Monday, 22 June 2026

A GEOPOLÍTICA DOS RECURSOS E DA ESCASSEZ

 



A geopolítica dos recursos e da escassez tornou‑se o novo desporto olímpico das nações parecendo uma mistura de xadrez, luta livre e feira de vaidades, onde cada Estado tenta fingir que controla o tabuleiro enquanto tropeça nos seus delírios de grandeza. O planeta, esse anfitrião exausto, observa a coreografia com a paciência de quem sabe que os convidados não percebem que a festa está a acabar. A escassez deixou de ser um fantasma distante para se tornar a protagonista de um drama global onde todos querem o papel principal, mas ninguém quer pagar o orçamento da produção.

A narrativa oficial continua a repetir que vivemos num mundo interligado, cooperativo e racional. Uma espécie de condomínio global onde todos respeitam as regras, pagam quotas e participam nas assembleias. A realidade, porém, é mais parecida com um prédio antigo onde cada vizinho rouba água do depósito comum, acusa os outros de má gestão e exige obras que não pretende financiar. A escassez de recursos expõe esta arquitectura moral com uma clareza desconfortável pois quando falta água, energia, alimentos ou minerais críticos, a civilização revela o seu verdadeiro ADN competitivo, predatório e profundamente ansioso.

A água, por exemplo, transformou‑se no novo ouro azul, embora continue a cair do céu com a mesma teimosia de sempre. O problema é que cai nos sítios errados, nas quantidades erradas e nos momentos errados. Países que antes se davam ao luxo de desperdiçar rios inteiros agora disputam cada gota como se fosse um elixir de imortalidade. Barragens tornam‑se armas diplomáticas, aquíferos convertem‑se em cofres estratégicos e a gestão hídrica passa a ser um exercício de poder mais eficaz do que qualquer frota naval. A água não é um recurso; é uma fronteira política.

O mesmo acontece com a energia, essa velha conhecida que alimenta tanto a economia como os egos nacionais. Durante décadas, o petróleo foi o rei absoluto, distribuindo riqueza, guerras e alianças com a generosidade de um monarca caprichoso. Hoje, porém, o trono está a ser disputado por uma corte de pretendentes como o lítio, cobalto, hidrogénio, terras raras e outras maravilhas químicas que ninguém sabia pronunciar há vinte anos. A transição energética, celebrada como um avanço civilizacional, é na verdade uma reconfiguração das dependências. Mudam‑se as fontes, mantêm‑se as vulnerabilidades. O mundo corre para substituir combustíveis fósseis por minerais estratégicos, mas esquece‑se de que estes também são finitos, concentrados em poucos territórios e extraídos com custos ambientais que fariam corar qualquer manual de sustentabilidade.

A ironia é deliciosa pois para salvar o planeta, precisamos de o escavar com ainda mais entusiasmo. A economia verde, tão elogiada nos fóruns internacionais, depende de cadeias de abastecimento que atravessam zonas politicamente instáveis, regimes autoritários e regiões onde a palavra “transparência” é tratada como uma piada privada. A escassez deixa de ser apenas física; torna‑se também geopolítica. Quem controla as minas controla o futuro. Quem controla as rotas controla o presente. Quem controla a narrativa controla a ilusão de que tudo é inevitável.

A alimentação, por sua vez, entrou no campeonato global da ansiedade. A agricultura industrial, que prometia alimentar o mundo, está agora refém das alterações climáticas, da degradação dos solos e da volatilidade dos mercados. Países que dependem de importações alimentares vivem numa espécie de roleta russa logística, onde uma seca no hemisfério sul ou um conflito no Mar Vermelho pode transformar prateleiras vazias em crises políticas. A segurança alimentar deixou de ser um tema para especialistas e passou a ser uma variável estratégica tão sensível como a defesa nacional. Afinal, governos caem mais depressa por falta de pão do que por falta de submarinos.

A escassez também redefine alianças. Estados que antes se ignoravam cordialmente agora aproximam‑se por conveniência mineral. Outros, que se proclamavam parceiros eternos, afastam‑se quando percebem que o vizinho tem mais reservas estratégicas do que boa vontade. A diplomacia transforma‑se num mercado de trocas onde cada país tenta vender a sua relevância ao melhor preço. A cooperação internacional, tão celebrada em discursos, é frequentemente um teatro onde todos fingem que partilham valores enquanto disputam recursos com a subtileza de um leilão clandestino.

A tecnologia, que muitos acreditam ser a solução para todos os males, é simultaneamente parte do problema. A digitalização global exige quantidades absurdas de energia, metais raros e infra-estruturas que consomem mais recursos do que qualquer revolução industrial anterior. Cada smartphone é um mapa geopolítico em miniatura, cada bateria um campo de batalha químico, cada servidor um monumento à nossa incapacidade de compreender que o virtual também tem um custo físico. A escassez infiltra‑se até nos circuitos que supostamente nos libertariam das limitações materiais.

A competição por recursos intensifica ainda mais as desigualdades globais. Países ricos compram terras agrícolas em continentes distantes, privatizam aquíferos, monopolizam tecnologias e garantem contratos de exploração que perpetuam dependências históricas. Países pobres, por sua vez, oscilam entre a necessidade de atrair investimento e o risco de entregar o seu futuro em troca de receitas imediatas. A escassez torna‑se um instrumento de poder e quem tem recursos negoceia; quem não tem, implora.

A retórica da sustentabilidade tenta suavizar esta realidade com palavras bonitas como “resiliência”, “transição justa” e “neutralidade carbónica”. Mas a verdade é que a escassez não se resolve com slogans. Resolve‑se com escolhas difíceis, investimentos pesados e uma revisão profunda das prioridades económicas. O problema é que estas escolhas raramente são populares, e os decisores políticos preferem adiar o inevitável enquanto distribuem promessas recicláveis. A escassez, porém, não espera por calendários eleitorais.

A dimensão militar da geopolítica dos recursos também não pode ser ignorada. Exércitos modernos dependem de cadeias logísticas complexas, combustíveis específicos, metais estratégicos e tecnologias sensíveis. A escassez transforma‑se num factor de vulnerabilidade operacional. Controlar recursos é controlar a capacidade de projectar força. Não é por acaso que grandes potências investem em bases navais próximas de rotas energéticas, em parcerias com países ricos em minerais e em programas de investigação que visam reduzir dependências externas. A segurança nacional, no século XXI, mede‑se tanto em barris e toneladas como em batalhões.

A escassez também redefine o conceito de soberania. Estados que dependem de importações críticas tornam‑se vulneráveis a pressões externas, chantagens económicas e manipulações diplomáticas. A autonomia estratégica, tão proclamada em discursos oficiais, é frequentemente uma miragem. A interdependência global, celebrada como um triunfo da modernidade, revela‑se uma teia onde alguns países são aranhas e outros são moscas. A escassez apenas torna esta assimetria mais evidente.

No plano social, a escassez alimenta tensões internas. Populações habituadas a abundância relativa reagem com indignação quando confrontadas com limitações. A percepção de perda mesmo quando simbólica transforma‑se em combustível político para movimentos populistas, discursos nacionalistas e narrativas de culpa externa. A escassez não é apenas um problema material; é também um catalisador emocional. E emoções, como se sabe, são armas poderosas.

A nível ambiental, a escassez é simultaneamente causa e consequência. A exploração intensiva de recursos acelera a degradação dos ecossistemas, que por sua vez reduz a disponibilidade desses mesmos recursos. É um ciclo vicioso que a humanidade insiste em repetir com a convicção ingénua de que a tecnologia resolverá tudo no último minuto. A natureza, porém, não negoceia. Limita‑se a responder.

A geopolítica da escassez é, no fundo, um espelho da nossa incapacidade colectiva de planear a longo prazo. Governos pensam em ciclos eleitorais, empresas em trimestres financeiros, cidadãos em confortos imediatos. A escassez exige visão estratégica, mas o mundo moderno especializou‑se em miopia institucional. A consequência é um planeta onde todos correm para apagar incêndios que eles próprios acenderam.

No entanto, a escassez também pode ser uma oportunidade não no sentido romântico de “crescimento sustentável”, mas no sentido pragmático de obrigar sociedades a repensar modelos económicos, padrões de consumo e estruturas de poder. A escassez força inovação, disciplina e criatividade. Obriga a abandonar ilusões de abundância infinita e a reconhecer que o planeta tem limites físicos que não desaparecem com discursos inspiradores.

A geopolítica dos recursos e da escassez é, portanto, a narrativa central do século XXI. Não é uma crise passageira, mas uma condição estrutural. Não é um problema técnico, mas político. Não é uma ameaça futura, mas presente. E, acima de tudo, não é um desafio que possa ser resolvido com soluções fáceis. Exige coragem, lucidez e uma honestidade que raramente encontramos nas elites globais.

O mundo continuará a disputar recursos com a mesma elegância de sempre ou seja, nenhuma. Continuará a proclamar cooperação enquanto pratica competição. Continuará a celebrar sustentabilidade enquanto consome mais do que pode. A escassez, paciente e implacável, continuará a lembrar‑nos que a realidade não se compadece com ilusões.

No fim, talvez a maior ironia seja esta; não é a falta de recursos que ameaça o futuro da humanidade, mas a falta de imaginação política. Recursos podem ser geridos, distribuídos, substituídos. A imaginação, quando escassa, paralisa. E é essa escassez a mais silenciosa de todas que poderá definir o destino global.

Bibliografia

·         Klare, Michael T. The Race for What’s Left: The Global Scramble for the World’s Last Resources. Metropolitan Books, 2012.

·         Dalby, Simon. Security and Environmental Change. Polity Press, 2009.

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·         IEA – International Energy Agency. World Energy Outlook 2023. IEA Publications, 2023.

·         UNEP – United Nations Environment Programme. Global Resources Outlook 2024. UNEP, 2024.

Sunday, 21 June 2026

O PAPEL DAS CIDADES GLOBAIS NA GOVERNANÇA PLANETÁRIA



Há quem ainda acredite, comoventemente, que o mundo é governado por Estados soberanos, esses veneráveis mastodontes burocráticos que insistem em desfilar pela arena internacional como se fossem os únicos adultos na sala. A realidade, porém, é menos romântica e mais urbana pois as cidades globais, essas criaturas hiperconectadas, desafiantes e insolentemente pragmáticas, tornaram-se os verdadeiros centros de decisão num planeta que não tem paciência para fronteiras, hinos ou discursos inflamados sobre a nação. O Estado-nação, esse monumento do século XIX, continua a existir, claro, mas cada vez mais como peça de museu útil para visitas escolares, mas irrelevante para quem realmente move o tabuleiro.

As cidades globais são o novo clero secular da governança planetária. Não precisam de bandeiras, mas têm logótipos; não precisam de exércitos, mas comandam fluxos financeiros capazes de derrubar governos; não precisam de diplomatas, porque têm CEOs, universidades, startups e redes de influência que atravessam continentes com a mesma facilidade com que um turista atravessa a Times Square. São entidades políticas pós-modernas, com a subtileza de uma metrópole que sabe que manda, mas finge que não manda assim tanto, para não ferir susceptibilidades dos Estados que ainda acreditam que mandam alguma coisa.

A ascensão das cidades globais não é um acidente histórico, mas a consequência lógica de um mundo que se urbanizou, digitalizou e globalizou ao ponto de não conseguir respirar dentro das velhas estruturas estatais. Quando metade da população mundial vive em cidades e quando essas cidades concentram riqueza, conhecimento, inovação e redes logísticas, é apenas natural que se tornem os novos centros de poder. O que é menos natural e mais divertido é observar como os Estados continuam a fingir que controlam estas criaturas que, na prática, não cabem dentro das suas fronteiras administrativas.

As cidades globais são laboratórios de governança que funcionam à velocidade da realidade, enquanto os Estados funcionam à velocidade de um fax. Quando surge um problema global como alterações climáticas, migrações, pandemias, desigualdades, cibersegurança são as cidades que respondem primeiro, porque não têm tempo para esperar por cimeiras internacionais onde ministros posam para fotografias e assinam documentos que ninguém lê. As cidades não têm esse luxo pois se o ar está irrespirável, têm de o limpar; se a água escasseia, têm de a gerir; se a habitação dispara, têm de inventar soluções; se a economia muda, têm de se adaptar. O Estado pode sempre adiar para a próxima legislatura; a cidade não pode adiar o trânsito da manhã.

A governança planetária, entendida como a capacidade de gerir problemas que ignoram fronteiras, está a deslocar-se para estas metrópoles que, ironicamente, nunca foram pensadas para governar o mundo. Mas governam-no, precisamente porque são as únicas entidades capazes de lidar com a complexidade contemporânea. Nova Iorque, Londres, Singapura, Xangai, Dubai, São Paulo, Tóquio, Hong Kong, Paris são cada uma com o seu estilo, o seu ego e a sua arrogância que formam uma constelação de poder que opera paralelamente às instituições internacionais, muitas vezes com mais eficácia e menos cerimónia.

A ironia é que as cidades globais não têm exércitos, mas têm algo muito mais perigoso que é relevância. E relevância, no século XXI, vale mais do que tanques. Quem controla fluxos de capitais, dados, talento e inovação controla o mundo. E quem controla isso são as cidades, não os Estados. Os Estados podem ter bandeiras, mas as cidades têm servidores, hubs financeiros, clusters tecnológicos, universidades de topo e aeroportos que funcionam como portais para o planeta. A soberania, essa palavra tão querida aos constitucionalistas, tornou-se um conceito geograficamente deslocado pois não reside no território, mas na conectividade.

A governança planetária é, portanto, uma espécie de teatro onde os Estados continuam a desempenhar papéis principais, mas onde as cidades são as verdadeiras protagonistas. São elas que implementam políticas climáticas, que criam redes de cooperação transnacional, que definem padrões de mobilidade, que inovam em políticas sociais, que atraem investimento e que moldam a economia global. Os Estados assinam tratados; as cidades fazem coisas. E, num mundo saturado de problemas urgentes, fazer coisas é um acto de poder.

A cooperação entre cidades globais é um fenómeno fascinante, porque ignora completamente a diplomacia tradicional. Não há embaixadores, não há notas verbais, não há protocolos rígidos. Há redes como C40, ICLEI, Metropolis, Global Parliament of Mayors. Redes onde presidentes de câmara falam entre si como gestores de empresas, trocando soluções, estratégias e boas práticas com uma informalidade que faria corar qualquer ministro dos Negócios Estrangeiros. Enquanto os Estados discutem durante anos a redução de emissões, as cidades implementam zonas de emissões zero, redes de transportes eléctricos e políticas de urbanismo sustentável. Enquanto os Estados debatem migrações, as cidades lidam com migrantes e necessidades reais, em bairros verdadeiros. Enquanto os Estados discutem a economia digital, as cidades constroem ecossistemas tecnológicos que atraem empresas e talento global.

A cidade global é, por definição, um espaço de pragmatismo. Não tem tempo para ideologias, porque tem de resolver problemas concretos. Não tem tempo para discursos inflamados, porque tem de gerir orçamentos, infra-estruturas e serviços públicos. Não tem tempo para guerras culturais, porque tem de garantir que a água chega às torneiras e que o metro funciona. A política urbana é a política real, aquela que afecta a vida das pessoas todos os dias. E é por isso que as cidades se tornaram actores centrais da governança planetária porque são as únicas entidades que ainda sabem governar.

Claro que esta ascensão das cidades globais não é isenta de contradições. A desigualdade urbana é um dos maiores desafios do nosso tempo, e as cidades globais são simultaneamente motores de inovação e máquinas de exclusão. A gentrificação, a especulação imobiliária, a segregação socioeconómica e a precarização laboral são sintomas de um modelo urbano que produz riqueza, mas não a distribui. As cidades globais são vitrinas de modernidade, mas também são fábricas de desigualdade. E, no entanto, são elas que estão a liderar a resposta a esses mesmos problemas, muitas vezes com mais coragem do que os Estados.

A governança planetária que emerge das cidades globais é, portanto, ambígua; poderosa, mas desigual; inovadora, mas imperfeita; pragmática, mas vulnerável. É uma governança que funciona, mas que não resolve tudo. É uma governança que avança, mas que tropeça. É uma governança que se impõe, não porque alguém a tenha legitimado, mas porque ninguém mais está a fazer o trabalho.

O futuro do poder global será cada vez mais urbano. Não porque os Estados desapareçam pois  são demasiado teimosos, mas porque as cidades continuarão a expandir a sua influência até ao ponto em que a distinção entre política interna e externa se torne irrelevante. Quando uma cidade como Singapura negoceia directamente com multinacionais, quando Nova Iorque define padrões financeiros globais, quando Paris lidera políticas climáticas, quando Xangai molda cadeias de abastecimento, estamos perante uma nova forma de poder que não cabe nos manuais tradicionais de relações internacionais.

As cidades globais são, em última análise, o espelho de um mundo que deixou de acreditar em fronteiras como forma de organizar a vida colectiva. São espaços onde o global e o local se fundem, onde a diversidade é norma, onde a inovação é rotina e onde a política é feita com a urgência de quem sabe que o futuro não espera. São entidades pós-soberanas, pós-estatais, pós-ilusões. E, por isso mesmo, são as únicas capazes de governar um planeta que não tem paciência para nostalgias territoriais.

O papel das cidades globais na governança planetária é, portanto, inevitável. Não porque alguém o tenha decidido, mas porque o mundo assim o exige. As cidades são os novos centros de poder, os novos laboratórios de políticas públicas, os novos actores internacionais. São o futuro, quer os Estados gostem ou não. E, como sempre acontece com o futuro, ele chega primeiro às cidades e só depois, muito depois, aos Estados que ainda tentam perceber o que aconteceu.

Bibliografia

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·         Barber, Benjamin - If Mayors Ruled the World: Dysfunctional Nations, Rising Cities - Yale University Press, 2013.

·         Florida, Richard - The Rise of the Creative Class - Basic Books, 2014.

·         Glaeser, Edward - Triumph of the City - Penguin Press, 2011.

·         Koolhaas, Rem - Delirious New York - Monacelli Press, 1994.

·         Taylor, Peter J. - World City Network: A Global Urban Analysis - Routledge, 2004.

·         OECD - The Metropolitan Century: Understanding Urbanisation and its Consequences - OECD Publishing, 2015.

Monday, 15 June 2026

Entre a Retórica Verde e o Realismo Cru: Os Paradoxos da Diplomacia da Sustentabilidade

 



Vivemos tempos curiosos, onde a urgência climática se mistura com o pragmatismo geopolítico numa dança que, por vezes, parece mais um tropeção ensaiado do que um passo coreografado. A sustentabilidade, outrora um conceito vago sussurrado em círculos académicos e por activistas com pinta de profetas do apocalipse, transformou-se num tema central na arena internacional. Deixou de ser apenas uma questão de salvar ursos polares para se tornar uma moeda de troca poderosa nas relações entre estados, um trunfo diplomático tão cobiçado quanto um acordo comercial vantajoso ou uma aliança militar estratégica. É neste cenário, onde o planeta emite sinais cada vez mais estridentes de febre e os decisores políticos parecem, por vezes, mais preocupados em gerir a opinião pública do que em resolver o problema, que a diplomacia da sustentabilidade ganha contornos fascinantes, e por vezes, francamente, ridículos. Afinal, quem diria que proteger o ambiente se tornaria um desporto de alto rendimento, jogado em palcos internacionais com relatórios complexos, cimeiras intermináveis e promessas tão grandiosas quanto a capacidade de as cumprir?

A Ascensão da Sustentabilidade no Palco Global

Durante décadas, a agenda ambiental foi marginalizada, relegada para um canto poeirento das negociações internacionais, vista como um luxo acessório para países ricos ou uma distração para as verdadeiras preocupações económicas e de segurança. O foco estava, naturalmente, na guerra fria, na liberalização do comércio e nas crises financeiras. A natureza podia esperar, pensava a velha guarda diplomática, mais habituada a mapas de fronteiras do que a curvas de temperatura. No entanto, a realidade, com a sua teimosia habitual, começou a impor-se. Inundações sem precedentes, secas prolongadas, ondas de calor letais e a subida implacável do nível do mar deixaram de ser eventos isolados para se tornarem as manchetes diárias. A ciência, com os seus gráficos e modelos, começou a gritar mais alto do que qualquer lobby industrial, pintando um quadro cada vez mais sombrio para o futuro do planeta. Foi neste contexto que a sustentabilidade deixou de ser um mero capricho ambientalista para se metamorfosear numa força motriz na política externa. De repente, países que antes ignoravam o tema começaram a falar a língua da descarbonização, das energias renováveis e da biodiversidade. Passaram a entender que a forma como um país gere os seus recursos naturais e emite gases com efeito de estufa não é apenas um assunto interno, mas uma questão de interesse global, com ramificações directas na sua segurança e prosperidade. A diplomacia da sustentabilidade emergiu como a nova fronteira, onde acordos sobre emissões são tão importantes quanto tratados de paz, e a transição energética se tornou um novo campo de batalha para a influência global.

Ferramentas e Tácticas da Nova Diplomacia Verde

A diplomacia da sustentabilidade não se resume a discursos inspiradores em palcos de cimeiras e a fotos com florestas ao fundo. É um jogo de xadrez complexo, com um arsenal de ferramentas e tácticas que vão desde a coerção subtil à cooperação estratégica. Uma das armas mais poderosas é a do financiamento. Países desenvolvidos, outrora os maiores poluidores, agora sentem a necessidade de compensar o seu legado histórico através de fundos destinados a ajudar nações em desenvolvimento a adaptarem-se às mudanças climáticas e a adoptarem tecnologias mais limpas. O Fundo Verde para o Clima, por exemplo, é uma tentativa de canalizar recursos para projectos de mitigação e adaptação, embora a sua eficácia e a lentidão na alocação de fundos sejam frequentemente criticadas. Outra ferramenta é a da regulamentação e dos padrões. Acordos como o Acordo de Paris estabelecem metas ambiciosas para a redução de emissões, mas a sua implementação depende da vontade política de cada país e da capacidade de monitorização e verificação. A União Europeia tem sido particularmente activa neste campo, com a sua política de quotas de carbono e a imposição de tarifas sobre produtos de países com normas ambientais menos rigorosas, uma medida que, para alguns, soa a proteccionismo disfarçado de ecologismo. A tecnologia é, sem dúvida, um vector crucial. A competição e a cooperação no desenvolvimento de energias renováveis, como a solar e a eólica, e de tecnologias de captura de carbono, moldam alianças e rivalidades. A China, por exemplo, emergiu como líder na produção de painéis solares e baterias, influenciando cadeias de abastecimento globais e aumentando o seu poder económico e geopolítico. A diplomacia do conhecimento, através da partilha de investigação e boas práticas, também desempenha um papel, embora por vezes limitada pela desconfiança e pela rivalidade científica. Não podemos esquecer, claro, da diplomacia pública e da influência cultural. Campanhas de sensibilização, a promoção de estilos de vida sustentáveis e o apoio a organizações não governamentais criam pressão popular e moldam a opinião pública, exercendo influência indirecta sobre as decisões dos governos.

Os Desafios e as Contradições: Um Espectáculo de Hipocrisia?

Apesar da retórica inflamada e dos acordos pomposos, a diplomacia da sustentabilidade está longe de ser um mar de rosas. As contradições e os interesses nacionais, muitas vezes, descaracterizam a urgência da causa. Um dos maiores desafios é a assimetria entre a retórica e a acção. Governos que prometem ambiciosamente em cimeiras internacionais frequentemente falham em cumprir as suas metas internas, seja por falta de vontade política, por pressões económicas ou por interesses sectoriais poderosos. A dependência de combustíveis fósseis, por exemplo, continua a ser uma realidade para a maioria dos países, e a transição para energias limpas é um processo doloroso e caro, que gera resistência interna e dilemas geopolíticos. A questão da justiça climática também é um ponto nevrálgico. Países em desenvolvimento argumentam, com razão, que os países ricos, responsáveis pela maior parte das emissões históricas, deveriam arcar com o fardo financeiro e tecnológico da transição. No entanto, a realidade é que a pressão por desenvolvimento económico muitas vezes supera as preocupações ambientais em nações mais pobres, criando um ciclo vicioso. A geopolítica da sustentabilidade também levanta questões espinhosas. A disputa por recursos estratégicos para a transição energética, como o lítio, cobalto e terras raras, está a criar novas dependências e a alimentar rivalidades entre as grandes potências. A China, novamente, joga um papel central neste tabuleiro, controlando grande parte das cadeias de abastecimento destes minerais. A questão de como garantir um acesso justo e sustentável a estes recursos, evitando a exploração e a degradação ambiental, é um desafio diplomático monumental. Para além disso, a dificuldade em alcançar um consenso global é gritante. Cada país tem as suas prioridades, capacidades e  perspectivas. O que é urgente para uma nação insular ameaçada pela subida do nível do mar pode ser secundário para um país com vastas reservas de petróleo. Esta fragmentação de interesses torna a cooperação internacional um exercício árduo, muitas vezes marcado por negociações lentas, concessões dolorosas e acordos que, na prática, diluem as ambições originais. A hipocrisia, essa velha companheira da política, parece estar sempre à espreita, com países a exigirem sacrifícios dos outros enquanto se mostram relutantes em mudar os seus  hábitos.

Estudos de Caso: Exemplos Reais de Diplomacia da Sustentabilidade

A teoria é uma coisa, a prática é outra. E no campo da diplomacia da sustentabilidade, os exemplos concretos revelam tanto o potencial quanto as limitações desta nova abordagem. Tomemos o caso do Acordo de Paris (2015). Foi um marco histórico, pois conseguiu, pela primeira vez, unir quase todas as nações do mundo num compromisso comum para limitar o aquecimento global a menos de 2 graus Celsius, preferencialmente a 1.5 graus Celsius. A sua força reside na abordagem descentralizada, com cada país a apresentar as suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) que são metas de redução de emissões. No entanto, a sua fragilidade é evidente pois as NDCs actuais, se totalmente implementadas, ainda não são suficientes para atingir os objectivos de temperatura, e a sua aplicação depende da boa vontade e da capacidade de cada Estado. A saída temporária dos Estados Unidos sob a administração Trump foi um duro golpe, demonstrando a fragilidade de qualquer acordo multilateral quando os interesses nacionais de uma grande potência divergem.

Outro exemplo interessante é a da União Europeia e a sua política de "Frontex". Embora não seja estritamente uma diplomacia da sustentabilidade, a sua abordagem de impor taxas de carbono a produtos importados de países com regulamentações ambientais mais brandas, conhecida como Mecanismo de Ajustamento de Fronteiras de Carbono (CBAM), é uma forma de pressionar outros países a adoptarem práticas mais sustentáveis. Esta medida visa evitar a "fuga de carbono", onde empresas europeias se mudariam para países com regulamentações menos rigorosas para reduzir custos. No entanto, é vista por muitos como uma forma de proteccionismo e tem gerado tensões com parceiros comerciais, que a consideram discriminatória. A diplomacia climática do Brasil é outro caso complexo. Historicamente um grande emissor devido ao desmatamento na Amazónia, o Brasil tem oscilado entre políticas de conservação e desenvolvimento predatório. Durante a cimeira do clima COP26 em Glasgow, o país fez promessas de redução do desmatamento, mas a sua credibilidade é frequentemente posta em causa pela inconsistência das suas acções internas. A pressão internacional, através da diplomacia, e a ameaça de sanções comerciais, têm sido factores importantes para influenciar as políticas ambientais brasileiras.

No outro extremo, encontramos exemplos de cooperação bem sucedida, como a gestão conjunta de bacias hidrográficas transfronteiriças ou a protecção de ecossistemas partilhados. A Iniciativa do Triângulo do Coral, envolvendo países do Sudeste Asiático, é um exemplo de colaboração para a conservação marinha, reconhecendo que a saúde dos oceanos não conhece fronteiras políticas. Estes casos, embora menos mediáticos, demonstram que a diplomacia da sustentabilidade pode funcionar quando os interesses mútuos são claros e a cooperação é pragmática e focada em resultados tangíveis, em vez de discursos vazios.

O Futuro da Diplomacia da Sustentabilidade: Entre o Optimismo Cauteloso e o Realismo Desencantado

O caminho a percorrer pela diplomacia da sustentabilidade é longo e sinuoso. O optimismo cauteloso reside na crescente consciencialização global sobre a crise climática e na emergência de novas gerações de líderes e cidadãos mais engajados com a causa ambiental. A tecnologia, com o seu potencial disruptivo, pode oferecer soluções inovadoras que antes pareciam impossíveis. A pressão dos mercados financeiros, que cada vez mais consideram os riscos climáticos nos seus investimentos, também pode ser um motor para a mudança. A diplomacia da sustentabilidade, se bem gerida, pode tornar-se um instrumento poderoso para promover a cooperação internacional, impulsionar a inovação e garantir um futuro mais equitativo e resiliente para todos.

No entanto, o realismo desencantado não pode ser ignorado. Os interesses nacionais, a competição geopolítica e a inércia de sistemas económicos baseados em combustíveis fósseis são obstáculos formidáveis. A tentação de priorizar ganhos económicos de curto prazo em detrimento da sustentabilidade a longo prazo é uma constante. A possibilidade de a diplomacia da sustentabilidade se tornar apenas mais uma arena de disputa entre potências, onde o discurso ecológico serve de fachada para agendas económicas e estratégicas, é real. O desafio reside em transformar a retórica em acção concreta, as promessas em resultados mensuráveis, e a cooperação em compromissos firmes. A diplomacia da sustentabilidade tem o potencial de ser uma força transformadora, mas apenas se for capaz de transcender as suas contradições e de enfrentar, de frente e sem rodeios, os desafios éticos, económicos e políticos que se apresentam. A questão que fica é se a humanidade tem a capacidade de agir de forma colectiva e responsável antes que seja tarde demais, ou se continuaremos a assistir a um espectáculo diplomático onde as palavras são mais verdes do que as acções.

Bibliografia

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Friday, 12 June 2026

O declínio das hegemonias e o surgimento das alianças líquidas






Vivemos tempos de vertigem, onde as certezas outrora sólidas parecem esboroar-se como castelos de areia perante a maré implacável da mudança. A velha ordem mundial, marcada pela claridade das hegemonias e pela previsibilidade das alianças de ferro, dá sinais evidentes de fadiga. O colosso americano, que se julgava eterno na sua majestade unipolar, confronta rachas internas e desafios externos que minam a sua incontestabilidade. As potências emergentes, outrora humildes aprendizes, agora exibem uma confiança que roça a arrogância, desafiando a primazia estabelecida. E no meio deste pandemónio de realinhamentos, as antigas alianças, outrora pilares de estabilidade, parecem dissolver-se em contornos cada vez mais fluidos, as chamadas alianças líquidas, onde o compromisso é tão volátil quanto um tweet matinal.

O Crepúsculo do Império Unipolar

Durante décadas, o mundo habituou-se a um certo centro X de gravidade, um pólo dominante cujas decisões, por mais controversas que fossem, moldavam o destino global. A hegemonia americana, que emergiu vitoriosa da Guerra Fria, foi um fenómeno de tal magnitude que alguns a proclamavam como o "fim da história". Contudo, a história, com a sua teimosia habitual, decidiu continuar o seu curso, e o império unipolar começou a mostrar as suas rugas. As intervenções militares nem sempre gloriosas no Médio Oriente, com os seus custos humanos e financeiros exorbitantes, deixaram um rasto de descontentamento interno e de questionamento externo. A crise financeira de 2008, com as suas reverberações globais, expôs as fragilidades de um sistema capitalista que, para muitos, parecia inquebrável. E internamente, a polarização política e a ascensão de movimentos populistas demonstraram que a unidade nacional, um pré requisito para o exercício de uma hegemonia robusta, estava longe de ser garantida. A força militar, outrora a epítome do poder americano, vê-se cada vez mais confrontada com desafios assimétricos, onde drones e ciberataques desconstroem a superioridade convencional. A América, afogada em debates internos e na tentação do isolacionismo, parece ter perdido o apetite para o papel de polícia do mundo, um papel que, sejamos sinceros, nunca foi totalmente voluntário.

A Ascensão das Potências Desafiadoras

Paralelamente ao ocaso da estrela americana, outras constelações começaram a ganhar brilho no firmamento geopolítico. A China, com o seu crescimento económico meteórico, deixou de ser uma mera fábrica do mundo para se tornar um jogador com ambições globais. A sua iniciativa "Um Cinturão, Uma Rota" é um exemplo claro da sua estratégia de expansão de influência, construindo infra-estruturas e tecendo redes económicas que contornam as estruturas ocidentais. A Rússia, com a sua retórica assertiva e uma capacidade militar que teima em não ser ignorada, recuperou um protagonismo que muitos julgavam perdido. As suas ações na Ucrânia e a sua influência em conflitos regionais demonstram uma determinação em redefinir as regras do jogo. E não nos esqueçamos das potências médias, como a Índia, o Brasil ou a Turquia, que, cada uma à sua maneira, procuram afirmar os seus próprios interesses e desafiar a ordem existente. Estas potências não aspiram necessariamente a substituir a hegemonia americana, mas sim a criar um mundo multipolar, onde as suas vozes sejam ouvidas e os seus interesses respeitados. Elas operam num espaço onde a diplomacia se mistura com a demonstração de força, onde a cooperação é condicional e o confronto, por vezes, tentador.

A Natureza Fluida das Alianças

Neste novo cenário, as alianças tradicionais, outrora sólidas como rocha, começam a mostrar fissuras preocupantes. A NATO, concebida para conter a ameaça soviética, encontra-se a debater se o seu propósito e a sua relevância num mundo sem um inimigo claro e unívoco. Os laços transatlânticos, que pareciam indestrutíveis, são postos à prova por divergências económicas, políticas e até mesmo ideológicas. O que vemos é um movimento em direcção a alianças mais flexíveis, mais adaptáveis às circunstâncias e aos interesses do momento. São as chamadas alianças líquidas, onde os membros se juntam para resolver um problema específico, colaboram num projecto pontual, mas sem o compromisso duradouro e a lealdade inquestionável que caracterizavam as alianças do passado. Pensemos nas coligações ad hoc para combater o terrorismo, onde países com agendas distintas se unem temporariamente, ou nas parcerias económicas que surgem e desaparecem conforme as oportunidades de negócio. Esta liquidez oferece vantagens, permitindo uma maior agilidade e adaptabilidade, mas também acarreta riscos consideráveis. A imprevisibilidade aumenta, a confiança diminui e a possibilidade de conflitos por mal entendidos ou interesses divergentes torna-se mais premente. A lealdade, outrora um valor supremo nas relações internacionais, parece ter sido substituída pela conveniência.

As Causas Profundas da Mudança

Mas quais são as raízes desta transformação sísmica? Vários factores concorrem para o desmoronamento da antiga ordem. A globalização, que paradoxalmente fortaleceu a hegemonia ocidental nas suas fases iniciais, acabou por criar as condições para o seu próprio questionamento. A disseminação da informação, impulsionada pela internet e pelas redes sociais, tornou o mundo mais interligado, mas também mais consciente das desigualdades e das injustiças. A ascensão económica de novas potências, resultante de décadas de investimento e de trabalho árduo, alterou o equilíbrio de poder de forma irreversível. A democratização do acesso à tecnologia, incluindo armamento avançado, nivelou o campo de jogo e tornou mais difícil para uma única potência impor a sua vontade. Além disso, assistimos a um cansaço geral, tanto nas populações dos países hegemónicos, que se sentem sobrecarregadas com os encargos de manter a ordem mundial, quanto nas populações dos países periféricos, que se ressentem da tutela externa. Há uma ânsia por autonomia, por autodeterminação, por um lugar ao sol que não dependa da permissão de potências estrangeiras. As ideologias, outrora blocos estanques de pensamento, tornaram-se mais fluidas e híbridas, misturando elementos de nacionalismo, liberalismo e pragmatismo de uma forma que desafia as categorias simplistas.

As Consequências e os Desafios Futuros

O declínio das hegemonias e o surgimento das alianças líquidas trazem consigo um leque de consequências que irão moldar o século XXI. A instabilidade e a imprevisibilidade tendem a aumentar. A ausência de um árbitro global claro e incontestável pode levar a um aumento das rivalidades regionais e a um maior risco de conflitos. A cooperação em desafios globais prementes, como as alterações climáticas, as pandemias ou a proliferação nuclear, torna se mais difícil num ambiente de desconfiança mútua e de interesses divergentes. As instituições internacionais, como as Nações Unidas, que foram criadas num contexto de ordem unipolar, podem ter dificuldade em adaptar-se a esta nova realidade multipolar e fluida. No entanto, nem tudo é sombrio. A emergência de novas potências pode trazer novas perspectivas e novas soluções para problemas globais. As alianças líquidas, apesar da sua fragilidade, podem permitir uma maior agilidade na resposta a crises específicas. O mundo torna-se, sem dúvida, mais complexo, mas talvez também mais representativo da diversidade de interesses e de perspectivas existentes. O desafio para os decisores políticos e para os cidadãos será o de navegar neste novo cenário com sabedoria, procurando construir pontes em vez de muros, promovendo o diálogo e a cooperação em vez do confronto, e aceitando que o futuro não será mais moldado por uma única voz, mas por um coro polifónico de vozes, por vezes dissonantes, mas inegavelmente presentes. A capacidade de adaptação, a flexibilidade e uma boa dose de pragmatismo serão as qualidades essenciais para sobreviver e prosperar nesta nova era. O mundo não é o que era, e a pretensão de que o seja é, no mínimo, ingénua.

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