Wednesday, 11 March 2026

O paradoxo curdo no tabuleiro geopolítico contemporâneo



A questão curda, frequentemente descrita como um dos dossiês mais persistentes e complexos do Médio Oriente, volta ciclicamente ao centro das atenções internacionais sempre que tensões regionais se intensificam. A situação recente no Curdistão iraquiano, onde se concentram milhares de combatentes oriundos do Irão e organizados em estruturas políticas e militares consolidadas, reabre um debate antigo de até que ponto os curdos podem confiar no apoio externo, sobretudo dos Estados Unidos, e qual o papel que lhes é atribuído nas estratégias de contenção do poder iraniano? A análise deste paradoxo exige uma leitura histórica, política e sociológica que ultrapassa a narrativa imediata dos acontecimentos e permite compreender a fragilidade estrutural das alianças que moldam o destino deste povo sem Estado.

A presença curda no Irão e a persistência da marginalização

A população curda no Irão encontra-se maioritariamente distribuída pelas províncias do noroeste, conhecidas como Rojhelat. Estas regiões, que incluem Kermanshah, Ilam, Hamadan, Lorestan, o Curdistão iraniano e o Azerbaijão Ocidental, constituem um mosaico étnico e linguístico onde curdos e azeris coexistem há séculos. Para além destas áreas, existem ainda comunidades curdas no nordeste do país, designadas como curdos do Khorasan, cuja presença remonta a deslocações forçadas promovidas por dinastias persas em períodos anteriores.

Apesar da diversidade interna e da longa história de enraizamento no território, estas comunidades vivem sob um regime de vigilância constante, marcado por restrições políticas, económicas e culturais. A marginalização não é um fenómeno recente pois mesmo após a Revolução Islâmica de 1979, quando muitos curdos apoiaram a queda do xá Mohammad Reza Pahlavi na expectativa de obter reconhecimento político e autonomia administrativa, o novo regime liderado pelo ayatollah Khomeini recusou qualquer forma de descentralização. A repressão subsequente consolidou um clima de desconfiança mútua que perdura até hoje.

A ausência de direitos linguísticos, a limitação de actividades culturais e a perseguição de activistas e líderes comunitários criaram um ambiente de semiclandestinidade. A pobreza estrutural, agravada pela falta de investimento estatal, reforça a sensação de abandono. Neste contexto, a organização política e militar tornou-se, para muitos curdos iranianos, não apenas uma forma de resistência, mas uma estratégia de sobrevivência.

A reorganização política em Erbil e a formação de novas alianças

A intensificação das tensões entre os Estados Unidos e o Irão, sobretudo em momentos que antecedem confrontos directos, tende a reconfigurar alianças regionais. Pouco antes de um ataque americano ao território iraniano, vários partidos curdos iranianos reuniram-se em Erbil, capital do Curdistão iraquiano, para formar a Coalizão das Forças Políticas do Curdistão Iraniano (Cpfik). Esta aliança, composta por movimentos com histórias e orientações ideológicas distintas, procura articular uma frente comum capaz de influenciar o futuro político do Irão e, simultaneamente, garantir a sobrevivência das suas estruturas no exílio.

A escolha de Erbil como centro de coordenação não é casual. A cidade, que se tornou um pólo político e económico no norte do Iraque, oferece relativa segurança e beneficia da protecção indirecta proporcionada pela presença militar americana. Além disso, a proximidade geográfica com as montanhas de Qandil e com o maciço de Bradost áreas de difícil acesso que historicamente serviram de refúgio a guerrilhas curdas facilita a manutenção de bases militares e de rotas logísticas.

O Partido Democrático do Curdistão Iraniano (PDKI), uma das organizações mais antigas e influentes do movimento curdo no Irão, mantém nestas montanhas os seus principais acampamentos. A topografia acidentada, com picos que ultrapassam os três mil metros, oferece condições ideais para operações de guerrilha e para a circulação dos kolbar, trabalhadores curdos que transportam mercadorias através da fronteira e cuja actividade, embora precária e perigosa, constitui uma das poucas fontes de rendimento para muitas famílias da região.

A vulnerabilidade das zonas fronteiriças e a pressão militar iraniana

A presença de grupos armados curdos nas montanhas fronteiriças tem sido alvo de operações militares iranianas ao longo das últimas décadas. A infiltração de agentes dos pasdaran, por vezes disfarçados de peshmerga, demonstra o grau de penetração dos serviços de segurança iranianos no território iraquiano. Esta estratégia visa não apenas neutralizar potenciais ameaças, mas também enviar um sinal político claro de que o Irão não tolerará a existência de forças opositoras organizadas nas suas imediações.

Os bombardeamentos esporádicos nas áreas próximas de Erbil, realizados tanto por forças iranianas como por milícias xiitas iraquianas alinhadas com Teerão, reforçam a instabilidade da região. A proximidade de bases militares estrangeiras, incluindo contingentes americanos e europeus, transforma a cidade num ponto sensível onde se cruzam interesses estratégicos divergentes. A presença de tropas internacionais, embora ofereça alguma protecção, também torna Erbil um alvo simbólico para grupos que pretendem contestar a influência ocidental no Iraque.

O papel dos Estados Unidos e o dilema do apoio externo

A relação entre os curdos e os Estados Unidos tem sido marcada por avanços e recuos. Em vários momentos da história recente, Washington recorreu a forças curdas como aliadas tácticas, sobretudo em operações contra o Estado Islâmico ou em estratégias de contenção de regimes adversários. Contudo, esse apoio raramente se traduziu em compromissos duradouros. A retirada americana de várias zonas da Síria em 2019, que deixou as Forças Democráticas Sírias expostas a ofensivas turcas, é frequentemente citada como exemplo da volatilidade destas alianças.

No caso dos curdos iranianos, a expectativa de apoio americano e israelita surge num contexto de crescente pressão internacional sobre o Irão. As conversas mantidas entre líderes curdos e responsáveis políticos americanos, incluindo figuras de destaque do Curdistão iraquiano como Masud Barzani e Bafel Talabani, alimentam a percepção de que os curdos poderão desempenhar um papel relevante numa eventual reconfiguração política do Irão. No entanto, a história demonstra que os Estados Unidos tendem a privilegiar interesses estratégicos mais amplos em detrimento das aspirações nacionais curdas.

Este dilema coloca os movimentos curdos perante uma escolha difícil; a de confiar num apoio externo incerto ou procurar alternativas que reforcem a sua autonomia política e militar. A dependência de potências estrangeiras, embora possa oferecer vantagens imediatas, acarreta riscos significativos, sobretudo quando essas potências ajustam as suas prioridades em função de mudanças no cenário internacional.

A geopolítica das montanhas e a resistência como identidade

As montanhas do Curdistão, frequentemente descritas como o “único amigo dos curdos”, desempenham um papel central na construção da identidade política e cultural deste povo. A geografia acidentada não apenas moldou formas de vida e de organização social, mas também serviu de refúgio em períodos de perseguição. A resistência armada, longe de ser apenas uma estratégia militar, tornou-se um elemento simbólico que reforça a coesão interna e legitima a luta por autodeterminação.

No entanto, esta resistência enfrenta desafios contemporâneos que não podem ser ignorados. A crescente sofisticação tecnológica das forças estatais, a vigilância aérea e a capacidade de realizar ataques de precisão reduzem a vantagem estratégica que as montanhas historicamente proporcionaram. Além disso, a fragmentação interna entre diferentes partidos e movimentos curdos dificulta a construção de uma frente unificada capaz de negociar com actores regionais e internacionais.

O futuro incerto do movimento curdo iraniano

A reorganização política em Erbil e a formação da Cpfik representam uma tentativa de superar divisões históricas e de apresentar uma alternativa credível ao regime iraniano. Contudo, o sucesso desta iniciativa depende de múltiplos factores como a capacidade de mobilizar apoio popular dentro do Irão, a habilidade de resistir à pressão militar externa, a articulação de um programa político inclusivo e a gestão cuidadosa das relações com potências estrangeiras.

O paradoxo central permanence pois os curdos estão preparados para combater, mas a questão fundamental é saber para quem e com que garantias. A instrumentalização de grupos curdos por potências externas, embora não seja um fenómeno novo, assume hoje contornos particularmente delicados num contexto regional marcado por rivalidades intensas e por uma crescente imprevisibilidade estratégica.

A resposta a este dilema não é simples. A história demonstra que a busca de apoio externo pode abrir portas, mas também pode conduzir a desilusões profundas. Por outro lado, a resistência isolada enfrenta limitações evidentes num ambiente geopolítico dominado por Estados com capacidades militares e diplomáticas muito superiores.

 Bibliografia

  • Ahmed, M. The Kurds and the State: Evolving Political Dynamics in the Middle East. Londres: Routledge, 2019.
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