade, heterogénea e difusa, soma‑se à
presença de “colectivos” e grupos armados informais que, em certas zonas,
exercem controlo territorial e vigilância política, com diferentes graus de
articulação com autoridades locais. A liberdade de expressão continua
condicionada por riscos e por um ecossistema mediático fragilizado, ainda que
redes digitais mantenham algum espaço de crítica e informação, sujeitos a
bloqueios e campanhas de desinformação. O mal‑estar cívico e psíquico
resultante desta longa precariedade corrói a confiança social, dificultando
mobilização e organização colectiva sustentáveis.
Politicamente,
o sistema venezuelano revela as marcas de um hiperpresidencialismo apoiado
pelos militares, consolidado por arranjos partidários e pela captura de
instituições‑chave, mas também a exaustão de um ciclo incapaz de converter
desempenho estatal em legitimidade. A interinidade de Delcy Rodríguez,
reconhecida pelas Forças Armadas, procura reconstituir uma lógica de poder
vertical, mas enfrenta questões cruciais como se haverá cronograma eleitoral
credível e verificável? O TSJ abrirá canais para contestações e garantias
processuais reconhecidas internacionalmente? O CNE permitirá auditorias
técnicas e observação robusta? Serão libertados e reabilitados opositores
perseguidos ou inabilitados? Estas interrogações são decisivas para que actores
internacionais reconsiderem sanções, calibrem apoios e sinalizem caminhos de
reconstrução institucional. Sem respostas consistentes, a interinidade corre o
risco de ser vista como mera recomposição do mesmo bloco de poder, e não como
uma transição orientada à reinstitucionalização.
Cronologias e Cenários Próximos
Três
linhas de evolução cruzam‑se no horizonte imediato:
Processo
judicial de Maduro nos Estados Unidos que poderá prolongar‑se, envolver
negociações, gerar marcos jurídicos controversos e ter reflexos no equilíbrio
interno da Venezuela, tanto pela possibilidade de acordos quanto pela
radicalização de sectores que consideram a detenção intolerável e incentivam
retaliações retóricas e simbólicas.
Governança
de Delcy Rodríguez cuja interinidade só se consolidará se demonstrar capacidade
de garantir a continuidade do Estado, estabelecer pontes com segmentos sociais
críticos, apresentar um roteiro institucional plausível e evitar abusos
punitivos que intensifiquem resistências.
Jogo
internacional com a consistência das reacções multilaterais e bilaterais, a
postura de potências aliadas a Caracas e a articulação de apoio humanitário
determinarão o grau de isolamento, pressão e cooperação que a Venezuela
enfrentará nos próximos meses.
Este
triângulo judiciário externo, comando interno e resposta internacional não é
estático; cada movimento realimenta os demais, produzindo um ambiente de
incerteza difícil de dissipar rapidamente.
Actores Implicados
A
lista de implicados é extensa e multifacetada:
·
Núcleo político: Delcy Rodríguez (presidente
interina), Diosdado Cabello (articulação política do PSUV), Vladimir Padrino
López e generais do alto comando, ministros‑chave das áreas de Defesa,
Interior, Economia, Energia e Comunicação, dirigentes do PSUV, governadores e
prefeitos alinhados.
·
Judiciário e administração: magistrados do TSJ,
conselheiros do CNE, Procuradoria, Controladoria, Defensoria, órgãos de
inteligência e segurança interna.
·
Forças de base: milícia bolivariana, colectivos,
comandos policiais e militares regionais, com diferentes níveis de subordinação
e autonomia.
·
Plano económico: PDVSA e subsidiárias,
operadores privados com licenças e permissões, importadores e comerciantes que
sustentam a economia dolarizada, redes logísticas formais e informais, empresas
de serviços essenciais.
·
Oposição: lideranças históricas e emergentes,
partidos e movimentos civis, redes de ONGs, grupos estudantis, sindicatos
remanescentes e plataformas digitais de mobilização.
·
Internacional: Estados Unidos (governo e justiça
federal), ONU (Conselho de Segurança e agências), OEA, União Europeia, Rússia,
China, Cuba, países latino‑americanos com forte interacção fronteiriça e
migratória como Colômbia e Brasil, além de missões diplomáticas em Caracas.
·
Campo social: população urbana e rural,
comunidades indígenas, diáspora e famílias transnacionais, jornalistas
independentes, lideranças comunitárias, igrejas e entidades de socorro.
Dilemas Éticos e Estratégicos
Por
trás de cada nome e instituição, emergem dilemas éticos e estratégicos:
·
Para os dirigentes chavistas, preservar poder
sem agravar o colapso do Estado e sem perder o pouco capital de controlo que
resta.
·
Para os militares, equilibrar disciplina,
reputação e sobrevivência institucional.
·
Para o judiciário e o CNE, articular um roteiro
minimamente aceitável sem romper fidelidade ao bloco que garante a sua
permanência.
·
Para a oposição, aproveitar a oportunidade sem
se fragmentar em disputas internas, construindo pactos sem abdicar de
princípios.
·
Para actores internacionais, impor custos sem
agravar a crise humanitária, avaliando vias de recomposição.
·
Para a sociedade, resistir à fadiga e procurar
espaços de dignidade e voz.
Não
há soluções simples pois cada escolha implica custos e riscos, e a memória
social de promessas incumpridas e acordos quebrados pesa sobre qualquer
tentativa de transição.
Venezuela: O Futuro Imediato e os Desafios
da Transição
No
futuro imediato, duas condições parecem indispensáveis para reduzir danos.
Primeiro, aceitar que sem garantias verificáveis com eleições competitivas com
observação internacional robusta, mínima limpeza do campo institucional,
libertação de presos políticos e abertura para assistência humanitária não
haverá abrandamento sustentável das sanções nem reactivação produtiva
significativa. Segundo, reconhecer que sem participação real das forças sociais
e sem o envolvimento da diáspora não se reconstroem confiança e
governabilidade. Estes passos exigem coragem e concessões de todas as partes,
pouco compatíveis com retóricas maximalistas.
Em
paralelo, é crucial enfrentar os nós materiais da vida venezuelana como
energia, saúde e abastecimento. Sem estabilizar o sistema eléctrico, o trabalho
não se normaliza; sem abastecimento e rendimento mínimo, a credibilidade
política desfaz‑se; sem um sistema de saúde funcional, qualquer promessa de
futuro torna‑se vazia. O peso simbólico e legal da captura de Maduro nos
Estados Unidos terá inevitavelmente repercussões, mas não substitui decisões
concretas sobre escolas, hospitais, água e luz. A batalha, em última instância,
é por governar o quotidiano.
Compreender
a situação venezuelana em Janeiro de 2026 exige olhar em simultâneo para o
choque da detenção de Maduro, a interinidade de Delcy Rodríguez e o rearranjo
interno de poder; para a prudência e o medo que dominam as ruas; e para o
circuito internacional que avalia custos e benefícios das respostas. A
Venezuela habituou‑se a viver num regime de baixas expectativas e agora
enfrenta uma curva abrupta cujo desfecho ninguém controla isoladamente. A
justiça americana fixou um novo parâmetro de disputa; o poder interno procura
estabilizar‑se; a sociedade tenta respirar; o mundo observa. O que virá
dependerá de decisões cumulativas, de pactos improváveis e de pragmatismo raro,
sobretudo do reconhecimento de que sem reconstrução institucional e material
não há vitória possível apenas adiamentos.
O
que está posto como a prisão de Maduro por forças especiais dos Estados Unidos,
apresentação a um juiz em Nova Iorque, declaração de inocência, ordem do
governo venezuelano para deter envolvidos internos, reconhecimento de Delcy
Rodríguez como presidente interina pela FANB, ruas de Caracas desertas e clima
social de prudência, reunião do Conselho de Segurança da ONU constitui o quadro
factual de alta relevância para qualquer análise séria do momento. Cada uma
destas peças impõe constrangimentos e abre possibilidades pois a peça judicial projecta
longa sombra sobre a política; a peça militar revela o alicerce da
interinidade; a peça social demonstra o limite do triunfalismo e a força da
fadiga; a peça multilateral confirma que a controvérsia é mundial e que as
respostas vão além de comunicados diplomáticos. Os próximos dias e semanas dirão
se a Venezuela consegue transformar a interrupção em transição ou se regressa,
mais uma vez, ao ciclo de espera e desencanto. Por agora, predominam prudência
e observação atenta, com todos os implicados contidos entre cautela e cálculo,
sob um céu de expectativa que resiste a dissipar‑se.
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