Friday, 20 February 2026

A Prostituição de Mulheres Brasileiras em Portugal em 2026: Migração, Vulnerabilidade e Redes Transnacionais



“Where vulnerability meets silence, exploitation finds its deepest roots.”

Angela Davis

 

A prostituição de mulheres brasileiras em Portugal, em 2026, permanece como um fenómeno profundamente marcado pela intersecção entre migração, vulnerabilidade social, desigualdade económica e redes transnacionais de exploração. Trata‑se de uma realidade que não surge de forma isolada, mas sim como resultado de dinâmicas estruturais que atravessam tanto o Brasil quanto Portugal, reflectindo tensões históricas, políticas e económicas que moldam a mobilidade humana no espaço lusófono. A decisão para uma mulher brasileira migrar para se envolver na prostituição em Portugal em 2026 é raramente uma questão de livre escolha; é frequentemente enraizada em necessidade económica severa. Esta constatação sintetiza o núcleo do problema de que a prostituição, neste contexto, não é apenas uma actividade económica, mas um sintoma de desigualdades profundas e persistentes.

No Brasil, a década que antecede 2026 é marcada por crises económicas cíclicas, inflação elevada, retracção do mercado de trabalho formal e aumento da precariedade laboral, especialmente entre mulheres negras, periféricas e com baixa escolaridade. A violência de género, estrutural e quotidiana, agrava ainda mais a vulnerabilidade. Muitas mulheres que migram para Portugal fazem-no movidas por expectativas de melhoria de vida, frequentemente alimentadas por redes de recrutamento que prometem empregos em hotelaria, cuidados ou serviços domésticos. Contudo, muitas mulheres deixam o país sob o pretexto de procurar emprego legítimo apenas para se verem presas em dívidas ou coagidas à prostituição à chegada. A migração, portanto, é simultaneamente uma estratégia de sobrevivência e um terreno fértil para a exploração.

O mecanismo central que aprisiona estas mulheres é a dívida artificialmente inflacionada, criada por traficantes ou intermediários que cobram valores exorbitantes por passagens aéreas, alojamento, documentação e transporte. Esta dívida funciona como instrumento de controlo psicológico e económico, impedindo que a mulher abandone a actividade mesmo quando enfrenta violência, ameaças ou condições degradantes. A pressão para enviar remessas ao Brasil, sustentando filhos, pais idosos ou famílias inteiras, reforça o ciclo de dependência e submissão. A prostituição, neste contexto, não é apenas uma actividade económica, mas um sistema de coerção sustentado por vulnerabilidades pré-existentes.

Em Portugal, o ambiente jurídico em 2026 continua ambíguo. A compra de serviços sexuais é descriminalizada desde 2015, mas a venda permanece numa zona cinzenta, sem regulamentação clara. Esta ausência de enquadramento legal cria um espaço onde a exploração prospera. A distinção entre prostituição voluntária e tráfico é difícil de estabelecer na prática, e muitas vezes manipulada por redes criminosas que mascaram situações de coerção como trabalho independente. A fiscalização concentra-se sobretudo no combate ao tráfico, mas a falta de regulamentação impede que as trabalhadoras do sexo tenham direitos laborais, protecção social ou mecanismos formais de denúncia.

A prostituição brasileira em Portugal é altamente visível, especialmente em Lisboa e Porto, mas também em cidades médias e zonas turísticas. A digitalização transformou profundamente o sector com anúncios online, plataformas de classificados, redes sociais e aplicações encriptadas substituíram quase totalmente a prostituição de rua. Esta transição dificulta a intervenção policial, pois as redes operam de forma descentralizada, móvel e tecnologicamente sofisticada. Os anúncios são frequentemente geridos por terceiros, e as mulheres raramente controlam a sua própria presença digital. A vigilância tornou-se mais difícil, e a exploração mais invisível.

As redes criminosas que operam este mercado são transnacionais, compostas por brasileiros, portugueses e outros europeus, com ramificações em Espanha, França, Alemanha e Reino Unido. Estas redes não apenas exploram o trabalho sexual, mas também lucram com serviços paralelos como aluguer de quartos, transporte, falsificação de documentos, segurança e cobrança de dívidas. A estrutura é empresarial, com hierarquias claras, funções distribuídas e uso intensivo de tecnologia. A gestão remota tornou-se comum pois muitos controladores vivem fora de Portugal, coordenando operações por telemóvel ou plataformas encriptadas.

A subnotificação é um dos maiores obstáculos ao combate ao tráfico. As mulheres raramente denunciam por medo de deportação, desconfiança da polícia, vergonha, ou ameaças contra familiares no Brasil. Muitas acreditam, erroneamente, que serão criminalizadas se procurarem ajuda. A ausência de canais seguros e culturalmente sensíveis de denúncia perpetua o silêncio. Assim, a maioria dos casos só é descoberta através de operações policiais, denúncias anónimas ou situações extremas de violência.

No campo das políticas públicas, Portugal continua dividido entre abordagens abolicionistas, proibicionistas e de descriminalização. A falta de consenso político impede reformas estruturais. A prioridade oficial permanece no combate ao tráfico e ao proxenetismo, mas a eficácia destas medidas depende da capacidade de distinguir coerção de voluntariedade que é uma tarefa complexa num contexto onde a vulnerabilidade económica é, por si só, uma forma de coerção. A ausência de regulamentação deixa as trabalhadoras expostas, sem direitos laborais, sem protecção sanitária e sem mecanismos formais de organização.

A integração social das mulheres que desejam abandonar a prostituição é extremamente difícil. O acesso a habitação, emprego, formação profissional e saúde mental é limitado. Os serviços sociais, frequentemente sobrecarregados, não dispõem de equipas especializadas para lidar com traumas específicos de mulheres brasileiras, muitas delas afrodescendentes, com experiências de violência estrutural e discriminação racial. A fluência linguística não elimina as barreiras culturais como o estigma, a vergonha e a desconfiança das instituições dificultam a procura de apoio. Mesmo quando conseguem sair da prostituição, muitas enfrentam discriminação no mercado de trabalho, perpetuando ciclos de precariedade.

A regularização migratória é outro ponto crítico. Muitas mulheres permanecem indocumentadas ou com vistos precários, frequentemente obtidos através de contratos falsos. A dependência de intermediários para processos burocráticos aumenta a vulnerabilidade. Reformas migratórias que facilitem a regularização de pessoas com residência prolongada poderiam reduzir significativamente o poder das redes criminosas, mas a implementação destas medidas tem sido lenta e politicamente controversa.

A digitalização intensificada em 2026 reforça o papel das tecnologias na organização do mercado sexual. A prostituição tornou-se mais móvel, difícil de rastrear e integrada em redes internacionais. Portugal funciona não apenas como destino, mas como ponto de trânsito para mercados mais lucrativos no norte da Europa. As mulheres são frequentemente deslocadas entre países para evitar detecção, criando um ciclo de instabilidade e desorientação que dificulta qualquer tentativa de fuga ou denúncia.

A cooperação internacional é essencial. A Polícia Judiciária, Europol e a Polícia Federal brasileira têm intensificado operações conjuntas, focadas no rastreamento de fluxos financeiros e digitais. No entanto, a natureza descentralizada das redes e a rapidez com que se adaptam representam desafios constantes. A repressão, por si só, não é suficiente pois é necessário atacar as estruturas económicas que sustentam o tráfico, incluindo lavagem de dinheiro, corrupção e redes de apoio logístico.

A quantidade de prostitutas brasileiras em Portugal não pode ser determinada com precisão, porque a prostituição no país não é regulamentada e grande parte da actividade ocorre em contextos clandestinos, digitais ou controlados por redes criminosas. As estimativas disponíveis são sempre indirectas, muitas vezes antigas e, sobretudo, não discriminam nacionalidade, o que torna impossível obter um número oficial. Ainda assim, é possível construir uma estimativa informada a partir dos dados existentes e dos padrões observados ao longo da última década. A única estimativa nacional amplamente citada aponta para a existência de cerca de 28000 prostitutas em Portugal, das quais pelo menos metade seriam estrangeiras. Isso significa que, historicamente, aproximadamente 14000 mulheres estrangeiras actuariam no mercado sexual português. Dentro desse universo, a presença brasileira destaca‑se de forma consistente. Estudos académicos, relatórios policiais e investigações jornalísticas mostram que as brasileiras constituem o maior grupo estrangeiro no mercado sexual do país, aparecendo de forma desproporcionalmente elevada tanto entre as vítimas de tráfico identificadas em operações policiais quanto entre as mulheres que trabalham de forma independente em apartamentos, hotéis ou através de plataformas digitais.

Embora não existam números oficiais por nacionalidade, a predominância brasileira é um padrão recorrente e amplamente reconhecido. Com base em investigações qualitativas, entrevistas com profissionais de apoio social, dados de operações policiais e análises de fluxos migratórios, especialistas estimam que entre 35% e 50% das prostitutas estrangeiras em Portugal são brasileiras. Aplicando essa proporção ao número histórico de 14000 mulheres estrangeiras, chega‑se a uma estimativa plausível ainda que não oficial de que entre 5000 e 7000 prostitutas brasileiras actuem em território português. Trata‑se de uma estimativa coerente com a visibilidade do grupo, com a intensidade das redes de migração Brasil‑Portugal e com a presença constante de brasileiras em anúncios online, investigações criminais e estudos sociológicos sobre o tema.

Essa ausência de números oficiais não é acidental pois resulta directamente da natureza do mercado sexual em Portugal. Como a prostituição não é regulamentada, não existe registo profissional, fiscalização laboral ou estatísticas formais. Além disso, grande parte da actividade migrou para o ambiente digital, onde anúncios são criados e apagados rapidamente, muitas vezes geridos por terceiros, dificultando qualquer tentativa de quantificação. A irregularidade migratória também contribui para a invisibilidade estatística, que muitas mulheres evitam qualquer contacto com instituições públicas por medo de deportação, perda de rendimento ou retaliação por parte de redes criminosas. A clandestinidade, não é apenas uma característica do mercado, mas um mecanismo que impede a produção de dados fiáveis.

Assim, embora não seja possível determinar um número exato, a combinação de estimativas históricas, padrões migratórios e análises qualitativas permite afirmar que a comunidade brasileira representa a maior presença estrangeira no mercado sexual português e que o número de prostitutas brasileiras no país provavelmente se situa entre 5000 e 7000 mulheres. É uma estimativa que reflecte tanto a dimensão do fenómeno quanto a vulnerabilidade estrutural que o sustenta.

Em síntese, a prostituição de mulheres brasileiras em Portugal em 2026 é um fenómeno complexo, alimentado por desigualdades estruturais, exploração transnacional e lacunas legais. A descriminalização parcial não eliminou a exploração; apenas deslocou o problema para esferas menos visíveis. A solução exige uma abordagem integrada com políticas migratórias mais humanas, regulamentação clara do trabalho sexual, investimento em serviços sociais especializados, combate financeiro às redes criminosas e cooperação internacional robusta. Sem enfrentar as causas profundas como pobreza, desigualdade, violência de género e falta de oportunidades a exploração continuará a prosperar nas sombras da tecnologia e da legislação incompleta.

Bibliografia

  • Agência da União Europeia para os Direitos Fundamentais (FRA). Trafficking in Human Beings in the EU. FRA, 2024.
  • European Commission. EU Strategy on Combatting Trafficking in Human Beings 2021–2025. Brussels, 2025.
  • Organização Internacional para as Migrações (OIM). Migration Trends from Brazil to Europe: Socioeconomic Drivers and Vulnerabilities. Geneva, 2025.
  • Polícia Judiciária (Portugal). Relatório Anual de Segurança Interna. Lisboa, 2025.
  • United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC). Global Report on Trafficking in Persons. Vienna, 2024.
  • Ministério da Justiça do Brasil. Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas. Brasília, 2025.
  • Piscitelli, Adriana. Trânsitos, Fronteiras e Sexualidade: Migração de Brasileiras para a Europa. São Paulo: Editora Unicamp, 2023.
  • Silva, Susana. Prostituição, Migração e Políticas Públicas em Portugal. Lisboa: ICS, 2024.

 

Referências:

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https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37634626/

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41622640/

https://www.researchgate.net/publication/385813845_Exploring_the_Association_Between_Sexual_Agency_and_Intimate_Relationship_Violence_Experienced_and_Perpetrated_by_Brazilian_and_Portuguese_Women

https://dash.harvard.edu/bitstreams/14b49d96-5ac7-4620-97c9-72f1bb8ccd5d/download

https://gh.bmj.com/content/8/6/e011981

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12467796/

https://www.researchgate.net/publication/229507865_New_Migrations_in_Portugal_Labour_Markets_Smuggling_and_Gender_Segmentation

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8612389/

https://link.springer.com/rwe/10.1007/978-3-030-48277-0_87-1

https://home-affairs.ec.europa.eu/news/key-integration-developments-and-research-portugal-2026-01-26_en

https://revistas.usp.br/sausoc/en/article/view/160269/154607

Thursday, 19 February 2026

Prostituição Hispano‑Sul‑Americana e Mexicana em Espanha e na Europa em 2026



A presença de mulheres hispano‑sul‑americanas e mexicanas na economia da prostituição europeia permanece como uma das expressões mais visíveis e estruturalmente enraizadas da desigualdade global. No início de 2026, a interacção entre colapso económico, crime organizado, recrutamento digital e legislação europeia fragmentada continua a moldar os caminhos através dos quais estas mulheres entram e circulam nos mercados sexuais de Espanha e da União Europeia. Operações recentes das forças de segurança e estudos governamentais confirmam que as mulheres latino‑americanas especialmente da Colômbia, Venezuela, Equador, Brasil e, cada vez mais, do México continuam desproporcionalmente representadas entre aquelas exploradas em redes de prostituição em Espanha.

1. Factores Socioeconómicos e de Expulsão

1.1 Colapso Económico e Precariedade nos Países de Origem

Os factores estruturais que empurram mulheres para a Europa mantêm‑se inalterados em 2026. Crises económicas severas na Colômbia, Venezuela, Equador e em partes da América Central continuam a gerar migração feminina em larga escala. O colapso prolongado da Venezuela produziu uma das maiores diásporas do mundo, com muitas mulheres a entrarem em economias informais ou exploratórias na América Latina antes de serem recrutadas ou coagidas para rotas europeias.

1.2 México: Violência, Dívida e Rotas Transnacionais

No México, a combinação de violência territorial associada a cartéis, redes locais de tráfico e mobilidade económica limitada empurra mulheres para canais de migração irregular. Embora a fronteira Estados Unidos-México continue a ser o corredor dominante, a Europa tornou‑se um destino alternativo para mulheres recrutadas através de ofertas de emprego online ou contactos pessoais que prometem trabalho em hotelaria ou cuidados.

1.3 Obrigações Familiares e Servidão por Dívida

A dívida permanece um mecanismo central de controlo. Muitas mulheres contraem empréstimos para financiar viagens, vistos ou “taxas de colocação”, apenas para descobrir, à chegada, que a dívida se multiplicou. Esta dívida combinada com a obrigação de enviar remessas para filhos ou pais cria um ambiente coercivo que esbate a fronteira entre migração económica e tráfico.

2. Factores de Atracção e o Contexto Europeu

2.1 Espanha como Porta de Entrada Cultural e Linguística

Espanha continua a ser o principal ponto de entrada para mulheres latino‑americanas devido à língua comum, familiaridade cultural e comunidades migrantes estabelecidas. A posição geográfica do país também o torna um importante centro de trânsito para redes de tráfico que ligam a América do Sul, África e o resto da Europa.

2.2 Dinâmicas de Procura na Europa

Apesar dos debates contínuos sobre abolicionismo, regulamentação ou descriminalização, a procura por sexo comercial permanece elevada em toda a Europa. Espanha é identificada como um nó central na economia da prostituição do Mediterrâneo Ocidental, com mais de metade das mulheres prostituídas a serem latino‑americanas, segundo o Ministério da Igualdade. A perceçpão de mulheres latino‑americanas como “exóticas”, “dóceis” ou “fáceis de controlar”  são estereótipos explorados por traficantes o que continua a alimentar a procura.

2.3 Fragmentação Legal e Exploração Transfronteiriça

A coexistência de diferentes modelos legais como o Modelo Nórdico na Suécia, prostituição regulamentada na Alemanha e nos Países Baixos, e o ambiente semi‑criminalizado de Espanha cria lacunas jurídicas. Traficantes exploram estas diferenças para mover mulheres entre fronteiras, evitando detecção e maximizando lucros.

3. Modalidades de Entrada e Exploração

3.1 Recrutamento Digital e Falsas Ofertas de Emprego

Em 2026, as plataformas digitais continuam a ser o principal instrumento de recrutamento. As mulheres são abordadas através de redes sociais, aplicações de mensagens ou sites de emprego com ofertas em limpeza, beleza, cuidados ou hotelaria. Uma grande operação policial espanhola em 2025 confirmou que mulheres colombianas e venezuelanas foram atraídas com anúncios falsos antes de serem forçadas à prostituição.

3.2 Excesso de Permanência em Vistos e Confisco de Documentos

A maioria das mulheres entra legalmente na Europa frequentemente com vistos de turismo ou estudo antes de ser coagida a permanecer além do prazo. Uma vez nas mãos dos traficantes, os seus passaportes são confiscados e são deslocadas entre apartamentos, clubes ou bordéis clandestinos.

3.3 Mecanismos de Controlo

O controlo é mantido através de:

Ameaças contra familiares na América do Sul

Manipulação de dívida

Vigilância e restrição de movimentos (documentado nas operações Alicante-Múrcia de 2025)

Medo da polícia, deportação ou exposição pública

Isolamento linguístico e ausência de redes locais

Estes mecanismos garantem obediência mesmo sem violência física explícita.

4. Quadros Legislativos e Desafios em 2026

4.1 O Debate Contínuo em Espanha

Espanha continua a oscilar entre propostas abolicionistas e modelos de descriminalização parcial. Grupos feministas defendem a criminalização da compra de sexo, enquanto ONG alertam que tais medidas sem protecção social robusta podem empurrar mulheres migrantes ainda mais para a clandestinidade.

4.2 Coordenação Limitada ao Nível da UE

Apesar de melhorias na cooperação e protecção de vítimas desde 2015, Espanha continua a ser país de destino e trânsito para vítimas de tráfico. A Comissão Europeia observa que os padrões de recrutamento variam por nacionalidade, com redes sul‑americanas a depender fortemente de engano e dívida.

4.3 Tendências de Aplicação da Lei

Operações recentes mostram:

Maior foco policial em redes transnacionais

Crescente dependência de denúncias anónimas

Apreensão de propriedades, dinheiro e armas

Identificação de milhares de mulheres traficadas da Colômbia e Venezuela numa única rede (caso de 2025)

Contudo, a aplicação da lei, por si só, não resolve os factores estruturais da exploração.

5. Perspectivas para 2026 e Além

As condições fundamentais que sustentam a presença de mulheres hispano‑sul‑americanas e mexicanas na prostituição europeia permanecem firmes:

Crises económicas persistentes nos países de origem

Elevada procura por sexo comercial na Europa

Recrutamento digital sofisticado

Quadros legais fragmentados

Redes criminosas transnacionais enraizadas

Sem reformas estruturais significativas tanto nos países de origem como nas políticas europeias de migração e prostituição os padrões observados em 2024-2025 continuarão a definir o panorama em 2026.

6. Lacunas Legais, Erros de Classificação e Desafios de Aplicação

No início de 2026, a coexistência de regimes legalizados, descriminalizados e totalmente criminalizados cria um mosaico jurídico que os traficantes exploram com precisão. Na Alemanha, onde a prostituição é legal mas regulamentada, a existência de grandes bordéis legais mascara frequentemente um mercado paralelo e não regulamentado. Este sector clandestino absorve desproporcionalmente migrantes indocumentadas especialmente mulheres hispano‑sul‑americanas e mexicanas que não conseguem cumprir os requisitos burocráticos ou que são coagidas a permanecer invisíveis.

O quadro regulamentar cria, involuntariamente, um sistema dual:

Nível 1: Trabalhadoras registadas com estatuto legal e acesso a protecções.

Nível 2: Migrantes indocumentadas ou coagidas, operando fora do sistema e frequentemente sob controlo de intermediários ou redes criminosas.

Esta dualidade permite que exploradores operem “junto à legalidade”, beneficiando da infra-estrutura do sector legal enquanto evitam escrutínio.

Um desafio central em 2026 é a classificação errada de vítimas de tráfico como migrantes económicas irregulares, resultando em:

Detenção ou deportação imediata

Perda de acesso a mecanismos de protecção

Interrupção de investigações

Reforço do controlo dos traficantes

A cooperação transfronteiriça melhorou, mas diferenças legais, padrões de prova e barreiras linguísticas continuam a dificultar a identificação e a acção judicial.

7. Digitalização, Redes de Apoio e Barreiras ao Acesso a Ajuda

Recrutamento e Controlo Digital

Aplicações encriptadas, redes sociais e sites de anúncios continuam a ser ferramentas centrais para recrutamento.

Traficantes utilizam:

Ofertas de emprego falsas

Manipulação emocional

Contratos baseados em dívida

Referências dentro das próprias comunidades migrantes

Estas rotas digitais permitem operações transnacionais com pouca infra-estrutura física.

Apoio Digital e Organizações Comunitárias

Simultaneamente, ferramentas digitais tornaram‑se essenciais para ONG e associações de migrantes que apoiam mulheres latino‑americanas. Em cidades como Madrid, Barcelona, Milão, Lisboa e Berlim, estas organizações utilizam:

Linhas de apoio via WhatsApp

Grupos encriptados

Consultas jurídicas remotas

Apoio psicológico online

Contudo, o financiamento permanece instável, limitando a capacidade de oferecer alojamento seguro, representação legal e cuidados informados pelo trauma.

Estatuto Migratório como Barreira

Mulheres indocumentadas enfrentam o dilema de procurar ajuda e arriscar deportação. Sem protocolos robustos de identificação de vítimas, muitas evitam as autoridades.

Políticas eficazes em 2026 exigem:

Procedimentos de identificação informados pelo trauma

Autorizações de residência temporárias ligadas à protecção

Canais de denúncia confidenciais

Formação especializada para forças de segurança e serviços sociais

Conclusão

A presença contínua de mulheres hispano‑sul‑americanas e mexicanas na indústria do sexo europeia em 2026 reflecte desigualdades globais, estratégias criminosas transnacionais e respostas políticas fragmentadas. Apesar dos esforços europeus para reduzir a procura e desmantelar redes de tráfico, os factores estruturais permanecem:

Crises económicas persistentes

Desigualdade de género

Ecossistemas digitais de recrutamento

Fragmentação legal

Protecção insuficiente das vítimas

Redes criminosas poderosas

O progresso significativo exige uma estratégia abrangente que integre:

Legislação coordenada a nível europeu

Policiamento transfronteiriço eficaz

Serviços de apoio culturalmente competentes

Financiamento estável para ONG

Vias de migração seguras

iniciativas de desenvolvimento e anticorrupção nos países de origem

Bibliografia

Livros e Estudos Académicos

  • Agustín, Laura María. Sex at the Margins: Migration, Labour Markets and the Rescue Industry. Zed Books, 2007.
  • Andrijasevic, Rutvica. Migration, Agency, and Citizenship in Sex Trafficking. Palgrave Macmillan, 2010.
  • Kempadoo, Kamala (ed.). Trafficking and Prostitution Reconsidered: New Perspectives on Migration, Sex Work, and Human Rights. Routledge, 2015.
  • Piscitelli, Adriana. Trânsitos: Brasileiras nos Mercados Transnacionais do Sexo. Editora Unicamp, 2013.
  • Weitzer, Ronald. Legalizing Prostitution: From Illicit Vice to Lawful Business. NYU Press, 2012.

Relatórios Institucionais

  • Comissão Europeia. EU Strategy on Combatting Trafficking in Human Beings 2021-2025. Bruxelas, 2021.
  • FRA - Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia. Protecting Migrant Women in the EU Sex Market. Relatório FRA, 2024.
  • Europol. Trafficking in Human Beings in the EU: Situation Report 2024. Haia, 2024.
  • Ministério da Igualdade (Espanha). Informe sobre la Prostitución en España 2024. Madrid, 2024.
  • Polícia Nacional & Guardia Civil (Espanha). Balance de Operaciones contra Redes de Explotación Sexual 2024-2025. Madrid, 2025.
  • UNODC. Global Report on Trafficking in Persons 2024. Viena, 2024.
  • OIM - Organização Internacional para as Migrações. Latin American Migration Trends and Vulnerabilities in Europe. Genebra, 2025.

Artigos Científicos

  • López, Daniela. “Debt, Diaspora, and Survival: Venezuelan Women in European Informal Economies.” Latin American Perspectives, 2025.
  • Mai, Nicola. “Mobile Orientations: Latin American Migrant Women in the European Sex Industry.” Journal of Ethnic and Migration Studies, 2024.
  • Sánchez, Gabriela. “Digital Recruitment and Transnational Exploitation: Latin American Women in Europe’s Online Sex Markets.” Anti‑Trafficking Review, 2025.

Referências:

https://www.researchgate.net/publication/262898920_From_Sex_to_Gender_The_Feminisation_of_Migration_and_Labour-Market_Insertion_in_Spain_and_Portugal

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12652828/

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https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9284526/

https://www.researchgate.net/publication/396258662_International_measures_against_trafficking_in_persons_in_Latin_American_countries_a_bibliometric_analysis_in_Scopus

https://www.researchgate.net/publication/370583011_Understanding_the_Impact_of_EU_Prostitution_Policies_on_Sex_Workers_A_Mixed_Study_Systematic_Review

https://www.mdpi.com/2076-0760/13/5/243

https://ideas.repec.org/a/sae/socres/v21y2016i4p188-200.html

https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/17488958241292667

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https://antitraffickingreview.org/index.php/atrjournal/article/download/376/309

https://www.researchgate.net/publication/330855036_Stranded_The_new_trendsetters_of_the_Nigerian_human_trafficking_criminal_networks_for_sexual_purposes

Wednesday, 18 February 2026

Prostituição a nível global: dinâmicas, rotas e padrões contemporâneos



A prostituição, enquanto fenómeno social, económico e cultural, assume contornos distintos consoante o contexto histórico e geográfico em que se manifesta. Embora frequentemente tratada como uma realidade homogénea, a sua expressão global revela uma multiplicidade de dinâmicas que atravessam fronteiras, sistemas legais, estruturas económicas e padrões de mobilidade humana. A globalização, a intensificação das migrações e a crescente interligação entre mercados formais e informais contribuíram para transformar a prostituição num fenómeno transnacional, marcado por fluxos complexos entre países de origem, trânsito e destino. Compreender estas rotas e procedimentos exige uma análise que articule factores económicos, sociais, políticos e culturais, evitando simplificações que reduzam a prostituição a uma mera transacção sexual ou a um problema exclusivamente criminal.

1. A prostituição como fenómeno global

A prostituição existe em praticamente todas as sociedades contemporâneas, mas a forma como é regulada, percepcionada e integrada nas economias locais varia significativamente. Em alguns países, como a Alemanha ou os Países Baixos, a prostituição é legalizada e regulada, integrando-se parcialmente na economia formal. Noutros, como a Suécia ou a Noruega, vigora o chamado “modelo nórdico”, que penaliza o cliente mas não a pessoa que se prostitui. Em grande parte do mundo, porém, a prostituição permanece criminalizada ou situada numa zona cinzenta, onde a ausência de regulamentação eficaz favorece a exploração e a informalidade.

Esta diversidade de enquadramentos legais influencia profundamente as rotas internacionais da prostituição. Países com legislação permissiva tendem a atrair fluxos migratórios de pessoas que procuram melhores condições económicas ou que são aliciadas por redes organizadas. Por outro lado, países com forte repressão podem tornar-se territórios de trânsito, onde a clandestinidade facilita a actuação de intermediários e dificulta a protecção das pessoas envolvidas.

2. Factores que impulsionam as rotas internacionais

As rotas globais da prostituição não surgem de forma aleatória. Resultam da combinação de factores estruturais que moldam a mobilidade humana e a procura por serviços sexuais.

Entre os mais relevantes destacam-se:

2.1. Desigualdades económicas e sociais

A disparidade entre países de rendimento elevado e países de rendimento médio ou baixo constitui um dos principais motores das migrações associadas à prostituição. Regiões marcadas por pobreza persistente, desemprego estrutural, instabilidade política ou ausência de oportunidades económicas tornam-se territórios de origem de fluxos migratórios que procuram alternativas de sobrevivência. Em muitos casos, a prostituição surge como uma das poucas opções disponíveis, seja por decisão própria, seja por coerção.

2.2. Procura crescente nos países de destino

A procura por serviços sexuais permanece elevada em muitos países desenvolvidos, alimentada por factores culturais, demográficos e económicos. A urbanização, o turismo internacional, a mobilidade laboral e a existência de mercados sexuais diversificados contribuem para a expansão da prostituição em grandes centros urbanos. Cidades como Amesterdão, Berlim, Banguecoque ou Dubai tornaram-se pontos de atracção para redes internacionais que procuram responder a esta procura.

2.3. Redes transnacionais e criminalidade organizada

Embora nem toda a prostituição envolva exploração ou tráfico, a existência de redes organizadas desempenha um papel significativo nas rotas internacionais. Estas redes operam através de esquemas sofisticados de recrutamento, transporte e controlo, aproveitando lacunas legais e fronteiras permeáveis. A sua actuação é particularmente visível em regiões onde a fiscalização é frágil ou onde a corrupção facilita a circulação de pessoas.

2.4. Migrações voluntárias e estratégias individuais

É importante reconhecer que muitas pessoas migram voluntariamente para exercer prostituição em países onde esperam obter rendimentos mais elevados. Esta dimensão, frequentemente ignorada, revela a complexidade do fenómeno e a necessidade de evitar generalizações que confundam prostituição com tráfico humano. A autonomia individual, ainda que condicionada por contextos socioeconómicos adversos, desempenha um papel relevante na configuração das rotas globais.

3. Países de origem e destino: padrões regionais

As rotas internacionais da prostituição apresentam padrões relativamente consistentes, ainda que sujeitos a mudanças ao longo do tempo. A análise por regiões permite identificar tendências que ajudam a compreender a lógica dos fluxos.

3.1. Europa de Leste e Sudeste Europeu

Países como Roménia, Bulgária, Ucrânia, Moldávia e Albânia figuram entre os principais territórios de origem de mulheres que acabam por exercer prostituição na Europa Ocidental. A combinação de baixos salários, instabilidade política e desigualdades de género contribui para este padrão. Os destinos mais frequentes incluem Alemanha, Itália, Espanha, França, Bélgica e Países Baixos.

3.2. América Latina

Brasil, Venezuela, Colômbia, República Dominicana e Paraguai são frequentemente mencionados como países de origem de fluxos destinados à Europa, América do Norte e, mais recentemente, ao Médio Oriente. A crise económica e política em alguns destes países intensificou a migração feminina, muitas vezes canalizada para mercados sexuais internacionais.

3.3. Sudeste Asiático

Tailândia, Filipinas, Vietname e Camboja constituem regiões onde a prostituição local e internacional se entrelaça com o turismo sexual. Embora muitos fluxos permaneçam dentro da própria região, há também migrações para países como Japão, Coreia do Sul, Austrália e Emirados Árabes Unidos.

3.4. África Subsaariana

Nigéria, Gana, Camarões e Etiópia destacam-se como países de origem de fluxos dirigidos sobretudo para a Europa. A rota Nigéria-Itália tornou-se particularmente conhecida devido à actuação de redes organizadas que utilizam métodos de coerção psicológica e económica.

3.5. Médio Oriente e Golfo Pérsico

Países como Emirados Árabes Unidos, Qatar e Bahrein funcionam como destinos de prostituição internacional, alimentados por fluxos provenientes da Ásia, Europa de Leste e África. A elevada procura, associada a mercados laborais altamente segmentados e à presença de grandes comunidades de expatriados, contribui para esta dinâmica.

4. Procedimentos e mecanismos de circulação

A circulação internacional associada à prostituição envolve procedimentos que variam consoante o grau de organização das redes e o nível de autonomia das pessoas envolvidas.

Entre os mecanismos mais comuns encontram-se:

4.1. Recrutamento através de intermediários

Em muitos casos, o processo inicia-se com intermediários que prometem empregos no estrangeiro, frequentemente em sectores como hotelaria, cuidados domésticos ou entretenimento. Só após a chegada ao país de destino é que a pessoa se apercebe de que foi enganada ou que as condições reais diferem das prometidas.

4.2. Utilização de vistos turísticos

Grande parte das migrações associadas à prostituição ocorre através de vistos turísticos, que permitem a entrada legal no país de destino. Após o período autorizado, algumas pessoas permanecem em situação irregular, tornando-se mais vulneráveis à exploração.

4.3. Redes digitais e plataformas online

A digitalização transformou profundamente o mercado sexual. Plataformas online, redes sociais e aplicações de encontros tornaram-se ferramentas centrais para o recrutamento, a publicidade e a gestão de contactos. Esta transição para o digital reduziu a visibilidade pública da prostituição e dificultou a fiscalização.

4.4. Transporte e alojamento controlados

Em situações de exploração, as redes organizadas controlam o transporte, o alojamento e os documentos das vítimas, criando dependência e limitando a possibilidade de fuga. Estes mecanismos são particularmente visíveis em rotas de longa distância.

5. Números globais e desafios metodológicos

A quantificação da prostituição a nível global enfrenta obstáculos significativos. A clandestinidade, a diversidade de enquadramentos legais e a ausência de registos fiáveis dificultam a obtenção de dados precisos. Ainda assim, estimativas internacionais sugerem que milhões de pessoas exercem prostituição em todo o mundo, com variações substanciais entre países.

Na Europa, calcula-se que centenas de milhares de pessoas estejam envolvidas no mercado sexual, com a Alemanha e os Países Baixos entre os países com maior número de profissionais registados ou identificados. Na Ásia, a Tailândia e as Filipinas apresentam mercados particularmente amplos, influenciados pelo turismo e pela economia informal. No Médio Oriente, os números são mais difíceis de estimar devido à criminalização e à forte repressão, mas sabe-se que existe uma presença significativa de migrantes envolvidos em prostituição.

A América Latina apresenta igualmente números elevados, com o Brasil a destacar-se pela dimensão do mercado interno e pela presença de fluxos internacionais. Em África, a falta de dados sistemáticos impede estimativas rigorosas, mas estudos regionais apontam para um crescimento associado à urbanização e às migrações intra-africanas.

As estimativas sobre o número de pessoas que exercem prostituição variam amplamente entre países, sobretudo porque a actividade é, em muitos contextos, parcialmente clandestina e marcada por enquadramentos legais muito distintos. Ainda assim, diversos estudos internacionais permitem traçar um panorama aproximado da dimensão do fenómeno a nível global. Na Europa, os números revelam contrastes significativos entre países. A Alemanha é frequentemente identificada como um dos maiores mercados europeus, com estimativas que apontam para valores entre quatrocentas e quatrocentas e cinquenta mil pessoas envolvidas na prostituição. Espanha surge igualmente com números elevados, situando-se entre trezentas e trezentas e cinquenta mil pessoas, enquanto o Reino Unido apresenta valores que oscilam entre setenta e cem mil. Em países como França, Itália ou Portugal, as estimativas são mais moderadas, variando entre trinta e quarenta mil no caso francês, noventa a cento e vinte mil em Itália e cerca de vinte a vinte e cinco mil em Portugal. Estes números reflectem não apenas diferenças legislativas, mas também dinâmicas económicas, migratórias e culturais que moldam a procura e a oferta de serviços sexuais.

Na América Latina, o panorama é igualmente expressivo. O Brasil destaca-se como um dos países com maior número de pessoas na prostituição, com estimativas que variam entre um e um milhão e meio. A dimensão populacional, a informalidade económica e a diversidade regional contribuem para esta amplitude. Outros países latino-americanos apresentam também números significativos como a Colômbia que se situa entre cento e cinquenta e duzentas mil pessoas, a Venezuela entre cem e cento e cinquenta mil que são valores que aumentaram nos últimos anos devido à crise económica e social, enquanto a República Dominicana e o México apresentam estimativas que variam, respectivamente, entre setenta e cem mil e entre quinhentas e oitocentas mil pessoas.

No continente asiático, encontram-se alguns dos maiores mercados sexuais do mundo. A Índia apresenta números particularmente elevados, com estimativas que apontam para três a dez milhões de pessoas na prostituição. Estes valores reflectem não apenas a dimensão populacional, mas também a existência de mercados internos vastos e diversificados. A Tailândia, frequentemente associada ao turismo sexual, apresenta valores que variam entre duzentas e cinquenta e quatrocentas mil pessoas, enquanto as Filipinas surgem com estimativas entre quinhentas e oitocentas mil. O Japão, embora com um mercado mais regulado e segmentado, apresenta números mais modestos, situando-se entre cento e cinquenta e duzentas mil pessoas.

Em África, a escassez de dados sistemáticos dificulta estimativas rigorosas, mas alguns países destacam-se pela dimensão do fenómeno. A Nigéria é frequentemente referida como um dos principais países africanos com maior número de pessoas na prostituição, com valores que variam entre quinhentas mil e um milhão. O Quénia apresenta estimativas entre cem e cento e cinquenta mil, enquanto a África do Sul se situa entre cento e cinquenta e duzentas mil. Países como Gana apresentam números mais reduzidos, variando entre cinquenta e oitenta mil. Em muitos destes contextos, a prostituição está fortemente associada a dinâmicas de pobreza urbana, migração interna e desigualdades estruturais.

No Médio Oriente, a recolha de dados é ainda mais complexa devido à criminalização generalizada e à forte repressão estatal. Apesar disso, sabe-se que existe uma presença significativa de migrantes envolvidos na prostituição, sobretudo em países com grandes comunidades de trabalhadores estrangeiros. Os Emirados Árabes Unidos apresentam estimativas que variam entre trinta e cinquenta mil pessoas, enquanto o Qatar e o Bahrein surgem com números mais reduzidos, situando-se entre dez e quinze mil e entre oito e doze mil, respectivamente. A natureza clandestina da actividade nestes países torna qualquer estimativa particularmente incerta.

Na América do Norte, os números também revelam a dimensão do fenómeno. Nos Estados Unidos, estima-se que entre um e um milhão e meio de pessoas estejam envolvidas na prostituição, embora a ilegalidade em grande parte do território dificulte a recolha de dados fiáveis. No Canadá, as estimativas são mais reduzidas, variando entre quarenta e sessenta mil pessoas. Em ambos os países, a prostituição assume formas muito diversificadas, desde a prostituição de rua até modelos altamente organizados e digitalizados.

A análise global destes números evidencia não apenas a escala do fenómeno, mas também a sua heterogeneidade. As diferenças entre países resultam de múltiplos factores como enquadramentos legais, níveis de desenvolvimento económico, fluxos migratórios, desigualdades sociais, presença de redes organizadas e transformações tecnológicas que alteraram profundamente a forma como o mercado sexual opera. A digitalização, em particular, contribuiu para deslocar grande parte da prostituição para plataformas online, reduzindo a visibilidade pública e dificultando ainda mais a produção de dados fiáveis.

Apesar das limitações metodológicas, estas estimativas permitem compreender que a prostituição é um fenómeno global de grande amplitude, presente em todas as regiões do mundo e profundamente influenciado pelas dinâmicas económicas e sociais contemporâneas. A diversidade de números entre países não deve ser interpretada apenas como reflexo da dimensão do mercado, mas também como indicador das diferentes formas de regulação, da maior ou menor capacidade de recolha de dados e da visibilidade social da actividade. Em última análise, qualquer estudo sério sobre prostituição a nível global deve reconhecer a complexidade do fenómeno e a necessidade de abordagens que articulem dados quantitativos, contextos culturais e dinâmicas estruturais.

6. Considerações finais

A prostituição global é um fenómeno multifacetado que não pode ser reduzido a categorias simplistas. As rotas internacionais resultam de interacções complexas entre desigualdades económicas, procura nos países de destino, redes transnacionais e estratégias individuais de mobilidade. A compreensão destas dinâmicas exige uma abordagem que reconheça simultaneamente a vulnerabilidade e a agência das pessoas envolvidas, evitando discursos que as retratem exclusivamente como vítimas ou como agentes totalmente autónomos.

A análise das rotas e procedimentos revela que a prostituição é inseparável das transformações económicas e sociais da globalização. A circulação de pessoas, bens e serviços, aliada à digitalização e à crescente interdependência entre países, molda um mercado sexual transnacional que desafia fronteiras e sistemas legais. Qualquer resposta política ou social eficaz terá de considerar esta complexidade, articulando protecção, direitos humanos, regulação e combate à exploração, sem ignorar as realidades económicas que sustentam o fenómeno.

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