A
evolução recente do sistema internacional tem revelado uma transformação
silenciosa, mas profunda, na distribuição de poder entre os Estados Unidos e a
República Popular da China. A
expressão “bater sem combater”, frequentemente associada à tradição estratégica
chinesa, sintetiza uma abordagem que privilegia a paciência, acumulação gradual
de capacidades e exploração das vulnerabilidades do adversário. Num contexto em
que Washington se encontra simultaneamente absorvido por tensões internas e por
crises sucessivas no Médio Oriente, Pequim tem conseguido preservar o acesso às
cadeias tecnológicas americanas, reforçar a sua base industrial e militar e
concentrar‑se nas prioridades internas. O prolongamento da
terceira guerra do Golfo, com os seus impactos económicos e securitários, abriu
uma nova janela de oportunidade para o chamado “Império do Centro”, permitindo‑lhe
encurtar distâncias num domínio que, durante décadas, parecia inatingível.
1. A conjuntura internacional e o
reposicionamento estratégico chinês
A
política externa chinesa tem sido marcada por uma combinação de prudência e
ambição. A liderança em Pequim tem procurado evitar confrontos directos com
Washington, consciente de que um choque prematuro poderia comprometer décadas
de desenvolvimento económico. Ao
mesmo tempo, tem aproveitado cada momento de distracção estratégica dos Estados
Unidos para consolidar posições em sectores-chave como semicondutores,
inteligência artificial, cibersegurança, infra-estruturas críticas e
modernização das forças armadas.
A intensificação das crises no Médio Oriente, associada
ao bloqueio parcial do Estreito de Hormuz e às tensões energéticas globais, tem
absorvido grande parte da atenção diplomática e militar americana. A
necessidade de gerir simultaneamente alianças regionais, operações navais e
pressões internas limita a capacidade de Washington para impor novos
constrangimentos à China. Este
ambiente permite a Pequim manter-se ligada às cadeias tecnológicas americanas,
mesmo num contexto de rivalidade crescente.
O
adiamento de um encontro bilateral de alto nível, inicialmente previsto para o
final de março, reforçou a percepção de que os Estados Unidos atravessam um
período de incerteza estratégica. A ausência de coordenação entre as duas
maiores potências económicas cria um vazio que a China tem sabido preencher com
iniciativas diplomáticas discretas, mas eficazes, sobretudo na Ásia, em África
e no Médio Oriente.
2. A tradição estratégica chinesa:
Confúcio, Mêncio e Sunzi como matriz conceptual
A
análise da política externa chinesa exige compreender a matriz intelectual que
molda a visão do poder em Pequim. Embora
a China contemporânea seja um Estado moderno, a sua elite política continua a
valorizar referências clássicas que estruturam a forma como o tempo, conflito e
autoridade são entendidos.
Confúcio fornece a base ética da governação, enfatizando
a estabilidade, ordem e legitimidade moral. Mêncio acrescenta a
ideia de que o poder duradouro depende da capacidade de assegurar prosperidade
interna e harmonia social. Sunzi,
por sua vez, introduz a noção de que a vitória mais eficaz é aquela que se
obtém sem recorrer ao combate directo, através da manipulação do ambiente
estratégico, desorientação do adversário e exploração das suas fragilidades.
A combinação destas três referências cria uma abordagem
que privilegia a paciência estratégica, flexibilidade táctica e capacidade de
transformar crises externas em oportunidades internas. A
China não procura precipitar o confronto; procura moldar o contexto de forma a
que o confronto se torne desnecessário.
3.
A vulnerabilidade americana: dispersão estratégica e tensões internas
Os
Estados Unidos continuam a ser a maior potência militar do mundo, mas enfrentam
desafios que reduzem a sua margem de manobra. A polarização política interna, pressão sobre o orçamento
federal, necessidade de responder a múltiplas crises simultâneas e dependência
de cadeias de abastecimento globalizadas criam um ambiente de vulnerabilidade
estrutural.
A terceira guerra do Golfo, com o seu impacto sobre o
preço da energia, comércio marítimo e segurança das rotas petrolíferas, obriga
Washington a manter uma presença militar dispendiosa no Médio Oriente. Esta presença
limita a capacidade de concentrar recursos no Indo‑Pacífico, região que a estratégia
americana identifica como prioritária.
A
insistência em solicitar à China um contributo para a preservação da liberdade
de navegação no Estreito de Hormuz revela a dificuldade dos Estados Unidos em
gerir simultaneamente múltiplos teatros de operação. O facto de esse pedido não
ter sido atendido demonstra que Pequim reconhece o valor estratégico de deixar
Washington absorvido por conflitos periféricos.
4. A inteligência artificial como
novo campo de competição
A
inteligência artificial tornou-se o principal terreno de disputa entre as duas
potências. A China tem investido massivamente em investigação, formação de
quadros, supercomputação e integração civil‑militar. A sua estratégia combina
planeamento estatal, incentivos económicos e uma forte ligação entre empresas
tecnológicas e instituições públicas.
A
referência à “IA segundo Confúcio” traduz a tentativa de enquadrar o
desenvolvimento tecnológico numa lógica de estabilidade social e controlo
político. A tecnologia é vista como instrumento de governação, mas também como
meio de reforçar a autonomia estratégica face ao Ocidente.
Nos
Estados Unidos, figuras políticas têm defendido uma postura mais assertiva em
relação à China, argumentando que a dependência tecnológica representa um risco
para a segurança nacional. A metáfora da “espada de Chiang”, evocada em debates
políticos, simboliza a necessidade de conter a ascensão chinesa através de
medidas de pressão económica e restrições tecnológicas. Contudo, a eficácia
dessas medidas tem sido limitada pela interdependência económica e pela
dificuldade de construir alternativas industriais rápidas.
5. O prolongamento da guerra e a
janela de oportunidade para Pequim
O
prolongamento da terceira guerra do Golfo tem efeitos que ultrapassam a região.
A instabilidade energética afecta a economia global, mas a China tem conseguido
mitigar parte desses impactos através de reservas estratégicas, diversificação
de fornecedores e acordos bilaterais com países produtores.
A
crise também cria oportunidades para reforçar a presença diplomática chinesa no
Médio Oriente. A mediação em
conflitos regionais, a participação em projectos de reconstrução e a oferta de
investimentos em infra-estruturas aumentam a influência de Pequim num espaço
tradicionalmente dominado pelos Estados Unidos.
Do ponto de vista militar, a China tem aproveitado o
período para acelerar a modernização das suas forças armadas, com particular
foco na marinha, defesa aérea e capacidades cibernéticas. A ausência de pressão
directa americana permite-lhe testar tecnologias, reorganizar comandos e
aprofundar a integração entre forças convencionais e sistemas autónomos.
6. A arte de ganhar tempo: a estratégia
chinesa de longo prazo
A
China tem demonstrado uma capacidade singular de transformar o tempo em
instrumento estratégico. Em
vez de procurar vitórias rápidas, aposta na acumulação gradual de vantagens
estruturais como educação, inovação, infra-estruturas, capacidade industrial e
estabilidade política.
A sua estratégia assenta em três pilares que são vvitar o
confronto directo, mantendo uma postura diplomática que privilegia o diálogo e
a previsibilidade; explorar as distracções do adversário, aproveitando momentos
de crise interna ou externa nos Estados Unidos para avançar em áreas sensíveis
e reforçar a autonomia estratégica, reduzindo dependências críticas e
construindo alternativas tecnológicas e financeiras. Esta abordagem permite à
China crescer sem desencadear uma resposta militar americana, ao mesmo tempo
que reduz a distância que a separa do seu principal rival.
7. O impacto global da rivalidade
sino‑americana
A
competição entre Estados Unidos e China tem repercussões globais. Países da
Ásia, África, América Latina e Europa procuram equilibrar relações com ambas as
potências, evitando alinhar-se de forma rígida. A incerteza sobre o futuro da
ordem internacional leva muitos Estados a diversificar parcerias, reforçar
autonomia energética e investir em tecnologias emergentes.
A China apresenta-se como alternativa ao modelo
ocidental, oferecendo financiamento, infra-estruturas e acesso ao seu vasto
mercado interno. Os Estados Unidos, por sua vez, procuram reforçar alianças
tradicionais e criar novas plataformas de cooperação tecnológica. A disputa não
se limita ao plano militar ou económico; envolve também narrativas, modelos de
governação e visões concorrentes sobre o futuro da globalização.
8. Conclusão: vencer sem combater
como paradigma do século XXI
A expressão “a China bate os Estados Unidos sem combater”
não implica uma vitória definitiva, mas descreve um processo em curso. A
capacidade de Pequim para aproveitar momentos de distracção americana, reforçar
a sua base tecnológica e militar e evitar confrontos directos reflecte uma
estratégia coerente, inspirada tanto na tradição clássica como na análise
pragmática do sistema internacional.
O prolongamento da guerra no Golfo, dispersão estratégica
dos Estados Unidos e crescente importância da inteligência artificial criam um
ambiente favorável à ascensão chinesa. A liderança em Pequim parece consciente
de que o tempo é o seu maior aliado e de que a vitória mais eficaz é aquela que
se obtém sem necessidade de recorrer à força. Num mundo marcado por incertezas,
a competição entre as duas maiores potências continuará a moldar o século XXI. A
forma como cada uma delas gerir crises, alianças e transformações tecnológicas
determinará não apenas o equilíbrio de poder, mas também o futuro da ordem
internacional.
Bibliografia
- Allison, G. Destined for War: Can America and
China Escape Thucydides’s Trap? Houghton Mifflin Harcourt.
- Arrighi, G. Adam Smith in Beijing: Lineages
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diversas.
- Yan, X. The Transition of World Power:
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Press.
