A Europa gosta de se apresentar como a guardiã dos direitos humanos, a pátria da dignidade e da civilização. No entanto, quando se olha para as suas fronteiras externas, o cenário é menos humanista e mais militarizado com vedações, câmaras térmicas, drones, patrulhas marítimas e centros de detenção. A ética, aqui, não se mede em princípios, mas em quilómetros de arame farpado.
O caso recente de
Ceuta, com a entrada súbita de milhares de pessoas vindas de Marrocos, expôs de
forma brutal esta contradição. Enquanto corpos exaustos chegavam à costa,
agarrados a bóias improvisadas, o discurso oficial falava de “pressão
migratória” e “ameaça à segurança”. A
linguagem administrativa funciona como detergente moral que lava a culpa,
desinfecta a consciência e transforma o desespero humano em problema técnico.
Hannah Arendt lembrava, em “The Origins of Totalitarianism”, que “o direito
a ter direitos” é precisamente aquilo que se perde quando alguém se torna
apátrida ou indesejado. A fronteira moderna é o lugar onde esse
direito é suspenso, não por decreto explícito, mas por omissão prática.
A fronteira é um espelho onde a Europa se contempla e se desmente. De
um lado, proclamações sobre solidariedade, inclusão e valores universais; do
outro, políticas de contenção, externalização de controlos e acordos com
regimes que servem de porteiros da fortaleza europeia.
Em Ceuta, vimos
soldados espanhóis a ajudar crianças a sair da água, num gesto que rapidamente
se tornou imagem icónica, enquanto, em simultâneo, adultos eram empurrados de
volta para o mar ou encaminhados para deportação acelerada. A ética europeia é selective pois emociona-se com a
infância, mas endurece perante a idade adulta, como se a vulnerabilidade
tivesse prazo de validade.
Michel Foucault, em “Surveiller et punir”, descreveu o poder como a
capacidade de gerir corpos, de os distribuir no espaço, de os vigiar e
disciplinar. A fronteira é hoje um dispositivo foucaultiano por excelência que
decide quem pode existir dentro do perímetro da legalidade e quem é condenado à
invisibilidade administrativa.
A ética europeia transformou-se numa ética administrativa, onde o migrante
é menos uma pessoa e mais um processo. Tem número de dossier, formulário,
prazo, estatuto provisório, mas raramente tem rosto. A
compaixão é mediada por plataformas digitais, e a decisão moral é substituída
por grelhas de elegibilidade.
Zygmunt Bauman, em “Strangers at Our Door”, observa que a Europa converteu
o medo do outro em política pública. O “estranho” é tratado
como risco, não como sujeito. A resposta não é diálogo, mas protocolo. Em
Ceuta, a gestão da crise foi descrita em termos de “fluxos”, “contingentes” e
“retornos”, como se se tratasse de mercadorias em trânsito.
O funcionário que analisa pedidos de asilo, sentado diante de um ecrã, é o
novo sacerdote da moral secular que não absolve, mas defere; não escuta
confissões, mas verifica documentos. A sua responsabilidade
é diluída na cadeia de procedimentos, e a ética reduz-se à conformidade com o
regulamento.
Ceuta, enclave espanhol em território africano, é um laboratório político e
moral. Nos últimos dias, tornou-se palco de uma encenação exemplar; de um lado,
a narrativa humanitária, com imagens de resgate e assistência; do outro, a
narrativa securitária, com reforço de tropas, negociações diplomáticas
apressadas e discursos sobre “integridade territorial”.
Albert Camus, em “L’Homme révolté”, escreve que “a verdadeira generosidade
para com o futuro consiste em dar tudo ao presente”. Em Ceuta, a generosidade
foi cuidadosamente doseada o suficiente para produzir boas fotografias,
insuficiente para alterar a lógica de exclusão. A criança salva
é símbolo; o adulto deportado é estatística.
A fronteira de Ceuta mostra como a ética europeia se tornou performativa que
importa mais o que se vê do que o que se faz. A ajuda pontual
convive com a recusa estrutural, e a compaixão episódica não corrige a
violência sistemática.
O humanismo europeu é hoje, em larga medida, uma retórica de boa
consciência. A União Europeia cita a Convenção de Genebra,
celebra o Dia Internacional dos Direitos Humanos, financia campanhas de
sensibilização, mas, ao mesmo tempo, reforça Frontex, celebra acordos de
readmissão e apoia políticas de contenção em países vizinhos.
Jürgen Habermas, em “The Inclusion of the Other”, defende que a
legitimidade democrática exige a inclusão dos que são afectados pelas decisões
colectivas. No entanto, os migrantes e refugiados que batem às
portas da Europa são precisamente aqueles que não têm voz no processo político
que decide o seu destino. São objectos de política, não sujeitos de cidadania.
O humanismo, assim, funciona como verniz pois dá brilho à superfície, mas
não altera a estrutura. A Europa continua a proclamar valores
universais, enquanto aplica critérios selectivos. A fronteira é o lugar onde o
universal se torna condicional.
A ética contemporânea é mediada pela imagem. A dor é
suportável enquanto cabe num ecrã. Susan
Sontag, em “Regarding the Pain of Others”, alertou para o risco de transformar
o sofrimento em espectáculo, consumido com a mesma curiosidade com que se
consome entretenimento.
As imagens de Ceuta circularam intensamente com jovens exaustos, crianças
chorosas, militares em pose de salvadores. A compaixão foi real,
mas breve. A indignação dura o tempo de um ciclo noticioso. Depois, a fronteira
volta à sua rotina de vigilância, e os corpos voltam a ser números.
A moral da distância
permite à Europa sentir-se virtuosa sem alterar a sua prática. A emoção é um
episódio; a política, uma continuidade. O espectador europeu pode comover-se
com Ceuta ao jantar e, no dia seguinte, apoiar medidas de endurecimento das
fronteiras em nome da segurança.
O muro, físico ou simbólico, tornou-se o emblema da virtude política. Erguê-lo
é sinal de responsabilidade, prudência e maturidade. A segurança é apresentada
como valor absoluto, capaz de justificar qualquer restrição.
Giorgio Agamben, em “Homo Sacer”, descreve o “estado de excepção” como o
espaço onde a lei se suspende para se preservar. As fronteiras europeias
funcionam frequentemente nesse regime de zonas cinzentas onde direitos são
relativizados, procedimentos acelerados e garantias reduzidas. O
migrante é colocado numa espécie de limbo jurídico, nem plenamente dentro, nem
totalmente fora.
A Europa orgulha-se de
ter abolido a pena de morte, mas tolera mortes no mar, no deserto, nas rotas
clandestinas, como efeitos colaterais de políticas de dissuasão. A diferença é
que o veredicto não é pronunciado por um juiz, mas por um sistema.
A caridade europeia é cuidadosamente regulamentada. Tem orçamento,
indicadores e relatórios de avaliação. Não é espontânea; é programada.
Peter Singer, em “The Life You Can Save”, argumenta que a
ética exige acção proporcional ao sofrimento que podemos evitar. A Europa,
porém, pratica uma proporcionalidade inversa de quanto maior o sofrimento,
maior a distância política.
Em Ceuta, a resposta
institucional combinou assistência imediata com mecanismos de retorno rápido. A
ajuda humanitária foi oferecida, mas enquadrada numa lógica de gestão de crise,
não de reconhecimento de direitos. A caridade serve para aliviar a consciência,
não para transformar a estrutura.
O cinismo institucional reside precisamente nesta duplicidade de que a
Europa ajuda, mas não acolhe; socorre, mas não integra; lamenta, mas não
altera. A
ética das fronteiras é uma ética de mínimos, sempre subordinada à prioridade
máxima da segurança.
O século XXI será marcado por deslocamentos humanos massivos, motivados por
desigualdades económicas, conflitos, colapsos ambientais e regimes opressivos.
Thomas Piketty, em “Capital et Idéologie”, sublinha que a desigualdade global é
um motor estrutural das migrações. Enquanto houver abismos
de rendimento e oportunidades, haverá movimento.
A resposta europeia não
pode limitar-se a reforçar muros e terceirizar controlos. A ética das fronteiras
terá de enfrentar a realidade de que a mobilidade não é um capricho, mas uma
necessidade. A alternativa é uma escalada permanente de tensão, onde cada Ceuta
se repete com maior intensidade.
A Europa terá de
decidir se quer ser fortaleza ou comunidade. Se optar pela fortaleza,
continuará a gerir crises e a acumular ressentimentos. Se optar pela
comunidade, terá de reformular a sua ética, passando da lógica da exclusão para
a lógica da responsabilidade partilhada.
No fim, a ética das fronteiras europeias resume-se muitas vezes a um gesto
que é do carimbo. Com ele se decide quem entra e quem fica
fora, quem tem futuro e quem permanece à margem. O carimbo é o símbolo discreto
de um poder imenso, exercido com aparente neutralidade técnica.
A Europa, que se orgulha da sua tradição filosófica e jurídica, corre o
risco de se tornar uma civilização de carimbos, rigorosa nos procedimentos,
pobre na compaixão. O caso de Ceuta é um aviso de que cada fronteira é um teste
moral, e a forma como se responde a esse teste revela mais sobre a Europa do
que qualquer discurso oficial.
Se a ética não
conseguir atravessar o muro, o muro acabará por atravessar a ética. E, nesse dia, a Europa deixará de ser apenas uma
geografia política para se tornar um monumento à sua incoerência moral.
Bibliografia
Arendt, H. (1951). The
Origins of Totalitarianism. New York: Harcourt Brace.
Bauman, Z. (2016).
Strangers at Our Door. Cambridge: Polity Press.
Camus, A. (1951).
L’Homme révolté. Paris: Gallimard.
Foucault, M. (1975).
Surveiller et punir: Naissance de la prison. Paris: Gallimard.
Habermas, J. (1998).
The Inclusion of the Other: Studies in Political Theory. Cambridge: Polity
Press.
Piketty, T. (2019).
Capital et Idéologie. Paris: Seuil.
Sontag, S. (2003).
Regarding the Pain of Others. New York: Farrar, Straus and Giroux.
Agamben, G. (1998).
Homo Sacer: Il potere sovrano e la nuda vita. Torino: Einaudi.
Singer, P. (2009). The
Life You Can Save: Acting Now to End World Poverty. New York: Random House.
Documentos e notícias sobre Ceuta (2021-2026) Relatórios e comunicados
oficiais do Governo de Espanha e da União Europeia sobre a situação migratória
em Ceuta, bem como cobertura jornalística em meios como El País, BBC News e Le
Monde, que documentam os episódios recentes de entradas massivas e respostas
securitárias e humanitárias.

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