Há quem diga que as
religiões são o bálsamo da humanidade, o perfume espiritual que disfarça o odor
acre das guerras e das misérias. Outros,
mais realistas ou mais cínicos, conforme o humor do dia sustentam que são
precisamente as religiões que, em nome da paz, acendem as fogueiras da
intolerância. O mundo, esse teatro de contradições, parece divertir-se com o paradox
de quanto mais se prega o amor universal, mais se multiplicam os exércitos de
fiéis armados de certezas.
A paz global é, para as religiões, uma espécie de acção de marketing
celestial. Cada credo promete um paraíso de harmonia, mas exige, em troca,
fidelidade absoluta e, se possível, uma contribuição generosa para o fundo
espiritual. A paz, portanto, é vendida em suaves prestações de
fé. O fiel paga com obediência, o
sacerdote cobra com autoridade, e o divino, lá do alto, observa o espectáculo
com uma ironia que faria corar qualquer filósofo.
O curioso é que todas as religiões, sem excepção, proclamam o mesmo ideal de
amar o próximo. O problema é que cada uma define
“próximo” de maneira muito particular. Para algumas, o próximo é o vizinho que partilha o mesmo credo; para
outras, é o infiel que precisa ser convertido ou eliminado, se insistir em
permanecer teimosamente errado. Assim, a paz torna-se
um conceito flexível, adaptável às conveniências do momento.
A história humana é um catálogo de guerras santas, cruzadas piedosas e
jihadismos fervorosos. Em cada época, um grupo de iluminados
decide que Deus precisa de ajuda para impor a sua vontade. E lá vão eles, espada em punho, salvar o mundo da
perdição deixando atrás de si um rasto de cadáveres e templos incendiados.
Mas não sejamos
injustos. As religiões também construíram hospitais, escolas e universidades.
Ensinaram a ler, a cantar e a rezar. O problema é que, entre uma oração e uma
batalha, o fiel raramente distingue onde termina a fé e começa o fanatismo. A
fronteira é tão ténue que até os anjos, se existirem, devem ter dificuldade em
perceber quem está do lado certo.
Vivemos numa era em que se fala muito de diálogo inter-religioso.
Conferências, simpósios, fóruns todos com títulos pomposos e coffee breaks
generosos. Os líderes espirituais reúnem-se, trocam abraços
protocolares e declaram solenemente que “a paz é possível”. No dia seguinte,
cada um regressa ao seu púlpito e reafirma que a sua doutrina é a única
verdadeira.
A tolerância, nesse
contexto, é uma virtude de fachada. Tolera-se o outro desde que ele não
questione o dogma. É uma paz de salão, elegante e fotogénica, mas tão frágil
quanto um vitral antigo. A
ironia é que, enquanto os teólogos discutem o significado da misericórdia, o
mundo continua a arder e Deus, se tiver senso de humor, deve rir-se da comédia
humana.
As religiões sempre tiveram uma relação ambígua com o poder político. Ora
o abençoam, ora o condenam, conforme sopram os ventos da conveniência. Quando o
trono é favorável, o altar ajoelha-se em gratidão; quando o trono se torna
hostil, o altar ergue-se em resistência. É uma dança antiga, coreografada pela
hipocrisia e pela necessidade.
Em nome da paz, muitos
líderes religiosos tornaram-se diplomatas de luxo. Participam em cimeiras, assinam tratados, discursam sobre
fraternidade universal e regressam aos seus palácios dourados, onde a paz é
garantida por muros altos e seguranças armados. A espiritualidade, nesses
casos, é um produto de exportação pois vende-se bem, especialmente quando
embalada em retórica humanitária.
O papel das religiões na paz global é, antes de tudo, simbólico. Elas
oferecem ao mundo uma narrativa de sentido e uma explicação para o caos. O
problema é que, muitas vezes, essa narrativa é escrita em linguagem de
exclusão. O “nós” e o “eles” tornam-se categorias sagradas, e a paz transforma-se
num privilégio reservado aos que pertencem ao grupo certo.
O sermão dominical, o cântico matinal, o mantra vespertino todos são actos
de fé, mas também de identidade. O fiel não busca apenas
a paz interior; busca o reconhecimento social de pertencer a uma comunidade
moralmente superior. A religião, nesse sentido, é um teatro onde cada crente
desempenha o papel de virtuoso, mesmo quando o cenário é de hipocrisia.
Há, contudo, uma corrente crescente de espiritualidade sem rótulos. Pessoas
que meditam, contemplam e procuram a paz sem precisar de intermediários
divinos. São os novos
místicos do século XXI menos preocupados com o inferno e mais interessados em
reduzir o stress. Para eles, a paz global começa no
silêncio interior, não nas proclamações públicas.
Esses novos devotos da
serenidade são vistos com desconfiança pelos guardiões da ortodoxia. Afinal,
uma fé sem hierarquia é uma ameaça ao negócio da salvação. A ironia é que, talvez, sejam precisamente esses
“hereges” modernos os que mais contribuem para a paz pois não impõem, não
convertem e não guerreiam. Limitam-se a respirar fundo e a tentar não odiar
ninguém que é um gesto revolucionário, se comparado com a história das
religiões organizadas.
A paz é um produto valioso, e as religiões sabem disso. Prometem-na
em troca de fé, de sacrifício e, por vezes, de donativos. O templo, a igreja, a mesquita, o santuário todos
funcionam como agências espirituais de esperança. O
fiel entra aflito e sai reconfortado, ainda que o mundo continue o mesmo.
O sarcasmo da situação é evidente pois enquanto se prega a renúncia aos
bens materiais, os líderes religiosos acumulam fortunas. A paz espiritual,
afinal, exige manutenção e essa manutenção custa caro. O
altar é um negócio rentável, e o céu, uma marca registada.
Imaginemos, por um instante, um mundo em que todas as religiões se unissem
sinceramente pela paz. Seria uma revolução moral sem
precedentes. Mas, para isso,
seria necessário abdicar da pretensão de exclusividade e essa é uma renúncia
que poucos credos estão dispostos a fazer.
A utopia da paz
universal é bela, mas impraticável. Cada religião acredita possuir a verdade
absoluta, e a verdade, por definição, não admite concorrência. Assim, o diálogo inter-religioso é uma conversa entre
surdos educados que todos falam e ninguém escuta.
Se Deus existe e se tem o mínimo de senso de humor deve observar a
humanidade com uma mistura de ternura e impaciência. Criou
seres capazes de amar, mas também de odiar em Seu nome. Deu-lhes liberdade, e
eles transformaram-na em dogma. Ofereceu-lhes paz, e eles responderam com
guerras santas.
A ironia divina é que,
apesar de tudo, a fé continua a ser uma força poderosa. Inspira gestos de
compaixão, obras de caridade, movimentos de reconciliação. Mesmo quando mal
interpretada, a religião ainda é capaz de produzir beleza. O problema não está na fé, mas na administração da fé e
essa, infelizmente, é gerida por humanos.
No fim, talvez a verdadeira paz seja uma forma de heresia. Uma
rebeldia contra o dogma da separação, contra a arrogância das certezas. A paz
global não nascerá dos púlpitos nem das cimeiras religiosas; nascerá do
reconhecimento humilde de que nenhuma crença tem o monopólio da verdade.
As religiões, se quiserem realmente contribuir para a paz, terão de
aprender a rir de si próprias e a
aceitar que o sagrado também pode ser irónico. Só então
deixarão de ser instrumentos de poder para se tornarem pontes de humanidade.
E talvez, nesse dia improvável, o mundo descubra que Deus não exige templos
nem guerras, apenas um pouco de decência e, quem sabe, um sorriso sarcástico
diante da própria tragédia humana.
Bibliografia
·
Köbrich, J., & Hoffmann, L. (2023). What do we know about religion and interreligious peace? A review of the quantitative literature. Cambridge University Press. https://doi.org/10.1017/S1755048323000238
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Bandeira, I. I. B. P. C. (2020). O Papel da Religião na Resolução de Conflitos e Construção da Paz. Universidade de Coimbra. https://hdl.handle.net/10316/94663
· Driessen, M. D. (2025). Interreligious Dialogue, Conflict Resolution and Peacebuilding: A Review. Religions, 16(2), 150. https://doi.org/10.3390/rel16020150

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