Há quem ainda acredite, comoventemente, que o mundo é governado por Estados
soberanos, esses veneráveis mastodontes burocráticos que insistem em desfilar
pela arena internacional como se fossem os únicos adultos na sala. A realidade,
porém, é menos romântica e mais urbana pois as cidades globais, essas criaturas
hiperconectadas, desafiantes e insolentemente pragmáticas, tornaram-se os verdadeiros
centros de decisão num planeta que não tem paciência para fronteiras, hinos ou
discursos inflamados sobre a nação. O Estado-nação, esse monumento do século
XIX, continua a existir, claro, mas cada vez mais como peça de museu útil para
visitas escolares, mas irrelevante para quem realmente move o tabuleiro.
As cidades globais são o novo clero secular da governança planetária. Não
precisam de bandeiras, mas têm logótipos; não precisam de exércitos, mas
comandam fluxos financeiros capazes de derrubar governos; não precisam de
diplomatas, porque têm CEOs, universidades, startups e redes de influência que
atravessam continentes com a mesma facilidade com que um turista atravessa a
Times Square. São entidades políticas pós-modernas, com a subtileza de uma
metrópole que sabe que manda, mas finge que não manda assim tanto, para não
ferir susceptibilidades dos Estados que ainda acreditam que mandam alguma
coisa.
A ascensão das cidades globais não é um acidente histórico, mas a
consequência lógica de um mundo que se urbanizou, digitalizou e globalizou ao
ponto de não conseguir respirar dentro das velhas estruturas estatais. Quando
metade da população mundial vive em cidades e quando essas cidades concentram
riqueza, conhecimento, inovação e redes logísticas, é apenas natural que se
tornem os novos centros de poder. O que é menos natural e mais divertido é
observar como os Estados continuam a fingir que controlam estas criaturas que,
na prática, não cabem dentro das suas fronteiras administrativas.
As cidades globais são laboratórios de governança que funcionam à velocidade da realidade, enquanto os Estados funcionam à velocidade de um fax. Quando surge um problema global como alterações climáticas, migrações, pandemias, desigualdades, cibersegurança são as cidades que respondem primeiro, porque não têm tempo para esperar por cimeiras internacionais onde ministros posam para fotografias e assinam documentos que ninguém lê. As cidades não têm esse luxo pois se o ar está irrespirável, têm de o limpar; se a água escasseia, têm de a gerir; se a habitação dispara, têm de inventar soluções; se a economia muda, têm de se adaptar. O Estado pode sempre adiar para a próxima legislatura; a cidade não pode adiar o trânsito da manhã.
A governança planetária, entendida como a capacidade de gerir problemas que
ignoram fronteiras, está a deslocar-se para estas metrópoles que, ironicamente,
nunca foram pensadas para governar o mundo. Mas governam-no, precisamente
porque são as únicas entidades capazes de lidar com a complexidade
contemporânea. Nova Iorque, Londres, Singapura, Xangai, Dubai, São Paulo,
Tóquio, Hong Kong, Paris são cada uma com o seu estilo, o seu ego e a sua
arrogância que formam uma constelação de poder que opera paralelamente às
instituições internacionais, muitas vezes com mais eficácia e menos cerimónia.
A ironia é que as cidades globais não têm exércitos, mas têm algo muito
mais perigoso que é relevância. E relevância, no século XXI, vale mais do que
tanques. Quem controla fluxos de capitais, dados, talento e inovação controla o
mundo. E quem controla isso são as cidades, não os Estados. Os Estados podem
ter bandeiras, mas as cidades têm servidores, hubs financeiros, clusters
tecnológicos, universidades de topo e aeroportos que funcionam como portais
para o planeta. A soberania, essa palavra tão querida aos constitucionalistas,
tornou-se um conceito geograficamente deslocado pois não reside no território,
mas na conectividade.
A governança planetária é, portanto, uma espécie de teatro onde os Estados
continuam a desempenhar papéis principais, mas onde as cidades são as verdadeiras
protagonistas. São elas que implementam políticas climáticas, que criam redes
de cooperação transnacional, que definem padrões de mobilidade, que inovam em
políticas sociais, que atraem investimento e que moldam a economia global. Os
Estados assinam tratados; as cidades fazem coisas. E, num mundo saturado de
problemas urgentes, fazer coisas é um acto de poder.
A cooperação entre cidades globais é um fenómeno fascinante, porque ignora
completamente a diplomacia tradicional. Não há embaixadores, não há notas
verbais, não há protocolos rígidos. Há redes como C40, ICLEI, Metropolis,
Global Parliament of Mayors. Redes onde presidentes de câmara falam entre si
como gestores de empresas, trocando soluções, estratégias e boas práticas com
uma informalidade que faria corar qualquer ministro dos Negócios Estrangeiros.
Enquanto os Estados discutem durante anos a redução de emissões, as cidades
implementam zonas de emissões zero, redes de transportes eléctricos e políticas
de urbanismo sustentável. Enquanto os Estados debatem migrações, as cidades
lidam com migrantes e necessidades reais, em bairros verdadeiros. Enquanto os
Estados discutem a economia digital, as cidades constroem ecossistemas
tecnológicos que atraem empresas e talento global.
A cidade global é, por definição, um espaço de pragmatismo. Não tem tempo
para ideologias, porque tem de resolver problemas concretos. Não tem tempo para
discursos inflamados, porque tem de gerir orçamentos, infra-estruturas e
serviços públicos. Não tem tempo para guerras culturais, porque tem de garantir
que a água chega às torneiras e que o metro funciona. A política urbana é a
política real, aquela que afecta a vida das pessoas todos os dias. E é por isso
que as cidades se tornaram actores centrais da governança planetária porque são
as únicas entidades que ainda sabem governar.
Claro que esta ascensão das cidades globais não é isenta de contradições. A
desigualdade urbana é um dos maiores desafios do nosso tempo, e as cidades
globais são simultaneamente motores de inovação e máquinas de exclusão. A
gentrificação, a especulação imobiliária, a segregação socioeconómica e a
precarização laboral são sintomas de um modelo urbano que produz riqueza, mas
não a distribui. As cidades globais são vitrinas de modernidade, mas também são
fábricas de desigualdade. E, no entanto, são elas que estão a liderar a
resposta a esses mesmos problemas, muitas vezes com mais coragem do que os
Estados.
A governança planetária que emerge das cidades globais é, portanto, ambígua;
poderosa, mas desigual; inovadora, mas imperfeita; pragmática, mas vulnerável.
É uma governança que funciona, mas que não resolve tudo. É uma governança que
avança, mas que tropeça. É uma governança que se impõe, não porque alguém a
tenha legitimado, mas porque ninguém mais está a fazer o trabalho.
O futuro do poder global será cada vez mais urbano. Não porque os Estados
desapareçam pois são demasiado teimosos,
mas porque as cidades continuarão a expandir a sua influência até ao ponto em
que a distinção entre política interna e externa se torne irrelevante. Quando
uma cidade como Singapura negoceia directamente com multinacionais, quando Nova
Iorque define padrões financeiros globais, quando Paris lidera políticas
climáticas, quando Xangai molda cadeias de abastecimento, estamos perante uma
nova forma de poder que não cabe nos manuais tradicionais de relações
internacionais.
As cidades globais são, em última análise, o espelho de um mundo que deixou
de acreditar em fronteiras como forma de organizar a vida colectiva. São
espaços onde o global e o local se fundem, onde a diversidade é norma, onde a
inovação é rotina e onde a política é feita com a urgência de quem sabe que o
futuro não espera. São entidades pós-soberanas, pós-estatais, pós-ilusões. E,
por isso mesmo, são as únicas capazes de governar um planeta que não tem
paciência para nostalgias territoriais.
O papel das cidades globais na governança planetária é, portanto,
inevitável. Não porque alguém o tenha decidido, mas porque o mundo assim o exige.
As cidades são os novos centros de poder, os novos laboratórios de políticas
públicas, os novos actores internacionais. São o futuro, quer os Estados gostem
ou não. E, como sempre acontece com o futuro, ele chega primeiro às cidades e
só depois, muito depois, aos Estados que ainda tentam perceber o que aconteceu.
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