Tuesday, 21 July 2026

O papel das religiões na paz global

 



Há quem diga que as religiões são o bálsamo da humanidade, o perfume espiritual que disfarça o odor acre das guerras e das misérias. Outros, mais realistas ou mais cínicos, conforme o humor do dia sustentam que são precisamente as religiões que, em nome da paz, acendem as fogueiras da intolerância. O mundo, esse teatro de contradições, parece divertir-se com o paradox de quanto mais se prega o amor universal, mais se multiplicam os exércitos de fiéis armados de certezas.

A paz global é, para as religiões, uma espécie de acção de marketing celestial. Cada credo promete um paraíso de harmonia, mas exige, em troca, fidelidade absoluta e, se possível, uma contribuição generosa para o fundo espiritual. A paz, portanto, é vendida em suaves prestações de fé. O fiel paga com obediência, o sacerdote cobra com autoridade, e o divino, lá do alto, observa o espectáculo com uma ironia que faria corar qualquer filósofo.

O curioso é que todas as religiões, sem excepção, proclamam o mesmo ideal de amar o próximo. O problema é que cada uma define “próximo” de maneira muito particular. Para algumas, o próximo é o vizinho que partilha o mesmo credo; para outras, é o infiel que precisa ser convertido ou eliminado, se insistir em permanecer teimosamente errado. Assim, a paz torna-se um conceito flexível, adaptável às conveniências do momento.

A história humana é um catálogo de guerras santas, cruzadas piedosas e jihadismos fervorosos. Em cada época, um grupo de iluminados decide que Deus precisa de ajuda para impor a sua vontade. E lá vão eles, espada em punho, salvar o mundo da perdição deixando atrás de si um rasto de cadáveres e templos incendiados.

Mas não sejamos injustos. As religiões também construíram hospitais, escolas e universidades. Ensinaram a ler, a cantar e a rezar. O problema é que, entre uma oração e uma batalha, o fiel raramente distingue onde termina a fé e começa o fanatismo. A fronteira é tão ténue que até os anjos, se existirem, devem ter dificuldade em perceber quem está do lado certo.

Vivemos numa era em que se fala muito de diálogo inter-religioso. Conferências, simpósios, fóruns todos com títulos pomposos e coffee breaks generosos. Os líderes espirituais reúnem-se, trocam abraços protocolares e declaram solenemente que “a paz é possível”. No dia seguinte, cada um regressa ao seu púlpito e reafirma que a sua doutrina é a única verdadeira.

A tolerância, nesse contexto, é uma virtude de fachada. Tolera-se o outro desde que ele não questione o dogma. É uma paz de salão, elegante e fotogénica, mas tão frágil quanto um vitral antigo. A ironia é que, enquanto os teólogos discutem o significado da misericórdia, o mundo continua a arder e Deus, se tiver senso de humor, deve rir-se da comédia humana.

As religiões sempre tiveram uma relação ambígua com o poder político. Ora o abençoam, ora o condenam, conforme sopram os ventos da conveniência. Quando o trono é favorável, o altar ajoelha-se em gratidão; quando o trono se torna hostil, o altar ergue-se em resistência. É uma dança antiga, coreografada pela hipocrisia e pela necessidade.

Em nome da paz, muitos líderes religiosos tornaram-se diplomatas de luxo. Participam em cimeiras, assinam tratados, discursam sobre fraternidade universal e regressam aos seus palácios dourados, onde a paz é garantida por muros altos e seguranças armados. A espiritualidade, nesses casos, é um produto de exportação pois vende-se bem, especialmente quando embalada em retórica humanitária.

O papel das religiões na paz global é, antes de tudo, simbólico. Elas oferecem ao mundo uma narrativa de sentido e uma explicação para o caos. O problema é que, muitas vezes, essa narrativa é escrita em linguagem de exclusão. O “nós” e o “eles” tornam-se categorias sagradas, e a paz transforma-se num privilégio reservado aos que pertencem ao grupo certo.

O sermão dominical, o cântico matinal, o mantra vespertino todos são actos de fé, mas também de identidade. O fiel não busca apenas a paz interior; busca o reconhecimento social de pertencer a uma comunidade moralmente superior. A religião, nesse sentido, é um teatro onde cada crente desempenha o papel de virtuoso, mesmo quando o cenário é de hipocrisia.

Há, contudo, uma corrente crescente de espiritualidade sem rótulos. Pessoas que meditam, contemplam e procuram a paz sem precisar de intermediários divinos. São os novos místicos do século XXI menos preocupados com o inferno e mais interessados em reduzir o stress. Para eles, a paz global começa no silêncio interior, não nas proclamações públicas.

Esses novos devotos da serenidade são vistos com desconfiança pelos guardiões da ortodoxia. Afinal, uma fé sem hierarquia é uma ameaça ao negócio da salvação. A ironia é que, talvez, sejam precisamente esses “hereges” modernos os que mais contribuem para a paz pois não impõem, não convertem e não guerreiam. Limitam-se a respirar fundo e a tentar não odiar ninguém que é um gesto revolucionário, se comparado com a história das religiões organizadas.

A paz é um produto valioso, e as religiões sabem disso. Prometem-na em troca de fé, de sacrifício e, por vezes, de donativos. O templo, a igreja, a mesquita, o santuário todos funcionam como agências espirituais de esperança. O fiel entra aflito e sai reconfortado, ainda que o mundo continue o mesmo.

O sarcasmo da situação é evidente pois enquanto se prega a renúncia aos bens materiais, os líderes religiosos acumulam fortunas. A paz espiritual, afinal, exige manutenção e essa manutenção custa caro. O altar é um negócio rentável, e o céu, uma marca registada.

Imaginemos, por um instante, um mundo em que todas as religiões se unissem sinceramente pela paz. Seria uma revolução moral sem precedentes. Mas, para isso, seria necessário abdicar da pretensão de exclusividade e essa é uma renúncia que poucos credos estão dispostos a fazer.

A utopia da paz universal é bela, mas impraticável. Cada religião acredita possuir a verdade absoluta, e a verdade, por definição, não admite concorrência. Assim, o diálogo inter-religioso é uma conversa entre surdos educados que todos falam e ninguém escuta.

Se Deus existe e se tem o mínimo de senso de humor deve observar a humanidade com uma mistura de ternura e impaciência. Criou seres capazes de amar, mas também de odiar em Seu nome. Deu-lhes liberdade, e eles transformaram-na em dogma. Ofereceu-lhes paz, e eles responderam com guerras santas.

A ironia divina é que, apesar de tudo, a fé continua a ser uma força poderosa. Inspira gestos de compaixão, obras de caridade, movimentos de reconciliação. Mesmo quando mal interpretada, a religião ainda é capaz de produzir beleza. O problema não está na fé, mas na administração da fé e essa, infelizmente, é gerida por humanos.

No fim, talvez a verdadeira paz seja uma forma de heresia. Uma rebeldia contra o dogma da separação, contra a arrogância das certezas. A paz global não nascerá dos púlpitos nem das cimeiras religiosas; nascerá do reconhecimento humilde de que nenhuma crença tem o monopólio da verdade.

As religiões, se quiserem realmente contribuir para a paz, terão de aprender a rir de si próprias  e a aceitar que o sagrado também pode ser irónico. Só então deixarão de ser instrumentos de poder para se tornarem pontes de humanidade.

E talvez, nesse dia improvável, o mundo descubra que Deus não exige templos nem guerras, apenas um pouco de decência e, quem sabe, um sorriso sarcástico diante da própria tragédia humana.

Bibliografia

·         Köbrich, J., & Hoffmann, L. (2023). What do we know about religion and interreligious peace? A review of the quantitative literature. Cambridge University Press. https://doi.org/10.1017/S1755048323000238

·         Bandeira, I. I. B. P. C. (2020). O Papel da Religião na Resolução de Conflitos e Construção da Paz. Universidade de Coimbra. https://hdl.handle.net/10316/94663

·         Driessen, M. D. (2025). Interreligious Dialogue, Conflict Resolution and Peacebuilding: A Review. Religions, 16(2), 150. https://doi.org/10.3390/rel16020150

Thursday, 9 July 2026

O renascimento das culturas locais na era global



Há quem insista que vivemos numa aldeia global, essa fantasia tecnocrática onde todos bebem o mesmo café aguado, usam o mesmo telemóvel e repetem as mesmas palavras vazias como se fossem mantras corporativos. A globalização, dizem, trouxe progresso, conectividade, oportunidades. Claro que trouxe sobretudo para quem estava sentado à mesa do banquete. Para os restantes, ofereceu uma espécie de bilhete de entrada para um parque temático onde tudo é igual, previsível e embalado em plástico. Mas, ironicamente, é precisamente neste cenário de homogeneização que as culturas locais começam a renascer com uma teimosia quase poética, como ervas daninhas a romper o cimento da modernidade global.

O fenómeno não é novo, mas ganhou uma intensidade particular nas últimas décadas. A globalização prometeu dissolver fronteiras, mas acabou por provocar uma espécie de ressaca identitária. Quando tudo se torna igual, o diferente transforma‑se em luxo. E quando o luxo é inacessível, o que resta é a memória, essa teimosa guardiã de práticas, sabores, rituais e linguagens que recusam desaparecer. O renascimento das culturas locais não é um capricho nostálgico; é uma resposta política, estética e emocional à monotonia global. É a recusa em aceitar que o mundo seja apenas uma imensa sala de espera decorada pela mesma cadeia de lojas.

A ironia é deliciosa pois quanto mais global o mundo se torna, mais local ele precisa de ser para continuar habitável. As culturas locais funcionam como antídotos contra a vertigem da uniformização. São pequenas rebeliões quotidianas que lembram que a diversidade não é um slogan publicitário, mas uma condição de sobrevivência. E, claro, também são excelentes oportunidades de negócio porque nada escapa ao radar do mercado, nem sequer a autenticidade. O capitalismo descobriu que o “local” vende, que o “tradicional” emociona, que o “artesanal” convence. Assim, o renascimento das culturas locais é simultaneamente genuíno e estrategicamente explorado, uma dança ambígua entre resistência e mercantilização.

O que torna este renascimento particularmente interessante é a sua natureza híbrida. Não se trata de um regresso ao passado, mas de uma reinterpretação contemporânea do que significa ser local. As comunidades reinventam tradições, adaptam rituais, recuperam técnicas e linguagens, mas fazem-no com plena consciência do mundo global em que vivem. A cultura local renascida não é um museu; é um laboratório. E, como qualquer laboratório, produz resultados inesperados, por vezes contraditórios, mas sempre reveladores.

Tomemos como exemplo a gastronomia esse campo de batalha onde o global e o local se enfrentam com talheres afiados. Durante anos, a comida globalizada tentou impor o seu domínio com cadeias de fast food, menus padronizados, sabores calibrados para não ofender ninguém. Mas eis que, de repente, os pratos tradicionais, os ingredientes endémicos e as técnicas ancestrais voltam a ocupar o centro do palco. Não porque sejam exóticos, mas porque são reais. A globalização ensinou-nos a desconfiar do artificial, e o local oferece precisamente o contrário que é textura, história, imperfeição. O renascimento gastronómico é, portanto, uma forma de resistência sensorial, uma afirmação de que o sabor não pode ser uniformizado sem perder a alma.

O mesmo acontece com as línguas. Durante décadas, o inglês foi apresentado como o idioma inevitável da modernidade, a chave para o sucesso global. Mas, enquanto isso, línguas regionais, dialectos e formas de expressão locais começaram a recuperar espaço. Não por patriotismo, mas por necessidade. A língua é o território mais íntimo da identidade, e quando esse território é ameaçado, a resposta é quase sempre visceral. O renascimento linguístico é uma forma de dizer: “Estamos aqui, e não pretendemos desaparecer.” E, claro, também é uma forma de irritar aqueles que acreditam que o mundo seria mais eficiente se todos falassem como manuais de instruções.

A cultura local renasce também através das artes. A música, a dança, o artesanato, a literatura e tudo aquilo que parecia condenado a sobreviver apenas em festivais folclóricos para turistas regressa com força renovada. Não como peça de museu, mas como expressão contemporânea. Jovens artistas recuperam ritmos antigos, reinventam narrativas tradicionais, reinterpretam símbolos que estavam esquecidos. O resultado é uma estética híbrida, onde o passado e o presente se encontram sem cerimónia. É uma forma de dizer que a modernidade não precisa de ser uma ruptura; pode ser uma continuação.

Mas talvez o aspecto mais mordaz deste renascimento seja a sua relação com a tecnologia. Durante anos, acreditou-se que a tecnologia seria o veículo definitivo da globalização, o instrumento que apagaria diferenças e criaria uma cultura universal. No entanto, as plataformas digitais tornaram-se ferramentas inesperadas de preservação e difusão cultural. Comunidades locais utilizam redes sociais para divulgar tradições, promover eventos, ensinar práticas, partilhar histórias. A tecnologia, que deveria uniformizar, acaba por amplificar a diversidade. É uma ironia que merece ser saboreada com o algoritmo global a trabalhar, involuntariamente, para o renascimento do local.

Claro que este processo não é isento de contradições. O renascimento das culturas locais pode ser usado para fins políticos, para reforçar fronteiras, para alimentar nacionalismos, para criar exclusões. A identidade é uma arma poderosa, e nem sempre é usada com sabedoria. Mas, apesar dos riscos, o movimento é essencial. Num mundo onde tudo parece acelerado, digitalizado e despersonalizado, as culturas locais oferecem ancoragem. São pontos de referência num mar de incerteza. São lembretes de que a humanidade não se constrói apenas com inovação, mas também com memória.

O renascimento das culturas locais é, portanto, uma resposta à ansiedade global. Não é um gesto romântico, mas uma estratégia de sobrevivência. As comunidades percebem que, sem identidade, tornam-se invisíveis. E a invisibilidade, na era global, é uma forma de morte lenta. Recuperar práticas, rituais, sabores, linguagens e símbolos é uma forma de reivindicar espaço, de afirmar presença, de exigir reconhecimento. É também uma forma de resistir ao poder das grandes corporações, que preferem consumidores previsíveis a cidadãos conscientes.

Este renascimento não é uniforme. Em algumas regiões, assume a forma de movimentos comunitários; noutras, de iniciativas individuais; noutras ainda, de políticas públicas. Mas, em todos os casos, revela uma tendência clara de que a globalização não matou o local; apenas o desafiou a reinventar-se. E o local respondeu com criatividade, humor, teimosia e, claro, uma boa dose de sarcasmo cultural porque nada irrita mais o global do que perceber que não consegue controlar tudo.

No fundo, o renascimento das culturas locais é uma celebração da complexidade humana. É a prova de que não somos apenas consumidores, mas criadores de sentido. É a demonstração de que a diversidade não é um obstáculo, mas uma força. E é, acima de tudo, um lembrete de que o mundo global só é habitável quando permite que o local floresça. A aldeia global pode continuar a expandir-se, mas nunca será verdadeiramente viva se não tiver aldeias reais dentro dela.

Assim, o renascimento das culturas locais não é um fenómeno passageiro, mas uma transformação profunda. É a resposta da humanidade à tentação da uniformidade. É a afirmação de que a identidade não é negociável. E é, finalmente, a prova de que, por mais global que o mundo se torne, continuaremos sempre a procurar aquilo que nos distingue não por arrogância, mas por necessidade.

Bibliografia

  • Appadurai, A. (1996). Modernity at Large: Cultural Dimensions of Globalization. University of Minnesota Press.
  • Bauman, Z. (1998). Globalization: The Human Consequences. Polity Press.
  • Castells, M. (2010). The Rise of the Network Society (2nd ed.). Wiley-Blackwell.
  • Hobsbawm, E. (1992). Nations and Nationalism since 1780: Programme, Myth, Reality. Cambridge University Press.
  • Robertson, R. (1995). Glocalization: Time–Space and Homogeneity–Heterogeneity. In M. Featherstone, S. Lash & R. Robertson (Eds.), Global Modernities (pp. 25–44). SAGE Publications.
  • Sassen, S. (2007). A Sociology of Globalization. W.W. Norton & Company.
  • Smith, A. D. (2009). Ethno-symbolism and Nationalism: A Cultural Approach. Routledge.
  • Tomlinson, J. (1999). Globalization and Culture. University of Chicago Press.
  • UNESCO. (2023). World Report on Cultural Diversity. UNESCO Publishing.
  • Vertovec, S. (2007). Super-diversity and its Implications. Ethnic and Racial Studies, 30(6), 1024–1054.
Referências:

Monday, 6 July 2026

Quem controla os fundos de reforma em Portugal?


O sistema de pensões em Portugal representa um dos pilares mais fundamentais do contrato social moderno. Quando os cidadãos iniciam a sua vida activa, a promessa implícita é a de que, após décadas de contribuições para a Segurança Social, terão o direito a uma reforma que garanta a sua subsistência e dignidade. Contudo, a questão sobre quem controla efectivamente estes fundos é complexa, envolvendo uma teia de agentes públicos, entidades financeiras e mecanismos de gestão que muitas vezes escapam ao conhecimento do cidadão comum. Compreender esta estrutura é essencial para avaliar a sustentabilidade do sistema e a transparência na utilização dos recursos dos trabalhadores portugueses. O controlo dos fundos de reforma em Portugal não é um monopólio de um único actor, mas sim o resultado de um equilíbrio precário entre a gestão estatal, a supervisão regulatória e a crescente influência dos fundos de pensões privados.

O papel do Estado e a gestão da Segurança Social

O núcleo do sistema de pensões português reside no regime público gerido pelo Instituto da Segurança Social. Neste modelo, o controlo é exercido pelo Estado através do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. O financiamento deste sistema baseia-se no regime de repartição, o que significa que as contribuições dos trabalhadores actuais pagam as pensões dos reformados de hoje. Aqui, o controlo estatal é absoluto no que diz respeito à definição das regras, das taxas de contribuição e da idade da reforma. O governo, através do orçamento do Estado e das políticas públicas, determina o valor das pensões e a forma como o fundo é gerido. Este controlo é político e social, uma vez que as decisões sobre o sistema de pensões têm impactos directos nas eleições e na estabilidade social do país. A existência do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social, que actua como uma reserva estratégica, é também gerida por uma comissão designada pelo Estado, demonstrando que a soberania sobre o capital acumulado permanece, em última instância, sob a égide governamental.

A influência dos fundos de pensões privados e complementares

Para além do sistema público, Portugal assiste a uma expansão dos regimes de pensões complementares e privados. Estes são geridos por entidades financeiras, como bancos e seguradoras, sob o olhar atento das empresas que os instituem para os seus colaboradores. Neste cenário, o controlo desloca-se do Estado para os mercados financeiros. Os fundos de pensões de capitalização são geridos por sociedades gestoras que decidem onde investir os activos, seja em obrigações, acções ou imobiliário. Embora estas sociedades sejam obrigadas a seguir estratégias de investimento cautelosas e reguladas, o controlo sobre a rendibilidade e a segurança desses fundos é exercido por gestores profissionais. Isto levanta questões sobre o alinhamento dos interesses destas entidades com os interesses dos beneficiários. O risco de mercado, que é inexistente no sistema público de repartição, passa a ser uma preocupação central nestes fundos. Assim, o controlo é partilhado entre as empresas que criam os fundos, as entidades que os gerem e o mercado financeiro que dita as flutuações do valor acumulado.

O papel da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões

Não se pode discutir o controlo dos fundos de reforma sem mencionar a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões, conhecida como ASF. Esta entidade pública desempenha um papel crucial na regulação e fiscalização de todos os fundos de pensões, excepto os do setor público. O controlo exercido pela ASF é de natureza supervisora. Ela garante que as sociedades gestoras cumprem as normas de solvência, diversificação de investimentos e transparência. Sem esta regulação, o risco de má gestão ou de fraude seria incomportável. O controlo real que a ASF exerce é indirecto, mas extremamente poderoso, uma vez que detém o poder de sancionar, auditar e revogar licenças. Portanto, embora o dinheiro pertença aos beneficiários e a gestão seja feita por privados, a integridade do sistema depende da capacidade de fiscalização desta entidade. Ela actua como um guardião que assegura que os interesses dos reformados não sejam sacrificados em prol de lucros excessivos ou riscos proibidos por parte dos gestores de fundos.

Desafios democráticos e transparência

Um dos problemas centrais na questão de quem controla os fundos é a falta de transparência e de literacia financeira por parte da população. O cidadão comum tende a ver a pensão como um direito adquirido, muitas vezes ignorando como o dinheiro é gerido. No sistema público, o controlo é democrático, mas está sujeito aos ciclos políticos. Quando o Estado enfrenta crises financeiras, a tentação de utilizar os fundos da Segurança Social para cobrir défices orçamentais é um risco real. Por outro lado, nos fundos privados, o controlo é técnico e opaco, com relatórios financeiros que são frequentemente incompreensíveis para os trabalhadores. Esta assimetria de informação coloca o controlo prático nas mãos de poucos especialistas. A democracia em Portugal exige que este controlo seja mais participativo. A discussão sobre a sustentabilidade da Segurança Social deve envolver os parceiros sociais, os sindicatos e os representantes dos reformados, de modo a evitar que o controlo seja exercido apenas pelas elites políticas ou pelos grandes grupos económicos do sector financeiro.

Impacto das políticas europeias

Portugal, como membro da União Europeia, vê o controlo dos seus fundos de pensões condicionado por directrizes externas. A harmonização europeia dos mercados financeiros e as regras de prudência impostas por Bruxelas limitam a margem de manobra do governo nacional. Existem normas que obrigam a uma gestão mais rigorosa dos fundos, o que impede que os governos utilizem o dinheiro da reforma de forma discricionária para financiar projectos estatais. Isto representa uma forma de controlo supranacional. Por um lado, protege os beneficiários de uma gestão política irresponsável, mas, por outro, limita a soberania nacional sobre como gerir os recursos que os trabalhadores portugueses criaram. A influência das agências de notação de crédito e dos mercados internacionais sobre a dívida pública portuguesa também indirectamente controla os fundos de reforma, dado que uma grande parte das reservas do Estado está investida em dívida pública. Se o Estado português perde a confiança dos mercados, o valor das reservas que garantem o futuro das pensões pode sofrer impactos negativos.

A responsabilidade social e o futuro do controlo

O debate actual sobre o controlo dos fundos de pensões está cada vez mais ligado à ética e à responsabilidade social. Os fundos de investimento não são entidades neutras e as suas decisões afectam a economia real. Existe hoje um movimento que exige que o controlo desses fundos seja exercido com critérios de sustentabilidade ambiental, social e de governação, conhecidos como critérios ESG. Se os fundos de reforma, que representam uma fatia enorme da riqueza nacional, forem investidos em sectores que prejudicam o planeta ou que exploram trabalhadores, o controlo está a ser exercido de forma nefasta. Portanto, quem controla os fundos deve prestar contas não apenas sobre o retorno financeiro, mas também sobre o impacto social das suas decisões. O futuro aponta para uma maior pressão dos cidadãos sobre as entidades gestoras para que o controlo seja feito com base em princípios que assegurem um mundo habitável para os futuros reformados. Isto transforma o controlo de um acto meramente administrativo num acto de cidadania activa.

Em última análise, concluir quem controla os fundos de reforma em Portugal exige uma visão multidimensional. Não estamos perante um único centro de poder, mas perante um sistema híbrido onde o Estado, o sector financeiro e as autoridades reguladoras partilham responsabilidades. O Estado detém o controlo soberano sobre a Segurança Social, moldando o contrato social através de leis e reformas. O sector privado, através dos fundos complementares, introduz a lógica da capitalização, sendo controlado tecnicamente pelas sociedades gestoras e vigiado pela ASF. A União Europeia e os mercados financeiros impõem limites externos, condicionando a gestão dos activos. Este mosaico de influências reflecte a própria complexidade da economia moderna. O cidadão, embora seja o titular final do direito à reforma, permanece frequentemente num papel passivo, apenas colhendo os resultados das decisões tomadas por estes actores. Contudo, o futuro da segurança na reforma depende de uma maior exigência de transparência, participação cívica e responsabilidade ética na gestão destes capitais. Se o controlo dos fundos for exercido com foco na sustentabilidade e no interesse social, o sistema terá condições para sobreviver aos desafios demográficos e económicos que Portugal enfrentará nas próximas décadas. A questão sobre o controlo não é apenas uma questão de quem gere o dinheiro, mas sim sobre a forma como a sociedade portuguesa decide priorizar o bem-estar das gerações futuras sobre as necessidades imediatas do presente. A manutenção de um sistema justo depende da vigilância contínua sobre estas estruturas de poder, garantindo que o objetivo final da reforma continue a ser a protecção inabalável de cada cidadão.

Bibliografia

·         European Commission. (2024). The 2024 Ageing Report: Economic and budgetary projections for the EU Member States (2023–2070). Brussels: Publications Office of the European Union.

·         OECD. (2023). Pensions at a Glance 2023: OECD and G20 Indicators. Paris: OECD Publishing.

·         Banco de Portugal. (2023). Relatório de Estabilidade Financeira. Lisboa: Banco de Portugal.

·         Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões. (2024). Relatório de Atividades e de Supervisão. Lisboa: ASF.

·         European Insurance and Occupational Pensions Authority. (2023). Occupational Pensions Stress Test Report. Frankfurt: EIOPA.

Referências:

Maria Teixeira Alves (2024). Presidente da ASF anuncia Observatório de poupança para a reforma. jornaleconomico.sapo.pt. Retrieved from https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/presidente-da-asf-anuncia-observatorio-de-poupanca-para-a-reforma/

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Lei n. 27/2020, de 23 de Julho. www.pgdlisboa.pt. Retrieved from https://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?artigo_id=3304A0158&nid=3304&tabela=leis&pagina=1&ficha=1&so_miolo=%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5C%5Ch&nversao=

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Lucas Ayres Barreira de Campos & Eduardo Kazuo & Fábio Riberi (2007). Brasil - O ativismo dos fundos de pensão e a qualidade da governança corporativa O ativismo dos fundos de pensão e a qualidade da governança corporativa. www.scielo.br. Retrieved from https://www.scielo.br/j/rcf/a/qcnYn4qFz4ybkB8LML9bb8f/

Thursday, 2 July 2026

A GEOPOLÍTICA DOS RECURSOS E DA ESCASSEZ NA CHINA

 



A China ocupa uma posição central na geopolítica contemporânea dos recursos e da gestão da escassez. Ao longo das últimas décadas, desenvolveu uma estratégia de planeamento de longo prazo que procura assegurar estabilidade, autonomia e capacidade de resposta perante desafios estruturais. Esta abordagem assenta na diversificação de fontes, na construção de infra-estruturas críticas e na integração de políticas internas e externas orientadas para a segurança de abastecimento. A escassez, no contexto chinês, é tratada como variável estratégica que exige antecipação e preparação.

A energia constitui o primeiro eixo desta estratégia. A China é simultaneamente o maior consumidor mundial de energia, o maior importador de petróleo e gás e um dos principais produtores de energias renováveis. Esta combinação resulta de uma política deliberada de diversificação, que procura reduzir dependências externas e garantir redundância. O petróleo proveniente do Médio Oriente, o gás da Rússia, o carvão doméstico, a energia solar e eólica e os grandes projectos hidroeléctricos integram uma arquitectura energética concebida para assegurar continuidade de abastecimento. A escassez energética é considerada um risco estrutural, enfrentado através de investimento, planeamento e expansão de capacidades.

O Mar do Sul da China representa outro elemento fundamental. A região, rica em recursos naturais e essencial para o comércio global, é integrada na estratégia marítima chinesa como área de importância vital. A construção de infra-estruturas, o reforço da presença naval e o desenvolvimento de capacidades logísticas visam garantir estabilidade das rotas e segurança dos fluxos comerciais e energéticos. Esta abordagem procura antecipar potenciais vulnerabilidades e assegurar condições favoráveis ao desenvolvimento económico.

As terras raras constituem um dos sectores mais estratégicos. A China investiu de forma contínua na exploração, refinação e desenvolvimento industrial associado a estes minerais, essenciais para tecnologias avançadas como baterias, semicondutores, equipamentos de defesa e dispositivos electrónicos. Embora não detenha todas as reservas mundiais, consolidou capacidade de processamento que representa a maior parte da cadeia global. Este posicionamento resulta de políticas industriais de longo prazo e de investimento em competências técnicas, permitindo ao país desempenhar papel determinante num sector crítico.

A água é outro recurso central. A China enfrenta desafios significativos relacionados com escassez hídrica no norte, poluição de cursos de água e pressão sobre aquíferos. Para responder a estas questões, desenvolveu o maior sistema de transferência de água do mundo, destinado a abastecer regiões urbanas e industriais. Além disso, projectos hidroeléctricos e de gestão de bacias fluviais em áreas como o Tibete e o Mekong têm impacto regional, influenciando países vizinhos e exigindo coordenação diplomática. A gestão da água é, assim, simultaneamente interna e transfronteiriça.

A agricultura constitui outro domínio estratégico. Com uma população numerosa e recursos agrícolas limitados, a China adoptou políticas de internacionalização da produção, incluindo investimentos em terras, agroindústrias e infra-estruturas logísticas em várias regiões do mundo. Esta estratégia visa assegurar estabilidade do abastecimento alimentar e reduzir vulnerabilidades associadas à produção doméstica. A segurança alimentar é tratada como questão de interesse nacional, apoiada por mecanismos de cooperação económica e comercial.

A Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) integra estes objectivos numa arquitectura geoeconómica mais ampla. Portos, ferrovias, oleodutos, barragens e corredores logísticos são desenvolvidos para reforçar conectividade, facilitar acesso a recursos e promover integração económica. A iniciativa procura criar condições para fluxos comerciais estáveis e para diversificação de fornecedores e mercados, contribuindo para a mitigação de riscos associados à escassez global.

A tecnologia representa um pilar adicional. A China reconhece que a escassez futura poderá incidir não apenas sobre recursos físicos, mas também sobre capacidades tecnológicas. Por isso, investe em semicondutores, baterias, inteligência artificial, telecomunicações e outras áreas estratégicas. A competição tecnológica internacional é entendida como disputa por autonomia e capacidade de inovação. A segurança tecnológica é tratada como componente essencial da soberania.

A gestão interna da escassez também é relevante. O planeamento quinquenal, as reservas estratégicas, os mecanismos de regulação de preços e a monitorização económica integram uma abordagem que procura assegurar estabilidade social e continuidade do desenvolvimento. A escassez é considerada factor que pode afectar o equilíbrio económico e social, sendo por isso alvo de políticas preventivas.

A diplomacia chinesa reflecte igualmente esta orientação. Através de cooperação económica, investimentos, comércio e financiamento de infra-estruturas, a China estabelece relações que contribuem para a segurança de abastecimento e para a criação de interdependências estáveis. Esta política externa privilegia pragmatismo, continuidade e construção de redes de cooperação.

A transição energética global coloca a China numa posição particular pois é simultaneamente grande utilizadora de combustíveis fósseis e líder mundial em energias renováveis. Esta dualidade resulta de uma estratégia que procura assegurar estabilidade no presente e competitividade no futuro. O desenvolvimento de tecnologias limpas, a expansão da capacidade industrial e o investimento em inovação integram esta visão de longo prazo.

A geopolítica dos recursos na China caracteriza-se, assim, por antecipação, planeamento e integração de políticas internas e externas. O país procura equilibrar necessidades energéticas, desafios ambientais, segurança alimentar, desenvolvimento tecnológico e estabilidade económica. Embora existam riscos como dependência de importações, pressões demográficas e desafios ambientais a estratégia chinesa assenta na gestão estruturada da escassez.

O futuro dependerá da capacidade de conciliar crescimento económico, sustentabilidade, inovação e estabilidade interna. A escassez continuará a ser elemento central da formulação estratégica chinesa, tratada como factor que exige preparação e adaptação contínua.

Bibliografia

·         Shambaugh, David. China’s Future. Polity Press, 2016.

·         Kaplan, Robert D. Asia’s Cauldron: The South China Sea and the End of a Stable Pacific. Random House, 2014.

·         Lee, John. The Geopolitics of the Indo-Pacific: China, America and the Contest for the World’s Most Dynamic Region. Routledge, 2022.

·         Kenderdine, Tristan. “China’s Industrial Policy, Strategic Emerging Industries and Geoeconomics.” Journal of Contemporary China, 2020.

·         International Energy Agency (IEA). China Energy Outlook 2024. IEA Publications, 2024.

·         United States Geological Survey (USGS). Mineral Commodity Summaries: Rare Earths. USGS, 2023.

·         Economy, Elizabeth C. The Third Revolution: Xi Jinping and the New Chinese State. Oxford University Press, 2018.

·         Zhang, Yunling. China and the World: Contemporary Perspectives. Springer, 2020.

·         World Bank. China Country Environmental Analysis. World Bank Publications, 2022.

·         UNEP – United Nations Environment Programme. Global Resources Outlook 2024. UNEP, 2024.

Wednesday, 1 July 2026

El Niño 2026-2027



O fenómeno climático conhecido como El Niño representa um dos eventos mais significativos e impactantes que afectam o sistema climático global. Trata-se de uma anomalia térmica caracterizada pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, especificamente na região central e oriental. Esse processo altera de maneira drástica os padrões de circulação atmosférica, influenciando directamente o clima de diversas partes do mundo. À medida que nos aproximamos do período previsto para 2026 e 2027, a comunidade científica global observa com atenção as dinâmicas oceânicas e atmosféricas para antecipar os possíveis efeitos dessa oscilação. O El Niño não é apenas um evento meteorológico isolado, mas uma peça fundamental de um complexo quebra-cabeça climático que, em um contexto de mudanças climáticas aceleradas, exige uma análise profunda e preventiva por parte de governos, sectores produtivos e a sociedade civil.

Mecanismos do Fenómeno e Previsões

Para compreender o que se espera para o biénio 2026-2027, é essencial entender o funcionamento básico do El Niño Oscilação Sul. Em condições normais, os ventos alísios sopram de leste para oeste, empurrando as águas quentes superficiais para a região da Indonésia e da Austrália. Esse movimento permite que águas mais profundas e ricas em nutrientes subam para a superfície na costa da América do Sul, um processo conhecido como ressurgência. Durante um evento do El Niño, esses ventos enfraquecem ou até mudam de direcção. Como resultado, a massa de água quente acumulada no Pacífico ocidental retorna para as costas do Peru e do Equador.

As previsões meteorológicas para o período de 2026 e 2027 baseiam-se em modelos numéricos complexos que analisam a temperatura da superfície do mar, a pressão atmosférica e a velocidade dos ventos. Embora a precisão a longo prazo apresente desafios, os cientistas utilizam dados de satélites e bóias oceanográficas para monitorar as anomalias. Se os indicadores apontarem para um fortalecimento das temperaturas oceânicas nos próximos anos, os efeitos climáticos globais serão sentidos de forma desigual, exigindo uma preparação multissectorial robusta para mitigar danos em infra-estruturas e na produção agrícola.

Impactos na Agricultura e Segurança Alimentar

Um dos setores mais sensíveis aos efeitos do El Niño é a agricultura global. Em um cenário onde o clima se torna cada vez mais instável, o impacto de 2026 e 2027 sobre as colheitas pode ser decisivo para a economia de diversos países. No Brasil, por exemplo, o fenómeno costuma causar mudanças significativas no regime de chuvas. Historicamente, o El Niño tende a provocar secas severas na região Norte e Nordeste, enquanto no Sul do país observa-se um aumento no volume de chuvas, que pode levar a enchentes prejudiciais aos cultivos de soja e milho.

Além do Brasil, outras potências agrícolas como a Austrália, a Índia e os Estados Unidos podem sofrer interrupções graves. Na Ásia, a redução das chuvas monçônicas pode comprometer a produção de arroz, elevando os preços internacionais dos alimentos. A segurança alimentar torna-se, portanto, uma preocupação central durante esses ciclos. O planeamento para 2026 e 2027 deve envolver o stock estratégico de grãos, a diversificação de culturas que resistam a variações extremas de humidade e o investimento em tecnologias de irrigação eficiente. O sector financeiro também deve estar atento, uma vez que a volatilidade nas safras reflecte directamente nos índices de inflação de alimentos, afectando as populações mais vulneráveis que gastam a maior parte de sua renda em subsistência.

Consequências Ambientais e Biodiversidade

Os ecossistemas naturais também enfrentam desafios sem precedentes durante os eventos do El Niño. O aquecimento das águas oceânicas tem um impacto directo sobre a vida marinha. Espécies de peixes que dependem de águas frias e ricas em nutrientes são forçadas a migrar para latitudes maiores ou profundidades diferentes em busca de temperaturas mais adequadas. Isso causa um desequilíbrio na cadeia alimentar marinha, impactando directamente a indústria pesqueira. Além disso, o aumento da temperatura da água pode causar o branqueamento de corais, que são estruturas vitais para a biodiversidade oceânica e protecção costeira.

Em terra, as alterações climáticas provocadas pelo El Niño aumentam a probabilidade de eventos extremos. Incêndios florestais tendem a ser mais frequentes e severos em regiões que enfrentam secas prolongadas. O aumento da temperatura global, aliado ao fenómeno, pode tornar florestas tropicais, como a Amazónia, mais vulneráveis ao fogo e à degradação. A perda de biodiversidade resultante dessas condições é uma preocupação ambiental crítica. Portanto, o período de 2026 e 2027 exigirá políticas públicas voltadas para a conservação ambiental, com foco no monitoramento de áreas de risco e no fortalecimento de brigadas de combate a incêndios. A preservação da cobertura vegetal não apenas ajuda a mitigar o aquecimento local, mas também funciona como um serviço ecossistémico essencial para a regulação do ciclo hidrológico.

Adaptação Urbana e Gestão de Riscos

As cidades modernas, especialmente em países em desenvolvimento, frequentemente carecem da infra-estrutura necessária para lidar com as variações climáticas extremas. O El Niño de 2026 e 2027, caso se confirme com alta intensidade, trará desafios severos para o planeamento urbano. Em locais onde o excesso de chuva é a regra durante o fenómeno, o sistema de drenagem e a gestão de resíduos sólidos serão testados ao limite. Enchentes urbanas não causam apenas prejuízos materiais, mas também aumentam o risco de propagação de doenças infecciosas, como leptospirose e dengue, que se proliferam em ambientes alagados.

A gestão de riscos deve focar na resiliência das cidades. Isso inclui a modernização de sistemas de alerta precoce que consigam avisar as populações em áreas de risco com antecedência suficiente para a evacuação ou protecção de bens. Investir em infra-estrutura verde, como parques lineares e telhados sustentáveis, pode ajudar a reduzir o impacto das cheias e controlar as ilhas de calor. Além disso, a coordenação entre governos locais, estaduais e federais é fundamental. O monitoramento contínuo das bacias hidrográficas e a manutenção preventiva de barragens e diques são medidas que salvam vidas e reduzem drasticamente os custos operacionais da reconstrução pós desastre. A sociedade civil também desempenha um papel crucial ao participar de planos de contingência e exercícios de preparação para emergências climáticas.

A resposta ao El Niño 2026-2027 depende intrinsecamente da ciência. Graças aos avanços na computação de alto desempenho e na inteligência artificial, os modelos climáticos estão cada vez mais precisos. Esses modelos conseguem integrar vastas quantidades de dados provenientes de bóias oceânicas, radares terrestres e satélites climáticos para prever a trajectória do fenómeno com meses de antecedência. Essa capacidade de antecipação permite que tomadores de decisão operem com maior base científica, em vez de reagirem de forma improvisada.

A colaboração internacional também é um pilar da ciência climática. Organizações como a Organização Meteorológica Mundial e diversas agências espaciais compartilham dados em tempo real, permitindo uma visão holística dos oceanos. Em 2026 e 2027, a utilização de ferramentas digitais para disseminar alertas para comunidades remotas e produtores rurais será um diferencial estratégico. O acesso à informação precisa pode evitar o pânico e permitir que medidas de adaptação sejam tomadas no nível individual, como a escolha de sementes mais resistentes ou o ajuste no calendário de plantio. A ciência, portanto, é a ponte entre a complexidade atmosférica e a segurança das populações.

Os impactos do El Niño ultrapassam as fronteiras da meteorologia e da ecologia, consolidando-se como um problema socioeconómico profundo. A desigualdade social é um factor determinante na capacidade de uma sociedade enfrentar as adversidades climáticas. Famílias de baixo rendimento, que vivem em habitações precárias em áreas de risco geológico ou inundáveis, são sempre as mais afectadas por eventos extremos. Portanto, o enfrentamento dos efeitos do El Niño deve incluir políticas públicas focadas em habitação social, saneamento básico e protecção social.

Do ponto de vista macroeconómico, a volatilidade provocada pelo fenómeno pode desestabilizar moedas e mercados internacionais. O aumento do preço da energia, especialmente em países que dependem da hidroelectricidade e enfrentam secas severas, pode elevar os custos de produção industrial e reduzir o poder de compra da população. O planeamento para 2026 e 2027 exige que as autoridades financeiras considerem esses cenários climáticos nas suas projecções de médio prazo. A criação de seguros climáticos para pequenos agricultores, por exemplo, pode ser uma ferramenta eficaz para evitar o êxodo rural e a falência de famílias que perdem tudo em uma única safra. O foco deve ser na resiliência económica, garantindo que o impacto de um evento meteorológico não se transforme em uma crise humanitária de longa duração.

Assim, o fenómeno El Niño que possivelmente se manifestará entre 2026 e 2027 nos convida a reflectir sobre a fragilidade de nossa civilização diante das forças da natureza. Embora a ciência tenha evoluído significativamente na capacidade de prever e monitorar tais eventos, a implementação de estratégias de mitigação e adaptação ainda é um desafio constante. Não se trata apenas de prever a temperatura dos oceanos, mas de construir uma sociedade mais preparada, resiliente e consciente das suas limitações frente a um planeta em transformação.

A experiência acumulada em décadas anteriores ensinou que a passividade custa caro, tanto em termos humanos quanto financeiros. O sucesso diante de um evento climático extremo não reside em impedir a sua ocorrência, pois está além da nossa capacidade técnica actual, mas em minimizar os danos por meio de infra-estrutura robusta, sistemas de alerta eficientes e políticas de protecção social que não deixem ninguém para trás. À medida que o mundo observa a formação de novos padrões climáticos para o futuro próximo, a mensagem é clara de que a preparação para 2026 e 2027 deve começar agora. A colaboração global, o investimento em tecnologia e o compromisso com práticas sustentáveis são as chaves para atravessar esse período preservando o bem-estar colectivo. A natureza, na sua dinâmica, lembra-nos que somos parte de um sistema integrado onde a cautela e a ciência são as melhores ferramentas para garantir um futuro mais seguro para todos.

Bibliografia

·         IPCC (2023). Sixth Assessment Report: Climate Change 2023 – Impacts, Adaptation and Vulnerability. Intergovernmental Panel on Climate Change.

·         NOAA (2024). El Niño Outlook and Global Climate Impacts. National Oceanic and Atmospheric Administration, Climate Prediction Center.

·         WMO (2025). State of the Global Climate 2025. World Meteorological Organization.

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·         UNEP (2024). Adaptation Gap Report 2024: Towards Climate-Resilient Societies. United Nations Environment Programme.

·         World Bank (2025). Building Climate Resilience: Infrastructure and Social Protection Strategies. Washington, D.C.

·         NASA Earth Observatory (2025). Tracking Ocean Temperature Anomalies and El Niño Patterns.

Referências:

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