Vivemos tempos de vertigem, onde as certezas outrora sólidas parecem
esboroar-se como castelos de areia perante a maré implacável da mudança. A
velha ordem mundial, marcada pela claridade das hegemonias e pela
previsibilidade das alianças de ferro, dá sinais evidentes de fadiga. O colosso
americano, que se julgava eterno na sua majestade unipolar, confronta rachas
internas e desafios externos que minam a sua incontestabilidade. As potências
emergentes, outrora humildes aprendizes, agora exibem uma confiança que roça a
arrogância, desafiando a primazia estabelecida. E no meio deste pandemónio de realinhamentos, as antigas
alianças, outrora pilares de estabilidade, parecem dissolver-se em contornos
cada vez mais fluidos, as chamadas alianças líquidas, onde o compromisso é tão
volátil quanto um tweet matinal.
O Crepúsculo do Império
Unipolar
Durante décadas, o mundo habituou-se a um certo centro X de gravidade, um pólo
dominante cujas decisões, por mais controversas que fossem, moldavam o destino
global. A hegemonia americana, que emergiu vitoriosa da Guerra Fria, foi um
fenómeno de tal magnitude que alguns a proclamavam como o "fim da
história". Contudo, a história, com a sua teimosia
habitual, decidiu continuar o seu curso, e o império unipolar começou a mostrar
as suas rugas. As intervenções militares nem sempre gloriosas no Médio Oriente,
com os seus custos humanos e financeiros exorbitantes, deixaram um rasto de
descontentamento interno e de questionamento externo. A crise financeira de
2008, com as suas reverberações globais, expôs as fragilidades de um sistema
capitalista que, para muitos, parecia inquebrável. E internamente, a
polarização política e a ascensão de movimentos populistas demonstraram que a
unidade nacional, um pré requisito para o exercício de uma hegemonia robusta,
estava longe de ser garantida. A força
militar, outrora a epítome do poder americano, vê-se cada vez mais confrontada
com desafios assimétricos, onde drones e ciberataques desconstroem a
superioridade convencional. A América, afogada em debates
internos e na tentação do isolacionismo, parece ter perdido o apetite para o
papel de polícia do mundo, um papel que, sejamos sinceros, nunca foi totalmente
voluntário.
A Ascensão das Potências
Desafiadoras
Paralelamente ao ocaso da estrela americana, outras constelações começaram
a ganhar brilho no firmamento geopolítico. A China, com o seu
crescimento económico meteórico, deixou de ser uma mera fábrica do mundo para
se tornar um jogador com ambições globais. A sua iniciativa "Um Cinturão, Uma Rota" é um
exemplo claro da sua estratégia de expansão de influência, construindo infra-estruturas
e tecendo redes económicas que contornam as estruturas ocidentais. A
Rússia, com a sua retórica assertiva e uma capacidade militar que teima em não
ser ignorada, recuperou um protagonismo que muitos julgavam perdido. As suas
ações na Ucrânia e a sua influência em conflitos regionais demonstram uma
determinação em redefinir as regras do jogo. E não nos esqueçamos das potências
médias, como a Índia, o Brasil ou a Turquia, que, cada uma à sua maneira,
procuram afirmar os seus próprios interesses e desafiar a ordem existente.
Estas potências não aspiram necessariamente a substituir a hegemonia americana,
mas sim a criar um mundo multipolar, onde as suas vozes sejam ouvidas e os seus
interesses respeitados. Elas operam num espaço onde a diplomacia se mistura com
a demonstração de força, onde a cooperação é condicional e o confronto, por
vezes, tentador.
A Natureza Fluida das Alianças
Neste novo cenário, as alianças tradicionais, outrora sólidas como rocha,
começam a mostrar fissuras preocupantes. A NATO, concebida para conter a ameaça
soviética, encontra-se a debater se o seu propósito e a sua relevância num
mundo sem um inimigo claro e unívoco. Os laços
transatlânticos, que pareciam indestrutíveis, são postos à prova por
divergências económicas, políticas e até mesmo ideológicas. O que vemos é um movimento em direcção a alianças mais
flexíveis, mais adaptáveis às circunstâncias e aos interesses do momento. São
as chamadas alianças líquidas, onde os membros se juntam para resolver um
problema específico, colaboram num projecto pontual, mas sem o compromisso
duradouro e a lealdade inquestionável que caracterizavam as alianças do passado.
Pensemos
nas coligações ad hoc para combater o terrorismo, onde países com agendas
distintas se unem temporariamente, ou nas parcerias económicas que surgem e
desaparecem conforme as oportunidades de negócio. Esta liquidez oferece
vantagens, permitindo uma maior agilidade e adaptabilidade, mas também acarreta
riscos consideráveis. A
imprevisibilidade aumenta, a confiança diminui e a possibilidade de conflitos
por mal entendidos ou interesses divergentes torna-se mais premente. A
lealdade, outrora um valor supremo nas relações internacionais, parece ter sido
substituída pela conveniência.
As Causas Profundas da Mudança
Mas quais são as raízes desta transformação sísmica? Vários factores
concorrem para o desmoronamento da antiga ordem. A globalização,
que paradoxalmente fortaleceu a hegemonia ocidental nas suas fases iniciais,
acabou por criar as condições para o seu próprio questionamento. A disseminação
da informação, impulsionada pela internet e pelas redes sociais, tornou o mundo
mais interligado, mas também mais consciente das desigualdades e das
injustiças. A ascensão económica de novas potências, resultante de décadas de
investimento e de trabalho árduo, alterou o equilíbrio de poder de forma
irreversível. A democratização do acesso à tecnologia, incluindo armamento
avançado, nivelou o campo de jogo e tornou mais difícil para uma única potência
impor a sua vontade. Além disso, assistimos a um cansaço geral, tanto nas
populações dos países hegemónicos, que se sentem sobrecarregadas com os encargos
de manter a ordem mundial, quanto nas populações dos países periféricos, que se
ressentem da tutela externa. Há uma ânsia por autonomia, por autodeterminação,
por um lugar ao sol que não dependa da permissão de potências estrangeiras. As ideologias, outrora blocos estanques de pensamento,
tornaram-se mais fluidas e híbridas, misturando elementos de nacionalismo,
liberalismo e pragmatismo de uma forma que desafia as categorias simplistas.
As Consequências e os Desafios
Futuros
O declínio das hegemonias e o surgimento das alianças líquidas trazem
consigo um leque de consequências que irão moldar o século XXI. A
instabilidade e a imprevisibilidade tendem a aumentar. A ausência de um árbitro
global claro e incontestável pode levar a um aumento das rivalidades regionais
e a um maior risco de conflitos. A cooperação em desafios globais prementes,
como as alterações climáticas, as pandemias ou a proliferação nuclear, torna se
mais difícil num ambiente de desconfiança mútua e de interesses divergentes. As instituições internacionais, como as Nações Unidas,
que foram criadas num contexto de ordem unipolar, podem ter dificuldade em
adaptar-se a esta nova realidade multipolar e fluida. No
entanto, nem tudo é sombrio. A
emergência de novas potências pode trazer novas perspectivas e novas soluções
para problemas globais. As alianças líquidas, apesar da sua
fragilidade, podem permitir uma maior agilidade na resposta a crises
específicas. O mundo torna-se,
sem dúvida, mais complexo, mas talvez também mais representativo da diversidade
de interesses e de perspectivas existentes. O desafio para os
decisores políticos e para os cidadãos será o de navegar neste novo cenário com
sabedoria, procurando construir pontes em vez de muros, promovendo o diálogo e
a cooperação em vez do confronto, e aceitando que o futuro não será mais
moldado por uma única voz, mas por um coro polifónico de vozes, por vezes
dissonantes, mas inegavelmente presentes. A capacidade de adaptação, a
flexibilidade e uma boa dose de pragmatismo serão as qualidades essenciais para
sobreviver e prosperar nesta nova era. O mundo não é o que era, e a pretensão de que o seja é, no mínimo, ingénua.
Bibliografia
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