A questão curda, frequentemente descrita como um dos
dossiês mais persistentes e complexos do Médio Oriente, volta ciclicamente ao
centro das atenções internacionais sempre que tensões regionais se intensificam.
A situação recente no Curdistão iraquiano, onde se concentram milhares de
combatentes oriundos do Irão e organizados em estruturas políticas e militares
consolidadas, reabre um debate antigo de até que ponto os curdos podem confiar
no apoio externo, sobretudo dos Estados Unidos, e qual o papel que lhes é
atribuído nas estratégias de contenção do poder iraniano? A análise deste
paradoxo exige uma leitura histórica, política e sociológica que ultrapassa a
narrativa imediata dos acontecimentos e permite compreender a fragilidade
estrutural das alianças que moldam o destino deste povo sem Estado.
A
presença curda no Irão e a persistência da marginalização
A população curda no Irão encontra-se maioritariamente
distribuída pelas províncias do noroeste, conhecidas como Rojhelat. Estas
regiões, que incluem Kermanshah, Ilam, Hamadan, Lorestan, o Curdistão iraniano
e o Azerbaijão Ocidental, constituem um mosaico étnico e linguístico onde
curdos e azeris coexistem há séculos. Para além destas áreas, existem ainda
comunidades curdas no nordeste do país, designadas como curdos do Khorasan,
cuja presença remonta a deslocações forçadas promovidas por dinastias persas em
períodos anteriores.
Apesar da diversidade interna e da longa história de
enraizamento no território, estas comunidades vivem sob um regime de vigilância
constante, marcado por restrições políticas, económicas e culturais. A
marginalização não é um fenómeno recente pois mesmo após a Revolução Islâmica
de 1979, quando muitos curdos apoiaram a queda do xá Mohammad Reza Pahlavi na
expectativa de obter reconhecimento político e autonomia administrativa, o novo
regime liderado pelo ayatollah Khomeini recusou qualquer forma de
descentralização. A repressão subsequente consolidou um
clima de desconfiança mútua que perdura até hoje.
A ausência de direitos linguísticos, a limitação de actividades
culturais e a perseguição de activistas e líderes comunitários criaram um
ambiente de semiclandestinidade. A pobreza estrutural, agravada pela falta de
investimento estatal, reforça a sensação de abandono. Neste contexto, a
organização política e militar tornou-se, para muitos curdos iranianos, não
apenas uma forma de resistência, mas uma estratégia de sobrevivência.
A
reorganização política em Erbil e a formação de novas alianças
A intensificação das tensões entre os Estados Unidos e o
Irão, sobretudo em momentos que antecedem confrontos directos, tende a
reconfigurar alianças regionais. Pouco antes de um ataque americano ao
território iraniano, vários partidos curdos iranianos reuniram-se em Erbil,
capital do Curdistão iraquiano, para formar a Coalizão das Forças Políticas do
Curdistão Iraniano (Cpfik). Esta aliança, composta por
movimentos com histórias e orientações ideológicas distintas, procura articular
uma frente comum capaz de influenciar o futuro político do Irão e,
simultaneamente, garantir a sobrevivência das suas estruturas no exílio.
A escolha de Erbil como centro de coordenação não é
casual. A cidade, que se tornou um pólo político e económico no norte do
Iraque, oferece relativa segurança e beneficia da protecção indirecta
proporcionada pela presença militar americana. Além disso, a proximidade
geográfica com as montanhas de Qandil e com o maciço de Bradost áreas de
difícil acesso que historicamente serviram de refúgio a guerrilhas curdas
facilita a manutenção de bases militares e de rotas logísticas.
O
Partido Democrático do Curdistão Iraniano (PDKI), uma das organizações mais
antigas e influentes do movimento curdo no Irão, mantém nestas montanhas os
seus principais acampamentos. A
topografia acidentada, com picos que ultrapassam os três mil metros, oferece
condições ideais para operações de guerrilha e para a circulação dos kolbar,
trabalhadores curdos que transportam mercadorias através da fronteira e cuja actividade,
embora precária e perigosa, constitui uma das poucas fontes de rendimento para
muitas famílias da região.
A vulnerabilidade das zonas
fronteiriças e a pressão militar iraniana
A presença de grupos armados curdos nas montanhas
fronteiriças tem sido alvo de operações militares iranianas ao longo das
últimas décadas. A infiltração de agentes dos pasdaran, por vezes disfarçados
de peshmerga, demonstra o grau de penetração dos serviços de segurança
iranianos no território iraquiano. Esta estratégia visa não apenas neutralizar
potenciais ameaças, mas também enviar um sinal político claro de que o Irão não
tolerará a existência de forças opositoras organizadas nas suas imediações.
Os bombardeamentos esporádicos nas áreas próximas de
Erbil, realizados tanto por forças iranianas como por milícias xiitas
iraquianas alinhadas com Teerão, reforçam a instabilidade da região. A
proximidade de bases militares estrangeiras, incluindo contingentes americanos
e europeus, transforma a cidade num ponto sensível onde se cruzam interesses
estratégicos divergentes. A presença de tropas internacionais, embora ofereça
alguma protecção, também torna Erbil um alvo simbólico para grupos que
pretendem contestar a influência ocidental no Iraque.
O papel dos Estados Unidos e o
dilema do apoio externo
A relação entre os curdos e os Estados Unidos tem sido
marcada por avanços e recuos. Em vários momentos da história recente, Washington
recorreu a forças curdas como aliadas tácticas, sobretudo em operações contra o
Estado Islâmico ou em estratégias de contenção de regimes adversários. Contudo,
esse apoio raramente se traduziu em compromissos duradouros. A retirada americana de várias zonas da Síria em 2019,
que deixou as Forças Democráticas Sírias expostas a ofensivas turcas, é
frequentemente citada como exemplo da volatilidade destas alianças.
No caso dos curdos iranianos, a expectativa de apoio
americano e israelita surge num contexto de crescente pressão internacional
sobre o Irão. As conversas mantidas entre líderes curdos e responsáveis
políticos americanos, incluindo figuras de destaque do Curdistão iraquiano como
Masud Barzani e Bafel Talabani, alimentam a percepção de que os curdos poderão
desempenhar um papel relevante numa eventual reconfiguração política do Irão. No
entanto, a história demonstra que os Estados Unidos tendem a privilegiar
interesses estratégicos mais amplos em detrimento das aspirações nacionais
curdas.
Este dilema coloca os movimentos curdos perante uma
escolha difícil; a de confiar num apoio externo incerto ou procurar
alternativas que reforcem a sua autonomia política e militar. A dependência de
potências estrangeiras, embora possa oferecer vantagens imediatas, acarreta
riscos significativos, sobretudo quando essas potências ajustam as suas
prioridades em função de mudanças no cenário internacional.
A
geopolítica das montanhas e a resistência como identidade
As montanhas do Curdistão, frequentemente descritas como
o “único amigo dos curdos”, desempenham um papel central na construção da
identidade política e cultural deste povo. A geografia acidentada não apenas
moldou formas de vida e de organização social, mas também serviu de refúgio em
períodos de perseguição. A resistência armada, longe de ser apenas uma
estratégia militar, tornou-se um elemento simbólico que reforça a coesão
interna e legitima a luta por autodeterminação.
No entanto, esta resistência enfrenta desafios
contemporâneos que não podem ser ignorados. A crescente sofisticação
tecnológica das forças estatais, a vigilância aérea e a capacidade de realizar
ataques de precisão reduzem a vantagem estratégica que as montanhas
historicamente proporcionaram. Além disso, a fragmentação interna entre
diferentes partidos e movimentos curdos dificulta a construção de uma frente
unificada capaz de negociar com actores regionais e internacionais.
O futuro incerto do movimento curdo
iraniano
A reorganização política em Erbil e a formação da Cpfik representam
uma tentativa de superar divisões históricas e de apresentar uma alternativa
credível ao regime iraniano. Contudo, o sucesso desta iniciativa depende de
múltiplos factores como a capacidade de mobilizar apoio popular dentro do Irão,
a habilidade de resistir à pressão militar externa, a articulação de um
programa político inclusivo e a gestão cuidadosa das relações com potências
estrangeiras.
O paradoxo central permanence pois os curdos estão
preparados para combater, mas a questão fundamental é saber para quem e com que
garantias. A instrumentalização de grupos curdos por potências externas, embora
não seja um fenómeno novo, assume hoje contornos particularmente delicados num
contexto regional marcado por rivalidades intensas e por uma crescente imprevisibilidade
estratégica.
A resposta a este dilema não é simples. A história
demonstra que a busca de apoio externo pode abrir portas, mas também pode
conduzir a desilusões profundas. Por outro lado, a resistência isolada enfrenta
limitações evidentes num ambiente geopolítico dominado por Estados com
capacidades militares e diplomáticas muito superiores.
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