Friday, 12 June 2026

O declínio das hegemonias e o surgimento das alianças líquidas



Vivemos tempos de vertigem, onde as certezas outrora sólidas parecem esboroar-se como castelos de areia perante a maré implacável da mudança. A velha ordem mundial, marcada pela claridade das hegemonias e pela previsibilidade das alianças de ferro, dá sinais evidentes de fadiga. O colosso americano, que se julgava eterno na sua majestade unipolar, confronta rachas internas e desafios externos que minam a sua incontestabilidade. As potências emergentes, outrora humildes aprendizes, agora exibem uma confiança que roça a arrogância, desafiando a primazia estabelecida. E no meio deste pandemónio de realinhamentos, as antigas alianças, outrora pilares de estabilidade, parecem dissolver-se em contornos cada vez mais fluidos, as chamadas alianças líquidas, onde o compromisso é tão volátil quanto um tweet matinal.

O Crepúsculo do Império Unipolar

Durante décadas, o mundo habituou-se a um certo centro X de gravidade, um pólo dominante cujas decisões, por mais controversas que fossem, moldavam o destino global. A hegemonia americana, que emergiu vitoriosa da Guerra Fria, foi um fenómeno de tal magnitude que alguns a proclamavam como o "fim da história". Contudo, a história, com a sua teimosia habitual, decidiu continuar o seu curso, e o império unipolar começou a mostrar as suas rugas. As intervenções militares nem sempre gloriosas no Médio Oriente, com os seus custos humanos e financeiros exorbitantes, deixaram um rasto de descontentamento interno e de questionamento externo. A crise financeira de 2008, com as suas reverberações globais, expôs as fragilidades de um sistema capitalista que, para muitos, parecia inquebrável. E internamente, a polarização política e a ascensão de movimentos populistas demonstraram que a unidade nacional, um pré requisito para o exercício de uma hegemonia robusta, estava longe de ser garantida. A força militar, outrora a epítome do poder americano, vê-se cada vez mais confrontada com desafios assimétricos, onde drones e ciberataques desconstroem a superioridade convencional. A América, afogada em debates internos e na tentação do isolacionismo, parece ter perdido o apetite para o papel de polícia do mundo, um papel que, sejamos sinceros, nunca foi totalmente voluntário.

A Ascensão das Potências Desafiadoras

Paralelamente ao ocaso da estrela americana, outras constelações começaram a ganhar brilho no firmamento geopolítico. A China, com o seu crescimento económico meteórico, deixou de ser uma mera fábrica do mundo para se tornar um jogador com ambições globais. A sua iniciativa "Um Cinturão, Uma Rota" é um exemplo claro da sua estratégia de expansão de influência, construindo infra-estruturas e tecendo redes económicas que contornam as estruturas ocidentais. A Rússia, com a sua retórica assertiva e uma capacidade militar que teima em não ser ignorada, recuperou um protagonismo que muitos julgavam perdido. As suas ações na Ucrânia e a sua influência em conflitos regionais demonstram uma determinação em redefinir as regras do jogo. E não nos esqueçamos das potências médias, como a Índia, o Brasil ou a Turquia, que, cada uma à sua maneira, procuram afirmar os seus próprios interesses e desafiar a ordem existente. Estas potências não aspiram necessariamente a substituir a hegemonia americana, mas sim a criar um mundo multipolar, onde as suas vozes sejam ouvidas e os seus interesses respeitados. Elas operam num espaço onde a diplomacia se mistura com a demonstração de força, onde a cooperação é condicional e o confronto, por vezes, tentador.

A Natureza Fluida das Alianças

Neste novo cenário, as alianças tradicionais, outrora sólidas como rocha, começam a mostrar fissuras preocupantes. A NATO, concebida para conter a ameaça soviética, encontra-se a debater se o seu propósito e a sua relevância num mundo sem um inimigo claro e unívoco. Os laços transatlânticos, que pareciam indestrutíveis, são postos à prova por divergências económicas, políticas e até mesmo ideológicas. O que vemos é um movimento em direcção a alianças mais flexíveis, mais adaptáveis às circunstâncias e aos interesses do momento. São as chamadas alianças líquidas, onde os membros se juntam para resolver um problema específico, colaboram num projecto pontual, mas sem o compromisso duradouro e a lealdade inquestionável que caracterizavam as alianças do passado. Pensemos nas coligações ad hoc para combater o terrorismo, onde países com agendas distintas se unem temporariamente, ou nas parcerias económicas que surgem e desaparecem conforme as oportunidades de negócio. Esta liquidez oferece vantagens, permitindo uma maior agilidade e adaptabilidade, mas também acarreta riscos consideráveis. A imprevisibilidade aumenta, a confiança diminui e a possibilidade de conflitos por mal entendidos ou interesses divergentes torna-se mais premente. A lealdade, outrora um valor supremo nas relações internacionais, parece ter sido substituída pela conveniência.

As Causas Profundas da Mudança

Mas quais são as raízes desta transformação sísmica? Vários factores concorrem para o desmoronamento da antiga ordem. A globalização, que paradoxalmente fortaleceu a hegemonia ocidental nas suas fases iniciais, acabou por criar as condições para o seu próprio questionamento. A disseminação da informação, impulsionada pela internet e pelas redes sociais, tornou o mundo mais interligado, mas também mais consciente das desigualdades e das injustiças. A ascensão económica de novas potências, resultante de décadas de investimento e de trabalho árduo, alterou o equilíbrio de poder de forma irreversível. A democratização do acesso à tecnologia, incluindo armamento avançado, nivelou o campo de jogo e tornou mais difícil para uma única potência impor a sua vontade. Além disso, assistimos a um cansaço geral, tanto nas populações dos países hegemónicos, que se sentem sobrecarregadas com os encargos de manter a ordem mundial, quanto nas populações dos países periféricos, que se ressentem da tutela externa. Há uma ânsia por autonomia, por autodeterminação, por um lugar ao sol que não dependa da permissão de potências estrangeiras. As ideologias, outrora blocos estanques de pensamento, tornaram-se mais fluidas e híbridas, misturando elementos de nacionalismo, liberalismo e pragmatismo de uma forma que desafia as categorias simplistas.

As Consequências e os Desafios Futuros

O declínio das hegemonias e o surgimento das alianças líquidas trazem consigo um leque de consequências que irão moldar o século XXI. A instabilidade e a imprevisibilidade tendem a aumentar. A ausência de um árbitro global claro e incontestável pode levar a um aumento das rivalidades regionais e a um maior risco de conflitos. A cooperação em desafios globais prementes, como as alterações climáticas, as pandemias ou a proliferação nuclear, torna se mais difícil num ambiente de desconfiança mútua e de interesses divergentes. As instituições internacionais, como as Nações Unidas, que foram criadas num contexto de ordem unipolar, podem ter dificuldade em adaptar-se a esta nova realidade multipolar e fluida. No entanto, nem tudo é sombrio. A emergência de novas potências pode trazer novas perspectivas e novas soluções para problemas globais. As alianças líquidas, apesar da sua fragilidade, podem permitir uma maior agilidade na resposta a crises específicas. O mundo torna-se, sem dúvida, mais complexo, mas talvez também mais representativo da diversidade de interesses e de perspectivas existentes. O desafio para os decisores políticos e para os cidadãos será o de navegar neste novo cenário com sabedoria, procurando construir pontes em vez de muros, promovendo o diálogo e a cooperação em vez do confronto, e aceitando que o futuro não será mais moldado por uma única voz, mas por um coro polifónico de vozes, por vezes dissonantes, mas inegavelmente presentes. A capacidade de adaptação, a flexibilidade e uma boa dose de pragmatismo serão as qualidades essenciais para sobreviver e prosperar nesta nova era. O mundo não é o que era, e a pretensão de que o seja é, no mínimo, ingénua.

Bibliografia

Acharya, Amitav. The End of American World Order. Cambridge: Polity Press, 2014.

Allison, Graham. Destined for War: Can America and China Escape Thucydides’s Trap? Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 2017.

Beck, Ulrich. World Risk Society. Cambridge: Polity Press, 1999.

Castells, Manuel. The Rise of the Network Society. Oxford: Blackwell, 1996.

Fukuyama, Francis. Political Order and Political Decay. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2014.

Haass, Richard. A World in Disarray: American Foreign Policy and the Crisis of the Old Order. New York: Penguin Press, 2017.

Ikenberry, G. John. Liberal Leviathan: The Origins, Crisis, and Transformation of the American World Order. Princeton: Princeton University Press, 2011.

Khanna, Parag. The Future is Asian. New York: Simon & Schuster, 2019.

Kissinger, Henry. World Order. New York: Penguin Press, 2014.

Nye, Joseph S. The Future of Power. New York: PublicAffairs, 2011.

Zakaria, Fareed. The Post-American World. New York: W. W. Norton, 2008.

Referências:

https://journalistsresource.org/economics/american-economic-power-data-context-globalization/

https://www.gmfus.org/news/alliances-shifting-global-order-rethinking-transatlantic-engagement-global-swing-states

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11391781/

https://journals.publishing.umich.edu/sdi/article/id/5295/

https://www.scielo.br/j/ram/a/SSjwcCnjqpczZyKfbr4Drbd/

https://cebri.org/revista/en/artigo/34/rising-powers-and-global-governance-dissecting-the-dynamics-between-brazil-and-china

https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-agitacao-da-ordem-global/

https://kb.osu.edu/bitstreams/809af64f-11c9-51d6-bdcb-159e2810e9e3/download

https://ecpr.eu/Events/Event/PanelDetails/221

https://www.frontiersin.org/journals/medicine/articles/10.3389/fmed.2024.1492396/full

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2949821X25001851

https://www.interesjournals.org/articles/political-science-and-international-relations-understanding-global-dynamics-and-shaping-a-sustainable-future-99635.html

https://articlegateway.com/index.php/JABE/article/view/7505

No comments:

Post a Comment

Note: only a member of this blog may post a comment.

Publicações em Destaque

O declínio das hegemonias e o surgimento das alianças líquidas

Vivemos tempos de vertigem, onde as certezas outrora sólidas parecem esboroar-se como castelos de areia perante a maré implacável da mudan...

POPULAR POSTS