Friday, 13 March 2026

A Paisagem em Evolução da Economia Informal em 2026



A economia informal, frequentemente caracterizada por actividades económicas não registadas, regulamentadas e tributadas, representa uma faceta significativa, duradoura e complexa da estrutura económica global em 2026. Longe de ser um fenómeno temporário associado apenas a nações em desenvolvimento ou a períodos de crise aguda, demonstrou uma resiliência notável, adaptando-se aos avanços tecnológicos, às mudanças geopolíticas e à evolução dos enquadramentos regulatórios. Em 2026, a economia informal por vezes designada economia paralela, subterrânea ou oculta não constitui apenas um espaço marginal de subsistência, mas sim uma camada integrada, embora estruturalmente precária, do comércio dominante a nível mundial. Compreender as suas dimensões exige ultrapassar juízos morais ou legais simplistas para reconhecer as suas raízes estruturais profundas nas rigidezes do mercado de trabalho, nos encargos regulatórios, nas insuficiências das redes de protecção social e no impulso humano inerente para a actividade económica. Este texto apresenta uma análise extensa e detalhada da economia informal em 2026, examinando a sua escala, os seus motores, as suas manifestações contemporâneas em vários sectores, o impacto da digitalização, as respostas políticas e a sua trajectória futura num mundo cada vez mais digitalizado e globalizado. A análise incorpora enquadramentos teóricos que contextualizam a sua persistência e oferece uma perspectiva matizada sobre o seu duplo papel enquanto motor de provisão de meios de subsistência essenciais e fonte de vulnerabilidade sistémica.

Definir e Medir a Economia Informal em Meados da Década de 2020

A definição da economia informal tem sido refinada, especialmente à medida que a fronteira entre o formal e o informal se esbate devido às plataformas digitais. Tradicionalmente, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) define o emprego informal como trabalho que, por lei ou na prática, não está sujeito à legislação laboral nacional, segurança social, imposto sobre o rendimento, protecção contra acidentes de trabalho ou outras disposições legais. Isto abrange empresas do sector informal (micro e pequenas empresas não registadas) e emprego informal no sector formal (trabalhadores em empresas registadas sem contratos ou benefícios).

Escala e Âmbito em 2026

Em 2026, estimativas globais sugerem que a economia informal continua a representar uma parte substancial do emprego total, especialmente em países de baixo e médio rendimento, frequentemente ultrapassando 50% do emprego não agrícola. Contudo, a sua prevalência nas economias avançadas é também significativamente maior do que as estatísticas oficiais sugerem, impulsionada pelo trabalho de plataforma que opera em zonas cinzentas regulatórias. Em muitas nações africanas e sul-asiáticas, o sector informal permanece a principal fonte de criação de emprego, absorvendo mão-de-obra que o sector formal não consegue acolher devido a barreiras de entrada elevadas ou crescimento lento. Por exemplo, projecções para a África Subsaariana colocam frequentemente o emprego informal acima dos 70%. O âmbito estende-se para além da venda ambulante e da agricultura de pequena escala.

Em 2026, a economia informal inclui:

1. Micro e Pequenas Empresas Informais (MPEs): Negócios não registados que operam na manufactura, construção, retalho e serviços, muitas vezes fornecendo inputs a empresas formais.

2. Trabalhadores por Conta Própria: Indivíduos autoempregados sem registo formal ou protecção social.

3. Trabalhadores Assalariados Informais: Empregados que trabalham para empregadores registados ou não registados sem contratos formais, benefícios ou cumprimento das leis do salário mínimo.

4. Trabalho Informal Mediado por Plataformas: Uma nova dimensão crítica em que plataformas digitais facilitam a prestação de serviços (por exemplo, transporte partilhado, entregas, microtarefas) sem classificar os trabalhadores como empregados formais, criando uma vasta camada de precariedade gerida digitalmente.

Desafios Metodológicos na Medição

A medição rigorosa permanece um desafio fundamental. Métodos tradicionais de inquérito sofrem frequentemente de enviesamento por não resposta ou subdeclaração deliberada de rendimento por parte de participantes que temem tributação ou sanções. Em 2026, os investigadores recorrem cada vez mais a métodos indirectos, como a Abordagem de Múltiplos Indicadores (MIA), que correlaciona indicadores observáveis como consumo de electricidade, moeda em circulação e intensidade de luz nocturna com actividade económica não captada pelas contas nacionais. A ascensão das transacções digitais complica este cenário, uma vez que o dinheiro móvel e os pagamentos digitais entre pares criam novas camadas rastreáveis dentro de actividades tradicionalmente opacas baseadas em numerário. Contudo, a falta de relatórios padronizados entre jurisdições significa que as comparações internacionais continuam repletas de incerteza metodológica.

Fundamentos Teóricos da Persistência da Informalidade

A persistência da economia informal não pode ser explicada por um único factor. A teoria económica oferece vários enquadramentos concorrentes, embora frequentemente complementares, para explicar porque é que os agentes escolhem ou são forçados à informalidade.

A Perspectiva Estruturalista: Exclusão e Excedente de Mão-de-Obra

As teorias estruturalistas, fortemente influenciadas pelo modelo de duplo sector de Lewis, defendem que a informalidade é consequência de desequilíbrios estruturais, especificamente da incapacidade do sector formal moderno de absorver o excedente de mão-de-obra que migra de sectores rurais ou tradicionais. Em 2026, este conceito mantém relevância, particularmente em países de baixo e médio rendimento em rápida urbanização, onde os níveis de escolaridade frequentemente ultrapassam a criação de empregos formais que exigem essas qualificações. A informalidade funciona como um amortecedor necessário, prevenindo o desemprego em massa. A característica-chave aqui é a participação involuntária; os trabalhadores entram no sector informal não por escolha, mas devido à falta de alternativas viáveis.


A Perspectiva Institucionalista: Encargos Regulatórios e Falha do Estado

A perspectiva institucionalista centra-se no atrito entre o Estado e os agentes económicos. A informalidade prospera onde os custos de conformidade com regulamentos (impostos, taxas de licenciamento, leis laborais) superam os benefícios percebidos (protecção legal, acesso a crédito, serviços públicos). Níveis elevados de corrupção percebida, ineficiência burocrática e fraca aplicação da lei incentivam ainda mais a operação informal. Em muitos mercados emergentes em 2026, as empresas operam informalmente para evitar procedimentos de licenciamento morosos que podem levar meses ou anos, considerando que o custo imediato da não conformidade (multas) é inferior ao custo transacional da conformidade. Além disso, quando os contratos formais são inexequíveis, o benefício institucional da formalidade diminui, empurrando as empresas para redes informais de confiança e resolução de disputas. A qualidade dos bens públicos também é um factor. Se uma empresa paga impostos mas recebe infra-estruturas deficientes, electricidade pouco fiável ou segurança inexistente, o contrato social implícito é quebrado, reforçando a racionalidade da evasão fiscal e da informalidade.

A Perspectiva da Economia Política: Procura de Rendas e Captura de Elites

Uma lente mais crítica da economia política sugere que a informalidade é frequentemente sustentada por interesses instalados. Certas elites do sector formal podem pressionar por regulamentações complexas que, devido aos seus recursos, conseguem navegar facilmente, criando assim barreiras à entrada para potenciais concorrentes. A informalidade, nesta visão, é por vezes uma estratégia usada por incumbentes ou actores ligados ao poder para garantir rendas operando fora do escrutínio formal que poderia expor práticas monopolistas ou exploratórias. Além disso, actores políticos podem tolerar deliberadamente certos níveis de informalidade para garantir apoio político informal ou como fonte de clientelismo.

A Perspectiva da Agência ao Nível Micro: Eficiência e Flexibilidade

Nem toda a informalidade é motivada por desespero ou evasão. Algumas microempresas escolhem activamente a informalidade pela eficiência operacional. Isto inclui evitar impostos sobre salários, permitir maior flexibilidade salarial e manter capacidades de expansão rápida sem entraves burocráticos. Em sectores como a construção ou serviços domésticos, a natureza transitória do trabalho torna o registo formal impraticável ou excessivamente oneroso para contratos de curta duração. Esta escolha pragmática prioriza a agilidade operacional em detrimento da segurança legal.

A Transformação Digital da Informalidade em 2026

Talvez a característica mais definidora da economia informal em 2026 seja o seu profundo entrelaçamento com a tecnologia digital. A internet e a conectividade móvel formalizaram simultaneamente algumas actividades enquanto criaram formas inteiramente novas de trabalho informal mediado digitalmente.

Plataformização e a Economia Gig

A economia gig global, facilitada por plataformas como Uber, Deliveroo, Glovo e inúmeros equivalentes locais, representa uma expansão massiva de trabalho flexível, frequentemente precário. Em 2026, reguladores em todo o mundo debatem-se com a classificação destes trabalhadores. As plataformas utilizam habilmente ferramentas de gestão digital para desconstruir relações laborais tradicionais em tarefas discretas. Os trabalhadores são classificados como contratantes independentes, transferindo assim o ónus das contribuições para a segurança social, seguros e benefícios inteiramente para o indivíduo.

Esta informalidade digital difere da venda ambulante tradicional porque:

1. Escala e Alcance: As plataformas permitem que operadores individuais sirvam mercados urbanos ou mesmo globais instantaneamente.

2. Dataficação: A actividade é monitorizada, avaliada e gerida algoritmicamente, criando um panóptico digital que substitui a supervisão gerencial mas evita a responsabilidade legal dos empregadores.

3. Arbitragem Global: As plataformas ligam consumidores em países de altos salários a prestadores de serviços em países de baixos salários, pressionando ainda mais os salários nos países receptores.

E-commerce e Comércio Informal Transfronteiriço

A proliferação do comércio em redes sociais (lojas no Instagram, negócios no WhatsApp) e sites de e-commerce transfronteiriço permite que pequenos comerciantes contornem regulamentos tradicionais de importação/exportação, direitos aduaneiros e requisitos de IVA. Este “e-commerce sombra” permite que microempreendedores, especialmente mulheres, acedam a mercados mais amplos com investimento mínimo. Embora fomente o empreendedorismo, também facilita a circulação de bens não tributados ou contrafeitos, representando desafios significativos para a arrecadação de receitas e para as administrações de proteção do consumidor em 2026.

Fintech e a Ocultação de Fluxos Monetários

A tecnologia financeira (Fintech), particularmente o dinheiro móvel e as carteiras digitais, foi inicialmente vista como um caminho para a formalização ao criar um rasto digital. Embora isto seja verdade para alguns utilizadores, operadores informais sofisticados utilizam agora estas ferramentas digitais para gerir cadeias de abastecimento informais complexas, movimentando dinheiro através de fronteiras ou entre indivíduos sem accionar a supervisão regulatória bancária tradicional. A velocidade e a percepção de anonimato das transferências digitais entre pares tornam extremamente difícil para as autoridades fiscais monitorizar e tributar estas transacções.

Análise Sectorial: A Informalidade na Economia

A economia informal não é monolítica; a sua estrutura varia dramaticamente entre sectores com base na intensidade de capital, ambiente regulatório e natureza do serviço prestado.

Construção e Desenvolvimento Urbano Informal

Em 2026, o sector da construção permanece um enorme reservatório de mão-de-obra informal globalmente. Em megacidades em rápida expansão, grande parte do desenvolvimento de baixa e média altura depende de trabalhadores diários pagos em numerário, frequentemente sem formação em segurança ou seguro. Esta dependência mantém os custos de habitação mais baixos, mas cria graves riscos de segurança pública. Além disso, a construção informal conduz frequentemente à criação de assentamentos não planeados, pressionando infra-estruturas municipais e aumentando a vulnerabilidade a desastres naturais, uma vez que estas estruturas frequentemente ignoram códigos formais de construção e zoneamento.

Manufactura Informal e Cadeias de Abastecimento

A manufactura informal serve frequentemente como a espinha dorsal oculta de linhas de montagem formais. Pequenas oficinas produzem componentes, fornecem serviços de acabamento ou gerem resíduos para empresas maiores e registadas. Este arranjo permite que empresas formais externalizem riscos laborais, evitem o cumprimento do salário mínimo e minimizem custos gerais. Em sectores como moda rápida ou montagem de electrónica, esta opacidade na cadeia de abastecimento protege grandes corporações de responsabilidade relativamente às condições de trabalho, mesmo quando iniciativas globais de transparência ganham força.

Serviços Informais: Cuidado, Reparação e Serviços Pessoais

A economia do cuidado com cuidados infantis, de idosos e trabalho doméstico é esmagadoramente informal. Tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento, a falta de enquadramentos regulatórios abrangentes para o emprego doméstico privado significa que milhões de trabalhadores domésticos operam sem contratos, horários previsíveis ou acesso à segurança social. Este sector é desproporcionalmente feminino e envolve frequentemente mão-de-obra migrante, tornando-o altamente susceptível à exploração. Da mesma forma, a vasta rede de serviços de reparação (electrónica, veículos) e serviços pessoais de pequena escala (cabeleireiros, costureiras) prospera informalmente devido a baixas barreiras de entrada e elevada sensibilidade ao preço entre consumidores.

Extracção Informal de Recursos e Agricultura

Em muitos países ricos em recursos, a extracção de minerais, madeira e água permanece dominada por operações informais. A mineração artesanal e de pequena escala (ASM) fornece meios de subsistência a milhões, mas está frequentemente associada a degradação ambiental severa, conflito violento e fracos resultados de saúde. Esforços para formalizar estes sectores falham frequentemente porque os requisitos de entrada (taxas de licenciamento, padrões tecnológicos) são demasiado elevados para operadores informais existentes, levando à deslocação em vez da integração. Na agricultura de subsistência e de pequenos proprietários, a informalidade relaciona-se menos com ocultação e mais com a falta de envolvimento com sistemas regulatórios e financeiros formais, deixando os agricultores vulneráveis à volatilidade de preços e armadilhas de endividamento.

Implicações Socioeconómicas da Persistência da Informalidade

A existência de um grande sector informal gera resultados socioeconómicos profundos e frequentemente contraditórios, moldando trajectórias de desenvolvimento nacional de formas cruciais em 2026.

Redução da Pobreza e Rede de Segurança Económica

A contribuição positiva mais significativa da economia informal é o seu papel como rede de segurança crítica. Para indivíduos excluídos do emprego formal devido à falta de educação, discriminação, estagnação económica regional ou choques macroeconómicos (como recessões ou pandemias), a informalidade fornece um meio imediato de geração de rendimento. Funciona como um sistema descentralizado e autogerido de protecção social, oferecendo amortecedores de rendimento essenciais para populações vulneráveis, incluindo migrantes recentes e grupos marginalizados. Em países sem sistemas robustos de segurança social formal, esta função é indispensável para manter a estabilidade social.

Erosão da Base Fiscal e Financiamento de Serviços Públicos

O reverso da função de rede de segurança é a enorme fuga de receitas do erário público. A actividade oculta da tributação compromete a capacidade do governo de financiar serviços públicos essenciais como infra-estruturas, educação, saúde e segurança. A baixa conformidade fiscal força os governos a contrair empréstimos elevados, aumentar impostos sobre o sector  formalizado (criando assim incentivos adicionais para empresas formais se tornarem informais) ou cortar drasticamente despesas públicas. Em 2026, esta tensão é aguda; os cidadãos exigem melhores serviços mas resistem aos mecanismos de formalização necessários para os financiar, criando uma armadilha fiscal.

Dualismo do Mercado de Trabalho e Desigualdade

A informalidade exacerba a segmentação do mercado de trabalho. O sector formal oferece salários mais elevados, melhores benefícios e maior estabilidade, criando uma classe privilegiada de trabalhadores. O sector informal oferece emprego precário, frequentemente caracterizado por baixos salários, longas horas e riscos ocupacionais. Este dualismo enraíza a desigualdade de rendimentos, uma vez que aqueles presos na informalidade enfrentam menor crescimento de produtividade, acesso limitado a financiamento para expansão empresarial e oportunidades mínimas de melhoria de competências, ficando presos em actividades de baixo retorno.

Restrições à Produtividade e Inovação

As empresas que operam informalmente enfrentam tipicamente restrições severas à produtividade e inovação. Lutam para aceder a mercados de crédito formais porque lhes falta colateral ou registos transparentes exigidos pelos bancos. Também são menos propensas a investir em novas tecnologias ou formação formal, pois receiam que maior visibilidade possa expô-las a penalizações regulatórias. Esta restrição colectiva à acumulação de capital e adopção tecnológica actua como um travão significativo ao potencial de crescimento económico nacional.

Respostas Políticas e Inovações Regulatórias em Meados da Década de 2020

Os governos reconhecem globalmente que eliminar totalmente a informalidade não é viável nem desejável, dado o seu papel na criação de emprego. Assim, a política contemporânea em 2026 centra-se na mitigação, integração e formalização gradual.

Abordagens “Big Bang” vs. Gradualistas para a Formalização

Historicamente, muitos países tentaram reformas regulatórias “big bang”, destinadas a simplificar o registo empresarial de um dia para o outro. Estas falharam frequentemente porque não abordaram os incentivos económicos subjacentes. As estratégias modernas favorecem abordagens gradualistas que se concentram nos benefícios da formalidade.

1. Simplificação do Registo Empresarial: Muitos países fizeram progressos significativos na redução do tempo e custo de registar uma microempresa, frequentemente através de portais digitais de balcão único. Contudo, o encargo administrativo desloca-se frequentemente do registo para a conformidade contínua (declarações fiscais, relatórios laborais).

2. Incentivos e Limiares Fiscais: Políticas oferecem regimes fiscais simplificados (por exemplo, impostos sobre o volume de negócios em vez de impostos complexos sobre o rendimento) ou isenções fiscais temporárias para empresas recém-formalizadas. O desafio consiste em definir o limiar suficientemente alto para atrair as microempresas sem criar incentivos perversos para que empresas estabelecidas fragmentem artificialmente as suas operações abaixo da linha de reporte.

Reforma da Legislação Laboral para Flexibilidade e Protecção

A área mais desafiante é a adaptação da legislação laboral, especialmente no que diz respeito ao trabalho em plataformas. Em 2026, várias jurisdições experimentam classificações “Terceira Via” entre empregado e contratante independente. Exemplos incluem o estabelecimento de pisos obrigatórios de rendimentos para trabalhadores de plataformas ou a criação de sistemas de benefícios portáteis, onde as contribuições estão associadas ao trabalhador e não a um único empregador. Os modelos neerlandês e espanhol, que procuram impor aspectos básicos de protecção para trabalhadores de plataformas, estão a ser estudados de perto como potenciais modelos para equilibrar flexibilidade com segurança laboral.

Alargamento da Cobertura de Segurança Social

Um instrumento central de política é a dissociação dos benefícios de segurança social do estatuto de emprego formal. Isto envolve o desenvolvimento de pisos universais de protecção social, contributivos ou não contributivos, frequentemente financiados através de tributação geral em vez de depender exclusivamente de impostos sobre salários. Tecnologias de registo móvel permitem que governos inscrevam trabalhadores informais, como vendedores ambulantes ou trabalhadores agrícolas, em regimes básicos de seguro de saúde ou micro-pensões, tornando mais tangível o valor imediato da interacção com o Estado.

Focalização das Cadeias de Abastecimento para Formalização Incremental

Em vez de tentar regular cada vendedor ambulante, algumas políticas concentram-se em formalizar a interface entre os sectores informal e formal. Por exemplo, grandes compradores formais (supermercados, grandes fabricantes) podem ser incentivados ou obrigados a utilizar fornecedores informais registados, impondo assim padrões mínimos (laborais, de qualidade) ao nível informal, ao mesmo tempo que proporcionam a estas pequenas empresas procura garantida e um caminho para maior visibilidade.

O Papel do Planeamento Urbano e das Infra-estruturas

Em muitas cidades, mercados informais ocupam áreas urbanas valiosas mas carecem de infra-estruturas básicas. O planeamento urbano integrado, que envolve diálogo com associações de mercados informais e fornece segurança de ocupação, acesso a utilidades e espaços comerciais dedicados, pode funcionar como um incentivo poderoso e não punitivo para que estes negócios formalizem as suas operações e estatuto de registo.

Desafios à Integração num Mundo Digitalmente Avançado

Embora a tecnologia ofereça caminhos para a integração, também apresenta obstáculos significativos para reguladores que tentam captar e supervisionar a actividade económica.

Privacidade de Dados vs. Vigilância Económica

Para tributar e regular eficazmente actividades informais digitais, os governos necessitam de dados detalhados sobre transacções. No entanto, o crescente foco global na privacidade de dados, especialmente na Europa e em partes da Ásia, cria um conflito político. Os reguladores devem conceber sistemas que exijam transparência das plataformas digitais relativamente aos rendimentos dos trabalhadores e às transacções dos clientes sem violar direitos de privacidade ou sufocar a inovação. O equilíbrio permanece precário; uma vigilância excessivamente intrusiva pode simplesmente empurrar a actividade ainda mais para plataformas descentralizadas ou encriptadas.

Atraso Regulatório em Fintech e Criptoactivos

Comerciantes informais, procurando evitar controlos cambiais ou restrições à saída de capitais, utilizam cada vez mais finanças descentralizadas (DeFi) e criptomoedas. Em 2026, transacções envolvendo stablecoins ou outras criptomoedas são usadas para liquidar pagamentos internacionais de fornecedores para importações informais, contornando completamente os canais bancários tradicionais e a supervisão regulatória. Isto cria um sistema financeiro sombra que as autoridades monetárias nacionais têm pouca capacidade de monitorizar ou influenciar, complicando esforços de combate ao branqueamento de capitais e à evasão fiscal.

Desajustes de Competências e Lacunas de Literacia Digital

O impulso para a formalização digital exige um nível básico de literacia digital entre trabalhadores informais. Muitos empreendedores informais tradicionais, especialmente gerações mais velhas envolvidas em ofícios manuais ou pequeno retalho, carecem das competências necessárias para navegar portais de registo online, utilizar software de contabilidade digital ou cumprir requisitos de facturação electrónica. Sem iniciativas massivas e direccionadas de capacitação digital, o caminho para a formalização digital corre o risco de excluir os segmentos mais vulneráveis da economia informal, exacerbando potencialmente a desigualdade entre trabalhadores informais conectados e não conectados digitalmente.

Análise Comparativa: Informalidade em Economias Desenvolvidas vs. Economias em Desenvolvimento

A natureza e os desafios políticos associados à economia informal diferem significativamente com base no nível subjacente de desenvolvimento económico e maturidade institucional.

Informalidade em Economias Avançadas (por exemplo, Europa Ocidental, América do Norte)

Nas economias desenvolvidas, a informalidade é menor em escala absoluta, mas frequentemente altamente concentrada em áreas específicas como trabalho de imigrantes indocumentados, serviços domésticos não declarados, trabalho de construção ou reparação pago em numerário e a mencionada economia de plataformas. A principal preocupação política aqui é a perda de receitas fiscais e a concorrência desleal contra empresas formalmente registadas. Violações da legislação laboral, mais do que a sobrevivência básica, impulsionam frequentemente esta informalidade. O foco político centra-se na melhoria dos mecanismos de fiscalização, no reforço das protecções para denunciantes e na utilização de partilha de dados entre instituições ou actividades (por exemplo, ligação entre registos fiscais, segurança social e dados de imigração) para detectar discrepâncias. O desafio é manter a competitividade enquanto se preservam padrões laborais elevados.

Informalidade em Economias Emergentes e em Desenvolvimento (por exemplo, Brasil, Índia, Nigéria)

Nos países de baixo e médio rendimento, a informalidade é sistémica, profundamente enraizada na estrutura da vida urbana e do comércio. É frequentemente uma questão de sobrevivência, caracterizada por baixa produtividade e fraco poder de negociação dos trabalhadores. O principal objectivo político é a transformação estrutural como integrar estas actividades na cadeia de valor formal para aumentar a produtividade, melhorar as condições de trabalho e expandir a base fiscal para financiar o desenvolvimento. A dificuldade reside no enorme volume de actores e na profundidade das fragilidades institucionais. As políticas aqui devem ser desenvolvimentistas, ligando a formalização não apenas à conformidade, mas a benefícios tangíveis como acesso a infra-estruturas, mercados maiores e crédito acessível.

O Papel da Sociedade Civil e das Organizações de Trabalhadores

Até 2026, a visão tradicional dos trabalhadores informais como receptores passivos de políticas estatais está cada vez mais ultrapassada. Os trabalhadores informais estão a organizar-se, frequentemente de forma digital, para reivindicar os seus direitos e negociar melhores condições.

Emergência de Colectivos de Trabalhadores Informais

Associações de vendedores ambulantes, cooperativas de catadores e sindicatos de trabalhadores de plataformas estão a ganhar atenção política. Estas organizações desempenham várias funções vitais pois fornecem apoio mútuo, estabelecem padrões de qualidade dentro das suas actividades e actuam como agentes unificados de negociação com governos municipais relativamente a zonas de venda, taxas de licenciamento ou políticas de remuneração das plataformas. O seu sucesso depende frequentemente da capacidade de operar fora das estruturas sindicais formais, muitas vezes corruptas.

Advocacia pelo Diálogo Social

Estratégias eficazes de formalização exigem agora diálogo social genuíno que inclua representantes do sector informal, e não apenas sindicatos do sector formal ou federações empresariais. Quando políticas relativas ao espaço urbano, licenciamento ou regulamentação de plataformas são formuladas sem contributo daqueles directamente afectados, as taxas de conformidade diminuem e a resistência aumenta. Em centros urbanos progressistas, mecanismos de orçamento participativo que alocam fundos com base em negociações com grupos de trabalhadores informais estão a tornar-se modelos de governação mais inclusiva.

O Desafio da Inclusão na Representação Formal

Um desafio persistente é que sindicatos formais têm dificuldade em organizar trabalhadores informais porque modelos tradicionais de organização (reuniões no local de trabalho, contratos formais) não se aplicam. Novas estratégias de organização aproveitando tecnologia móvel para comunicação rápida, focando em queixas imediatas (por exemplo, despejos arbitrários, desactivação repentina de plataformas) são essenciais para construir o poder colectivo necessário para exigir mudanças legislativas.

Trajectórias Futuras e Síntese Conclusiva

Olhando para além de 2026, a trajectória da economia informal será determinada pela intersecção entre avanço tecnológico, adaptação às alterações climáticas e estabilidade geopolítica.

Alterações Climáticas e a Resiliência da Informalidade

Choques climáticos como eventos meteorológicos extremos e escassez de recursos afectam desproporcionalmente os mais vulneráveis, muitos dos quais operam informalmente em locais precários (zonas costeiras, assentamentos informais). Embora a informalidade possa oferecer mecanismos de recuperação rápida (por exemplo, reconstrução imediata e não registada), frequentemente aprisiona comunidades em situações de alto risco devido ao incumprimento de códigos de construção resilientes. A política futura deve integrar o planeamento de adaptação climática directamente nos incentivos à formalização, oferecendo subsídios ou reconhecimento legal para aqueles que constroem infra-estruturas resistentes ao clima.

Automação e o Aprofundamento da Precariedade

Se a automação avançar rapidamente na manufatura, logística e até em tarefas administrativas de colarinho branco, o sector formal pode contrair-se ou tornar-se hiperespecializado, empurrando ainda mais trabalhadores qualificados para trabalho informal mediado digitalmente. Este cenário sugere que o dualismo do mercado de trabalho se aprofundará, com um núcleo formal pequeno e altamente qualificado a gerir sistemas automatizados e uma vasta periferia informal flexível gerida digitalmente. O principal desafio político desloca-se da criação de emprego para medidas de segurança de rendimento universal.

A Necessidade de uma Aceitação Pragmática

A evidência sugere fortemente que a economia informal persistirá indefinidamente, embora em formas evolutivas. Tratar a informalidade apenas como uma falha criminal que exige repressão é contraproducente, conduzindo apenas a maior ocultação e vulnerabilidade. Em 2026, o consenso entre organismos internacionais de desenvolvimento está a mover-se no sentido de reconhecer a economia informal como um componente intrínseco do mercado de trabalho global em evolução, que exige gestão matizada, e não erradicação total.

Países com as maiores taxas de informalidade (acima de 95%)

Estes países apresentam os níveis mais elevados de emprego informal no mundo, segundo dados compilados pela OIT:

  • Níger - 98,49%
  • Burundi - 98,31%
  • Chade - 96,92%
  • República Democrática do Congo - 96,76%
  • Benim - 96,35%
  • Madagáscar - 96,08%
  • Moçambique - 95,67%
  • Mali - 95,42%
  • Uganda - 95,15%
  • Guiné-Bissau - 94,77%

Estes valores significam que praticamente toda a economia activa funciona fora do sector formal.

Regiões do mundo com maior economia informal

A informalidade não é distribuída de forma uniforme.

A OIT identifica diferenças regionais marcantes:

  • África: 85,8% do emprego é informal (a região mais afectada).
  • Ásia e Pacífico: 68,2%.
  • Estados Árabes: 68,6%.
  • Américas: 40%.
  • Europa e Ásia Central: 25,1% (a menor taxa global).

Porque estes países têm tanta informalidade?

A informalidade elevada está associada a factores estruturais como:

  • Baixa industrialização e forte dependência da agricultura de subsistência;
  • Ausência de protecção social e sistemas fiscais frágeis;
  • Burocracia elevada para registar empresas;
  • Instabilidade política ou conflitos;
  • Falta de acesso a crédito e mercados formais.

Outras formas de medir a economia informal

Além do emprego informal, instituições como o Banco Mundial analisam a informalidade através de:

  • Produção económica não registada,
  • Autoemprego,
  • Ausência de contribuições para pensões,
  • Percepções empresariais sobre informalidade.

Estas métricas confirmam que a informalidade é um fenómeno global, mas extremamente concentrado em países de baixo rendimento.

A economia informal representa uma parte enorme da actividade económica mundial, mas o seu valor total é difícil de medir porque, por definição, envolve produção e rendimento não declarados. Ainda assim, existem estimativas globais consistentes produzidas por organismos internacionais.

A melhor forma de responder é separar valor económico e dimensão laboral, porque ambos são usados para medir informalidade.

Dimensão global da economia informal (valor económico)

As estimativas mais utilizadas vêm de modelos económicos (como MIMIC e DGE) compilados pelo Banco Mundial. Segundo a Informal Economy Database, a economia informal representa entre 20% e 35% do PIB mundial, dependendo do método de cálculo.

Isto significa que, num PIB global aproximado de 100 mil milhões de dólares, a economia informal pode movimentar:

Entre 20 e 35 biliões de dólares por ano

Este intervalo varia por região:

·         Economias avançadas: 10%-20% do PIB

·         Economias emergentes: 25%-40% do PIB

·         Países de baixo rendimento: 40%-60% do PIB

Dimensão laboral da economia informal

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que:

Mais de 60% da força de trabalho mundial opera na economia informal

80% das empresas no mundo são informais

Isto significa que a maior parte da actividade económica global ocorre fora do sistema formal, especialmente em países de baixo rendimento.

 Porque o valor é difícil de medir?

A economia informal inclui:

·         Trabalho sem contrato

·         Produção doméstica não registada

·         Comércio de rua

·         Microempresas não declaradas

·         Actividades rurais de subsistência

·         Parte da economia paralela (não criminosa)

Como estas actividades não são declaradas, os governos e organismos internacionais dependem de:

·         Modelos econométricos (MIMIC, DGE)

·         Inquéritos empresariais

·         Inquéritos às famílias

·         Indicadores indirectos (consumo de electricidade, discrepâncias fiscais, etc.)

Síntese

·         Valor global estimado: 20-35% do PIB mundial

·         Valor monetário aproximado: 20-35 mil milhões USD/ano

·         Trabalhadores envolvidos: mais de 60% da força de trabalho mundial

·         Empresas informais: cerca de 80% das empresas globais

Tabela comparativa da economia informal por continente

(Percentagem média da força de trabalho em emprego informal)

Os valores abaixo reflectem estimativas consolidadas da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que identifica a informalidade sobretudo através do emprego informal.

Continente / Região

Percentagem média de emprego informal

Observações estruturais

África

85-90%

A mais elevada do mundo; predominância de agricultura de subsistência e microcomércio.

Ásia e Pacífico

65-70%

Grande heterogeneidade: informalidade muito alta no Sul da Ásia; mais baixa no Leste Asiático.

Estados Árabes

65-70%

Informalidade elevada fora do sector público; forte dualidade económica.

América Latina e Caraíbas

50-55%

Informalidade estrutural persistente apesar de industrialização parcial.

Europa de Leste e Ásia Central

30-35%

Informalidade ligada a transição pós-soviética e autoemprego.

Europa Ocidental / UE

15-20%

A mais baixa do mundo; forte protecção social e fiscalização.

Análise das causas da informalidade

A informalidade não é um fenómeno isolado; resulta de factores estruturais, institucionais e socioeconómicos.

Abaixo estão os principais motores da informalidade, organizados por dimensão.

1. Estrutura económica

  • Predomínio da agricultura de subsistência (África, Sul da Ásia).
  • Baixa industrialização e fraca diversificação económica.
  • Mercados de trabalho fragmentados, com grande peso do autoemprego.

2. Instituições e governação

  • Burocracia elevada para registar empresas.
  • Custos fiscais e regulatórios altos para pequenos negócios.
  • Fiscalização insuficiente e baixa capacidade administrativa do Estado.
  • Corrupção que desincentiva a formalização.

3. Factores sociais e demográficos

  • Baixa escolaridade e falta de qualificações formais.
  • Crescimento populacional rápido sem criação proporcional de empregos formais.
  • Migração rural-urbana que gera microcomércio informal.

4. Acesso limitado a recursos

  • Dificuldade de acesso a crédito, especialmente para microempresas.
  • Falta de protecção social, levando trabalhadores a aceitar empregos informais.
  • Infra-estruturas insuficientes (mercados, electricidade, transportes).

5. Choques económicos e instabilidade

  • Conflitos armados (ex.: RDC, Sudão).
  • Crises económicas que empurram empresas para a informalidade.
  • Pandemias que reduzem empregos formais e aumentam o autoemprego informal.

Comparação: Economia Informal vs. Economia Paralela (Shadow Economy)

Embora muitas vezes confundidos, são conceitos distintos.

Economia Informal

Definição: Actividades económicas legais, mas não registadas, não declaradas ou não reguladas.

Exemplos:

  • Vendedores ambulantes
  • Agricultura de subsistência
  • Microempresas sem registo fiscal
  • Trabalho doméstico não declarado

Características:

  • Não é criminosa
  • Surge por necessidade económica
  • Representa a maior parte da actividade económica em países de baixo rendimento
  • Envolve trabalhadores vulneráveis sem protecção social

Impacto:

  • Reduz receitas fiscais
  • Aumenta vulnerabilidade social
  • Pode ser porta de entrada para formalização se houver políticas adequadas

Economia Paralela (Shadow Economy)

Definição: Actividades económicas deliberadamente ocultadas para evitar impostos, regulamentos ou fiscalização. Pode incluir actividades legais ou ilegais.

Exemplos:

  • Empresas formais que escondem parte das vendas
  • Trabalho “por fora” para evitar impostos
  • Contrabando
  • Actividades ilegais (quando incluídas no conceito mais amplo de “economia subterrânea”)

Características:

  • Envolve evasão fiscal intencional
  • Pode incluir crime organizado
  • Mais comum em países de rendimento médio e alto

Impacto:

  • Erosão fiscal significativa
  • Competição desleal
  • Risco de lavagem de dinheiro

Diferenças essenciais (síntese)

Critério

Economia Informal

Economia Paralela

Legalidade da actividade

Legal

Pode ser legal ou ilegal

Motivação

Necessidade económica, falta de acesso

Evasão fiscal, ocultação

Escala

Maior em países pobres

Maior em países de rendimento médio/alto

Protecção social

Ausente

Pode existir (empresas formais que ocultam parte das operações)

Impacto social

Vulnerabilidade e pobreza

Perda fiscal e distorção de mercado

Conclusão

A economia informal é um fenómeno global, mas profundamente desigual entre continentes. As causas são estruturais e persistentes, e a distinção entre informalidade e economia paralela é essencial para políticas públicas eficazes.

1. Políticas de formalização

1.1. Redução de barreiras à formalização

·         Simplificação do registo de empresas: One-stop shops, registo online, menos formulários e idas a repartições.

·         Custos mais baixos para microempresas: Taxas reduzidas ou isenção inicial para negócios pequenos.

·         Regimes fiscais simplificados: Imposto único ou presumido para micro e pequenas empresas (ex.: facturação até certo limite).

1.2. Incentivos positivos

·         Acesso a crédito só para empresas formais: Bancos e programas públicos que exigem NIF/registo para conceder empréstimos.

·         Compras públicas abertas a pequenas empresas formais: O Estado como cliente âncora para incentivar formalização.

·         Benefícios de segurança social: Planos contributivos simplificados para trabalhadores independentes e microempresas.

1.3. Protecção social e laboral

·         Contribuições proporcionais à renda: Para não expulsar os mais pobres do sistema formal.

·         Cobertura gradual: Começar com saúde e acidentes de trabalho, depois pensões.

1.4. Fiscalização inteligente

·         Foco nos grandes evasores, não nos micro-negócios de sobrevivência.

·         Transição assistida: Programas que dão prazo e apoio técnico para formalizar, em vez de apenas multar.

2. Casos de sucesso por país

2.1. Brasil - MEI (Microempreendedor Individual)

·         O que foi feito: Criação da figura do MEI, com:

o    Registo simplificado online,

o    Imposto fixo mensal baixo,

o    Acesso à segurança social.

·         Resultados: Milhões de trabalhadores por conta própria formalizados, sobretudo em comércio e serviços pessoais.

2.2. México - Régimen de Incorporación Fiscal (RIF)

·         O que foi feito: Regime fiscal com:

o    Descontos progressivos no imposto nos primeiros anos,

o    Integração com segurança social.

·         Resultados: Aumento significativo de contribuintes formais de pequena escala, embora com desafios de permanência.

2.3. Ruanda - Reformas pró-negócio

·         O que foi feito:

o    Registo de empresas em 24 horas,

o    Custos muito baixos,

o    Forte digitalização.

·         Resultados: Subida consistente nos rankings de facilidade de fazer negócios e aumento de empresas registadas.

2.4. Uruguai - Integração fiscal e social

·         O que foi feito:

o    Regimes simplificados para pequenos contribuintes,

o    Forte ligação entre formalização e acesso a saúde/pensões.

·         Resultados: Redução da informalidade laboral e aumento da cobertura de protecção social.

(Nota: nenhum destes casos “eliminou” a informalidade, mas todos mostraram que políticas bem desenhadas conseguem reduzir e qualificar a transição.)

3. Impactos da informalidade no crescimento económico

3.1. Impactos negativos

·         Menor produtividade média: Empresas informais tendem a ser pequenas, com baixa tecnologia, pouco acesso a crédito e fraca gestão. → Resultado: crescimento económico mais lento.

·         Base fiscal reduzida: Menos impostos cobrados → menos investimento público em infra-estruturas, educação, saúde. → Resultado: círculo vicioso de baixo desenvolvimento.

·         Baixo investimento em capital humano: Trabalhadores informais têm menos formação,  estabilidade e incentivos para qualificação. → Resultado: trabalho pouco qualificado e salários baixos.

·         Concorrência desleal: Empresas formais pagam impostos e contribuições; informais não. → Resultado: desincentivo à formalização e à inovação.

3.2. Impactos ambivalentes (tanto positivos como negativos)

·         Amortecedor social: Em países pobres, a informalidade impede que o desemprego exploda. → Sem economia informal, haveria mais miséria imediata. Mas: mantém muita gente presa em actividades de baixa produtividade.

·         Empreendedorismo de necessidade vs. oportunidade: A informalidade pode ser um primeiro passo para alguns negócios que depois se formalizam. Mas, na maioria dos casos, é estratégia de sobrevivência, não de crescimento.

4. Ideia-chave para políticas sérias

A formalização não pode ser só repressão. Funciona melhor quando o Estado diz, na prática:

“Se te formalizares, a tua vida melhora: tens acesso a crédito, podes vender para o governo, tens protecção social, e o custo é proporcional ao que ganhas.”

1. Pacote de políticas de formalização para Macau

Pensando em Macau tal como é pequena, muito dependente de serviços, turismo, restauração, microcomércio e trabalho por conta própria.

1.1. Eixo 1 – Registo simples e barato para microempresas

·         Criação de um regime “Micro Negócio de Macau” Inspirado no MEI brasileiro, com:

o    Registo online em 1 dia,

o    Limite de facturação anual (ex.: até X MOP),

o    Possibilidade de ter 0–2 empregados.

·         Taxa fixa mensal simbólica Em vez de imposto complexo, um valor fixo baixo que:

o    Cobre contribuição mínima para segurança social,

o    Substitui vários impostos pequenos.

·         Isenção parcial nos primeiros 1-2 anos Para novos negócios formais, com redução gradual:

o    Ano 1: 0%

o    Ano 2: 50%

o    Ano 3 em diante: 100% da taxa fixa.

1.2. Eixo 2 – Incentivos concretos para quem se formaliza

·         Acesso prioritário a programas de crédito público

Ex.: linhas como as existententes (600.000 MOP) só para negócios formais.

·         Compras públicas abertas a microempresas

Pequenos contratos de fornecimento de:

o    Catering,

o    Produtos alimentares,

o    Serviços criativos, reservados a empresas registadas em Macau.

Benefícios em renda comercial Parcerias com proprietários e operadores (como hotéis) para:

o    Dar preferência a negócios formais,

o    Negociar rendas mais estáveis em troca de contratos mais longos.

1.3. Eixo 3 – Protecção social adaptada à realidade de Macau

·         Contribuições proporcionais à facturação

Para trabalhadores por conta própria e microempresas:

o    Quem factura pouco, contribui pouco, mas não fica fora do sistema.

 

·         Cobertura mínima garantida

o    Saúde,

o    Acidentes de trabalho,

o    Pensão básica.

1.4. Eixo 4 – Fiscalização inteligente e pedagógica

·         Fase de transição com “aviso + prazo”

Em vez de multa imediata:

o    Primeira abordagem: notificação, explicação e prazo para formalizar,

o    Só depois sanções.

 

·         Foco nos grandes evasores, não nos micro de sobrevivência

A mensagem:

“Queremos que os pequenos cresçam, não que desapareçam.”

1.5. Eixo 5 – Apoio técnico e digital

·         Balção único físico + plataforma digital

o    Registo,

o    Licenças,

o    Pagamento de taxas, tudo num só sítio.

·         Mentoria para microempresas

Programas com:

o    Contabilidade básica,

o    Gestão de caixa,

o    Marketing digital, focados em restauração, comércio, serviços.

2. Quadro comparativo – Macau, Brasil, México, Uruguai

Elemento-chave

Brasil – MEI

México – RIF

Uruguai

O que Macau pode adaptar

Registo simplificado

Online, rápido, gratuito

Regime fiscal especial

Regimes simplificados

Criar “Micro Negócio de Macau” com registo em 1 dia

Imposto

Valor fixo mensal baixo

Descontos progressivos

Impostos simplificados

Taxa fixa mensal simbólica + isenção inicial

Segurança social

Incluída no MEI

Integrada no regime

Forte ligação fiscal-social

Contribuição proporcional à facturação, com cobertura mínima

Incentivos

Acesso a crédito, CNPJ

Acesso a programas formais

Acesso a saúde/pensões

Acesso a crédito público, compras do governo, contratos com hotéis

Mensagem política

“Ser MEI é vantagem”

“Formalizar compensa no início”

“Formal é sinónimo de protecção”

“Se te formalizares, tens mais oportunidades e protecção”

Ideia central para Macau

Macau tem uma vantagem: é pequeno, rico em termos de PIB per capita e com forte capacidade administrativa.

Isso permite:

·         Testar um regime piloto de formalização para micro negócios (restauração, comércio, serviços),

·         Ligar formalização a acesso a espaços premium (como food courts de hotéis, centros comerciais),

·         Usar o Estado e os grandes operadores (casinos, hotéis) como âncora de formalização: só contratam e alugam a quem está formal.

Conclusão

A economia informal em 2026 é uma situação dinâmica e multinivel, profundamente entrelaçada com estruturas formais através de cadeias de abastecimento, plataformas digitais e dinâmicas urbanas. Serve como um fornecedor essencial, embora precário, de meios de subsistência para milhares de milhões, mascarando falhas estruturais na criação de emprego formal, eficácia regulatória e provisão de segurança social. A sua forma actual é fortemente moldada pela digitalização, que permitiu novas formas de empreendedorismo e criou mecanismos sofisticados de evasão regulatória, particularmente no sector das plataformas. A governação eficaz no futuro exige uma mudança de paradigma da fiscalização punitiva para a integração estratégica. Isto requer a simplificação dos enquadramentos regulatórios, a dissociação da protecção social do estatuto de emprego tradicional, a promoção da inclusão digital entre trabalhadores informais e, crucialmente, o envolvimento em diálogo social genuíno com os intervenientes da economia oculta. Em última análise, gerir a economia informal é menos sobre reduzir uma sombra e mais sobre construir caminhos económicos inclusivos que reconheçam as funções económicas necessárias que actualmente desempenha, ao mesmo tempo que mitigam gradualmente os riscos inerentes de precariedade, exploração e erosão fiscal que impõe à sociedade. A estabilidade futura e o crescimento equitativo da economia global dependem da capacidade de navegar com sucesso este terreno complexo, reconhecendo que a formalização é um processo gradual impulsionado por incentivos e confiança, e não apenas por decretos legislativos.

Bibliografia

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  • International Labour Organization (ILO). (2023). Women and Men in the Informal Economy: A Statistical Picture. Geneva: ILO.
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  • Sassen, S. (2014). Expulsions: Brutality and Complexity in the Global Economy. Harvard University Press.
  • Williams, C. C., & Horodnic, I. (2017). Evaluating the Prevalence of Informal Work in the European Union. European Commission Report.
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Referências:

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https://www.researchgate.net/publication/387453818_The_Impact_of_the_Digital_Economy_on_Informal_Employment_of_Platform_Economy_Workers_in_Chinese_Cities

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