PORTUGAL 2025
Jorge
Rodrigues Simão
Janeiro 2026
SUMÁRIO
Parte I - Introdução Geral
1. Objectivos
do estudo
2. Metodologia
e enquadramento teórico
3. Justificação
da relevância do tema
4. Estrutura
do trabalho
Parte II - Portugal em 2025: Contexto
Estrutural
1. Enquadramento
político
2. Enquadramento
económico
3. Enquadramento
social e demográfico
4. Enquadramento
cultural e científico
5. Enquadramento
ambiental e energético
6. Enquadramento
internacional e europeu
Parte III - Os Acontecimentos Mais
Relevantes de 2025
1. Política
interna e reformas
2. Economia,
finanças públicas e investimento
3. Habitação,
desigualdades e coesão social
4. Saúde
e o SNS
5. Justiça,
segurança e administração pública
6. Educação,
ciência e inovação
7. Cultura,
património e identidade
8.
Portugal
no mundo: diplomacia, UE e CPLP
Parte IV - O Sistema Político
Português
1. Evolução
histórica do regime democrático
2.
A
Constituição de 1976 e o semipresidencialismo moderado
3.
O
papel do Presidente da República
4. O
comportamento eleitoral português
Parte V - Eleições Presidenciais em Portugal:
Tendências Históricas
1. Padrões
de participação
2. Perfis
sociológicos do eleitorado
3. A
evolução da comunicação política
4.
O
impacto das crises económicas e sociais
5. A
transformação geracional do voto
Parte VI - Fatores que Influenciam as
Eleições de 2026
1. Fatores
económicos
2. Fatores
sociais
3. Fatores
institucionais
4. Fatores
mediáticos e digitais
5. Fatores
internacionais
6. Temas
prováveis da campanha
Parte VII - Cenários Gerais para 2026
1. Cenários
institucionais
2. Cenários
económicos
3. Cenários
sociais
4. Cenários
geopolíticos
5. Riscos
e oportunidades
PARTE
I
INTRODUÇÃO
GERAL
1. Objectivos do Estudo
O
presente trabalho tem como objectivo analisar, com profundidade académica e
rigor metodológico, o contexto político, económico, social e institucional de
Portugal no ano de 2025, bem como examinar os factores estruturais que moldam o
ambiente das eleições presidenciais de 2026. Trata‑se de um estudo que procura
compreender não apenas os acontecimentos factuais que marcaram o país ao longo
de 2025, mas também as dinâmicas históricas, sociológicas e institucionais que
influenciam o comportamento eleitoral português em momentos de escolha
presidencial. A análise não se centra em candidatos específicos, nem formula
previsões eleitorais personalizadas, respeitando assim a neutralidade e os
limites éticos e metodológicos que devem orientar qualquer investigação
académica sobre processos democráticos. Em vez disso, o estudo procura
identificar tendências gerais, padrões históricos,
variáveis estruturais e cenários possíveis,
oferecendo uma leitura abrangente e fundamentada do contexto nacional que
antecede o acto eleitoral de 2026.
O
objectivo central é, portanto, duplo:
1.
Compreender Portugal em 2025, nas suas múltiplas dimensões política, económica, social, cultural,
ambiental e internacional.
2.
Analisar os factores que moldam as eleições presidenciais, com base em evidências históricas,
teorias da ciência política e observação das transformações contemporâneas.
Este
estudo pretende contribuir para o debate académico sobre democracia portuguesa,
oferecendo uma síntese aprofundada e sistematizada que possa servir de
referência para investigadores, estudantes, decisores públicos e cidadãos
interessados na evolução política do país.
2. Metodologia e
Enquadramento Teórico
A
metodologia adoptada combina elementos de análise qualitativa, histórica,
institucional e sociológica.
O estudo recorre a:
·
Análise documental: legislação, relatórios oficiais, dados estatísticos, estudos académicos e
fontes públicas.
·
Análise histórica comparada: evolução das eleições presidenciais desde 1976, padrões de participação,
transformações do eleitorado.
·
Análise institucional: papel do Presidente da República no sistema semipresidencial português,
competências formais e informais.
·
Análise contextual: acontecimentos políticos, económicos e sociais de 2025.
·
Análise prospectiva: construção de cenários gerais para 2026, sem previsões personalizadas.
O
enquadramento teórico assenta em três pilares fundamentais:
a) Teoria do Semipresidencialismo
Portugal
é frequentemente classificado como um regime de semipresidencialismo
moderado, no qual o Presidente da República possui poderes relevantes,
mas limitados, e onde a governação quotidiana cabe ao Governo e à Assembleia da
República. A literatura de referência incluindo autores como Maurice Duverger,
Giovanni Sartori e Arend Lijphart fornece a base conceptual para compreender o
papel do Presidente e a natureza das eleições presidenciais.
b) Teoria do Comportamento Eleitoral
A
análise das eleições presidenciais exige a compreensão de factores como:
·
Identidade partidária
·
Estrutura social do eleitorado
·
Ciclos económicos
·
Papel dos media
·
Mudanças geracionais
·
Participação cívica
Autores
como Anthony Downs, Pippa Norris, Ronald Inglehart e Russell Dalton são
fundamentais para enquadrar estas dinâmicas.
c) Teoria da Comunicação Política
As
eleições contemporâneas são profundamente influenciadas pela mediatização, pela
comunicação digital e pelas redes sociais. O estudo recorre a autores como
Manuel Castells, Jay Blumler e Gianpietro Mazzoleni para compreender a
transformação do espaço público e o impacto da tecnologia na formação da
opinião pública.
3. Justificação da Relevância
do Tema
A
escolha de 2025 como objecto de análise não é arbitrária.
Trata‑se
de um ano marcado por:
·
Mudanças políticas significativas
·
Desafios económicos persistentes
·
Tensões
sociais relacionadas com habitação, desigualdades e serviços públicos
·
Transformações tecnológicas aceleradas
·
Reposicionamento
internacional de Portugal no contexto europeu e global
Além
disso, 2025 é o ano imediatamente anterior às eleições presidenciais de 2026, o
que torna a sua análise particularmente relevante para compreender o ambiente
político e social que moldará o comportamento dos eleitores.
As
eleições presidenciais portuguesas têm características únicas no panorama
democrático europeu:
·
São
eleições personalizadas, centradas em figuras individuais.
·
Têm
uma forte dimensão institucional, dado o papel do Presidente
como garante da estabilidade.
·
São
influenciadas por factores transversais, que ultrapassam a
lógica partidária.
·
Constituem
momentos de avaliação simbólica do estado da democracia.
Assim,
compreender o contexto de 2025 é essencial para interpretar as dinâmicas que
influenciarão 2026.
4. Estrutura do Trabalho
O
estudo está organizado em oito partes principais, cada uma com objectivos
específicos e articuladas entre si:
Parte I - Introdução Geral
Apresenta
os objectivos, metodologia, enquadramento teórico e relevância do tema.
Parte II - Portugal em 2025: Contexto Estrutural
Analisa
o país nas suas dimensões política, económica, social, cultural, ambiental e
internacional.
Parte III - Os Acontecimentos Mais Relevantes de 2025
Explora
os eventos que marcaram o ano, com impacto directo ou indirecto no ambiente
político.
Parte IV - O Sistema Político Português
Descreve
a evolução do regime democrático, o papel do Presidente e o comportamento
eleitoral.
Parte V - Eleições Presidenciais: Tendências Históricas
Analisa
padrões de participação, perfis sociológicos e transformações do eleitorado.
Parte VI - Factores que Influenciam 2026
Examina
variáveis económicas, sociais, institucionais, mediáticas e internacionais.
Parte VII - Cenários Gerais para 2026
Constrói
cenários estruturais, sem previsões sobre candidatos.
Parte VIII - Conclusão Geral
Sintetiza
os principais resultados e reflexões.
PARTE
II
PORTUGAL
EM 2025: CONTEXTO ESTRUTURAL
O ano
de 2025 constituiu um momento particularmente significativo na evolução recente
de Portugal, não apenas pela acumulação de desafios económicos, sociais e
institucionais, mas também pela forma como estes se articularam com
transformações mais amplas no espaço europeu e global. A compreensão deste
período exige uma leitura integrada das várias dimensões que moldaram o país
como a política interna, economia, sociedade, cultura, ambiente e a inserção
internacional. Cada uma destas esferas contribuiu para definir o clima nacional
que antecede as eleições presidenciais de 2026, influenciando percepções públicas,
prioridades colectivas e expectativas quanto ao papel das instituições
democráticas.
1. Enquadramento Político
O
sistema político português em 2025 manteve as características fundamentais do
semipresidencialismo moderado, no qual o Presidente da República desempenha
funções de garante da estabilidade institucional, árbitro do sistema e figura
de referência simbólica. A governação quotidiana continuou a ser exercida pelo
Governo, responsável perante a Assembleia da República, num contexto marcado
por debates intensos sobre políticas públicas, reformas estruturais e a
capacidade do Estado para responder a problemas persistentes.
O ano
foi marcado por tensões políticas significativas, reflectindo a fragmentação
crescente do sistema partidário e a dificuldade em construir consensos
duradouros. A multiplicação de forças políticas com representação parlamentar,
fenómeno que se vinha consolidando desde a década anterior, contribuiu para um
ambiente de maior volatilidade e imprevisibilidade. A negociação política
tornou‑se mais complexa, exigindo maior capacidade de compromisso e diálogo
interpartidário, ao mesmo tempo que a pressão social sobre temas como
habitação, saúde e desigualdades aumentava.
A
relação entre órgãos de soberania manteve‑se dentro dos parâmetros
constitucionais, mas não deixou de ser objecto de escrutínio público, sobretudo
em momentos de tensão entre o Governo e a Presidência da República. A opinião
pública demonstrou crescente sensibilidade à estabilidade institucional,
valorizando a previsibilidade e a capacidade de gestão de crises. Este factor é
particularmente relevante para compreender o ambiente que antecede as eleições
presidenciais, dado que o eleitorado tende a associar o papel do Presidente à
salvaguarda da continuidade democrática e ao equilíbrio entre poderes.
2. Enquadramento Económico
A
economia portuguesa em 2025 enfrentou um conjunto de desafios estruturais que,
embora não fossem novos, se tornaram mais visíveis e urgentes. O crescimento
económico manteve‑se moderado, condicionado por factores como a desaceleração
europeia, a inflação persistente em determinados sectores e a dificuldade em
aumentar a produtividade. A dependência de sectores como o turismo continuou a
ser objecto de debate, sobretudo no que diz respeito à necessidade de
diversificação económica e ao impacto das actividades turísticas no mercado de
habitação e no custo de vida.
A
inflação, embora mais controlada do que nos anos imediatamente anteriores,
continuou a afectar bens essenciais, pressionando o rendimento disponível das
famílias. O aumento das taxas de juro, consequência das políticas monetárias
europeias, teve impacto directo no crédito à habitação, agravando a situação de
milhares de famílias e contribuindo para o debate público sobre políticas de habitação,
regulação do mercado e intervenção do Estado.
O
mercado de trabalho apresentou sinais mistos; por um lado, níveis relativamente
baixos de desemprego; por outro, persistência de salários médios reduzidos,
precariedade em determinados sectores e dificuldades de retenção de talento
qualificado. A emigração jovem, embora menos intensa do que em períodos
anteriores, continuou a ser um fenómeno relevante, reflectindo a percepção de
oportunidades limitadas no país.
A
política orçamental procurou equilibrar a necessidade de consolidação das
contas públicas com a pressão social para reforçar o investimento em áreas como
saúde, educação e habitação. Este equilíbrio revelou‑se difícil, especialmente
num contexto de exigências europeias e de expectativas internas crescentes. A
sustentabilidade da dívida pública permaneceu como tema central, condicionando
a margem de manobra do Governo e influenciando o debate político.
3. Enquadramento Social e
Demográfico
A
sociedade portuguesa em 2025 continuou a enfrentar desafios demográficos
profundos, caracterizados pelo envelhecimento populacional, baixa natalidade e
desequilíbrios regionais. A pressão sobre os sistemas de saúde e segurança
social tornou‑se mais evidente, exigindo reformas estruturais que, embora
amplamente discutidas, continuaram a enfrentar resistências políticas e
sociais.
A
habitação emergiu como um dos temas mais críticos do ano. O aumento dos preços,
a escassez de oferta acessível e a pressão do turismo e do investimento
imobiliário estrangeiro contribuíram para um sentimento generalizado de
insegurança habitacional, especialmente entre jovens e famílias de classe
média. Este tema tornou‑se central no debate público, influenciando percepções
sobre a eficácia das políticas públicas e a capacidade do Estado para garantir
direitos sociais fundamentais.
As
desigualdades sociais mantiveram‑se como preocupação crescente. Embora Portugal
continue a apresentar níveis de desigualdade inferiores à média de alguns
países europeus, a percepção pública de injustiça social aumentou, alimentada
por dificuldades no acesso à habitação, serviços de saúde e oportunidades
económicas. A mobilidade social, tradicionalmente limitada, tornou‑se objecto
de debate académico e político, com particular atenção às disparidades regionais
e às diferenças entre áreas urbanas e rurais.
A
imigração continuou a desempenhar um papel importante na dinâmica demográfica e
económica do país. Portugal manteve‑se como destino atractivo para
trabalhadores estrangeiros, estudantes internacionais e cidadãos em busca de
qualidade de vida. Este fenómeno contribuiu para mitigar parcialmente os
efeitos do envelhecimento populacional, mas também gerou desafios de
integração, planeamento urbano e gestão de serviços públicos.
4. Enquadramento Cultural e
Científico
O
panorama cultural português em 2025 caracterizou‑se por uma vitalidade
significativa, reflectida na diversidade de produções artísticas, na
internacionalização de criadores e na valorização crescente do património
cultural. A cultura continuou a desempenhar um papel central na projecção
internacional do país, beneficiando do dinamismo das indústrias criativas, do
cinema, da literatura e das artes performativas.
A
ciência e a inovação mantiveram‑se como áreas estratégicas, embora
condicionadas por limitações de financiamento e pela dificuldade em reter
investigadores altamente qualificados. A cooperação internacional,
especialmente no âmbito da União Europeia, continuou a ser fundamental para o
desenvolvimento científico, permitindo o acesso a redes de investigação e a
programas de financiamento. A digitalização da economia e da administração
pública avançou, ainda que de forma desigual, revelando tanto progressos
significativos como persistentes desafios de implementação.
5. Enquadramento Ambiental e Energético
A
transição energética e a adaptação às alterações climáticas constituíram
prioridades estratégicas em 2025. Portugal continuou a investir em energias
renováveis, consolidando a sua posição como um dos países europeus com maior
percentagem de produção energética limpa. No entanto, desafios como a
dependência de combustíveis fósseis em determinados sectores, a necessidade de
reforçar infra-estruturas e a vulnerabilidade a fenómenos climáticos extremos
mantiveram‑se no centro do debate.
A
gestão da água tornou‑se tema crítico, especialmente em regiões afectadas por
secas prolongadas. A agricultura enfrentou dificuldades crescentes, exigindo
políticas de adaptação e inovação tecnológica. A protecção da biodiversidade e
a gestão de áreas protegidas continuaram a ser prioridades, embora
frequentemente condicionadas por limitações orçamentais e conflitos de uso do
solo.
6. Enquadramento
Internacional e Europeu
No
plano internacional, Portugal manteve uma política externa assente no
multilateralismo, na integração europeia e na cooperação com a CPLP. O contexto
global de 2025, marcado por tensões geopolíticas, desafios energéticos e
transformações tecnológicas, exigiu uma diplomacia activa e adaptativa. A
participação na UE continuou a ser central, influenciando políticas económicas,
ambientais e de segurança. A relação com países lusófonos manteve‑se
estratégica, especialmente no domínio económico, cultural e educativo. A
diáspora portuguesa continuou a desempenhar papel relevante na projecção
internacional do país, contribuindo para redes de influência e cooperação.
A
posição de Portugal no contexto europeu em 2025 foi profundamente influenciada
pelas dinâmicas internas da UE, especialmente no que diz respeito às políticas
económicas, energéticas e de segurança. A UE enfrentou um período de
ajustamento estratégico, marcado pela necessidade de reforçar a autonomia
energética, acelerar a transição digital e responder a desafios geopolíticos
emergentes. Portugal, embora um país de pequena dimensão, procurou posicionar‑se
como actor construtivo, defendendo o aprofundamento da integração europeia e a
importância da coesão entre Estados‑Membros.
A
participação portuguesa em programas europeus de financiamento, como o Plano de
Recuperação e Resiliência, continuou a desempenhar papel central na
modernização de infra-estruturas, na digitalização da administração pública e
no reforço da resiliência económica. No entanto, a execução destes programas
enfrentou desafios administrativos e burocráticos, revelando limitações
estruturais na capacidade de implementação do Estado. Este factor tornou‑se
tema recorrente no debate público, influenciando percepções sobre a eficácia
governativa e a necessidade de reformas na administração pública.
No
plano global, Portugal manteve uma postura diplomática orientada para o
multilateralismo e para a cooperação internacional. A relação com países
africanos de língua portuguesa continuou a ser estratégica, tanto no domínio
económico como no cultural e educativo. A crescente importância geopolítica do
Atlântico reforçou o papel de Portugal como ponte entre continentes,
especialmente no que diz respeito à segurança marítima, às energias renováveis
e à investigação oceânica. A diáspora portuguesa, espalhada por vários
continentes, continuou a desempenhar papel relevante na projecção internacional
do país. Em 2025, a comunidade portuguesa no estrangeiro manteve forte ligação
ao país, contribuindo para fluxos económicos, culturais e sociais. A
participação eleitoral da diáspora, embora ainda limitada, continuou a crescer,
reflectindo maior envolvimento cívico e interesse nas dinâmicas políticas
nacionais.
PARTE
III
OS
ACONTECIMENTOS MAIS RELEVANTES DE 2025
O ano
de 2025 foi marcado por um conjunto de acontecimentos que influenciaram
profundamente o ambiente político, económico e social de Portugal. Estes
acontecimentos não devem ser analisados isoladamente, mas sim como parte de um
processo mais amplo de transformação estrutural, no qual se cruzam factores
internos e externos. A seguir, desenvolve‑se uma análise detalhada dos eventos
mais significativos, organizados por áreas temáticas, mas integrados numa
leitura contínua e coerente.
1. Política Interna e
Reformas
A
política interna portuguesa em 2025 foi marcada por debates intensos sobre
reformas estruturais, especialmente nas áreas da saúde, habitação, justiça e
administração pública. A necessidade de modernizar o Estado tornou‑se evidente,
não apenas devido às exigências europeias, mas também pela pressão social
crescente. A percepção pública de que os serviços essenciais enfrentavam
dificuldades estruturais contribuiu para um ambiente político exigente, no qual
a capacidade de resposta governativa foi constantemente avaliada.
A
saúde foi uma das áreas mais debatidas. O Serviço Nacional de Saúde enfrentou
desafios persistentes, incluindo falta de profissionais, tempos de espera
elevados e dificuldades de gestão. Embora tenham sido implementadas medidas
para reforçar a capacidade do sistema, a pressão demográfica e a complexidade
crescente dos cuidados de saúde continuaram a gerar tensões. O debate sobre o
equilíbrio entre sector público, privado e social intensificou‑se, reflectindo
diferentes visões sobre o futuro do sistema de saúde.
A
habitação tornou‑se tema central da agenda política. O aumento dos preços, a
escassez de oferta acessível e a pressão do turismo e do investimento
estrangeiro criaram um ambiente de preocupação generalizada. Foram discutidas
medidas de regulação do mercado, incentivos à construção e políticas de
arrendamento, mas a percepção pública de que o problema exigia soluções mais
profundas manteve‑se. Este tema tornou‑se particularmente relevante para
compreender o clima social que antecede as eleições presidenciais, dado que
afecta directamente a vida quotidiana de grande parte da população.
A
justiça e a administração pública foram igualmente objecto de debate. A
lentidão dos processos judiciais, a complexidade burocrática e a necessidade de
modernização tecnológica foram temas recorrentes. A digitalização avançou, mas
de forma desigual, revelando tanto progressos significativos como limitações
estruturais. A confiança nas instituições, embora relativamente estável, foi
influenciada por estes debates, reflectindo a importância da eficiência do
Estado para a percepção de qualidade democrática.
2. Economia, Finanças
Públicas e Investimento
A
economia portuguesa em 2025 enfrentou um ambiente internacional desafiante,
marcado por incertezas económicas globais, tensões geopolíticas e pressões
inflacionistas. O crescimento económico manteve‑se moderado, condicionado por
factores estruturais como a baixa produtividade, a dependência de sectores
tradicionais e a dificuldade em atrair e reter talento qualificado.
O
investimento público desempenhou papel central na estratégia económica, especialmente
através de programas europeus de financiamento. No entanto, a execução destes
programas enfrentou desafios administrativos, revelando limitações na
capacidade de implementação do Estado. A necessidade de reforçar a eficiência
da administração pública tornou‑se evidente, influenciando debates sobre
reformas estruturais.
O
mercado de trabalho apresentou sinais mistos. Embora o desemprego se mantivesse
relativamente baixo, persistiam problemas como salários reduzidos, precariedade
e dificuldades de progressão profissional. A emigração jovem continuou a ser
fenómeno relevante, reflectindo percepções de oportunidades limitadas no país.
Este factor contribuiu para debates sobre competitividade económica, inovação e
políticas de retenção de talento.
A
inflação, embora mais controlada do que nos anos anteriores, continuou a
afectar bens essenciais, pressionando o rendimento disponível das famílias. O
aumento das taxas de juro teve impacto significativo no crédito à habitação,
agravando a situação de muitas famílias e contribuindo para o debate sobre
políticas de habitação e regulação do mercado imobiliário.
3. Habitação, Desigualdades e
Coesão Social
A
habitação foi, sem dúvida, um dos temas mais críticos de 2025. O aumento dos
preços, a escassez de oferta acessível e a pressão do turismo e do investimento
estrangeiro criaram um ambiente de preocupação generalizada. A percepção
pública de que o direito à habitação estava em risco tornou‑se tema central no
debate político e social.
As
desigualdades sociais mantiveram‑se como preocupação crescente. Embora Portugal
apresente níveis de desigualdade inferiores aos de alguns países europeus, a
percepção pública de injustiça social aumentou, alimentada por dificuldades no
acesso à habitação, serviços de saúde e oportunidades económicas. A mobilidade
social, tradicionalmente limitada, tornou‑se objecto de debate académico e
político, com particular atenção às disparidades regionais e às diferenças
entre áreas urbanas e rurais.
A
coesão social foi influenciada por estes factores, bem como pela pressão sobre
serviços públicos e pela percepção de que o Estado enfrentava dificuldades em
responder a necessidades essenciais. A confiança nas instituições, embora
relativamente estável, foi afectada por estes debates, reflectindo a
importância da eficácia do Estado para a percepção de qualidade democrática.
4. Saúde, SNS e Pressões
Estruturais
O
sector da saúde continuou a ser um dos pilares mais debatidos da vida pública
portuguesa em 2025. O Serviço Nacional de Saúde (SNS), apesar de constituir um
dos maiores consensos sociais do país, enfrentou pressões significativas
decorrentes de factores demográficos, organizacionais e financeiros. O
envelhecimento da população, aliado ao aumento da prevalência de doenças
crónicas, intensificou a procura por cuidados de saúde, ao mesmo tempo que a
capacidade de resposta do sistema se revelou limitada em várias áreas.
A
escassez de profissionais de saúde, especialmente médicos de família,
enfermeiros e especialistas em áreas críticas, tornou‑se um dos principais
desafios. A saída de profissionais para o estrangeiro, motivada por melhores
condições salariais e de progressão de carreira, continuou a ser um fenómeno
relevante. Embora tenham sido implementadas medidas para reforçar a contratação
e melhorar condições de trabalho, estas revelaram‑se insuficientes para
responder plenamente às necessidades do sistema.
Os
tempos de espera para consultas e cirurgias mantiveram‑se elevados em várias
regiões, contribuindo para a percepção pública de que o SNS enfrentava
dificuldades estruturais. A articulação entre sector público, privado e social
tornou‑se tema central do debate político, reflectindo diferentes visões sobre
o futuro do sistema de saúde. A digitalização dos serviços, embora tenha avançado,
continuou a enfrentar obstáculos, especialmente no que diz respeito à
interoperabilidade de sistemas e à formação de profissionais.
A
saúde mental emergiu como área prioritária, com crescente reconhecimento da
necessidade de reforçar recursos, melhorar o acesso a cuidados especializados e
combater o estigma. A pandemia da década anterior deixou marcas profundas,
revelando fragilidades e necessidades acumuladas que ainda estavam longe de ser
plenamente resolvidas em 2025.
5. Justiça, Segurança e
Administração Pública
A
justiça portuguesa em 2025 continuou a enfrentar desafios relacionados com a
morosidade processual, a complexidade burocrática e a necessidade de
modernização tecnológica. A lentidão dos tribunais, especialmente em áreas como
família, trabalho e fiscal, foi objecto de críticas recorrentes, tanto por
parte de cidadãos como de profissionais do sector. A digitalização dos
processos judiciais avançou, mas de forma desigual, revelando limitações na
infra-estrutura tecnológica e na formação de recursos humanos.
A
administração pública, por sua vez, enfrentou pressões crescentes para
modernizar procedimentos, simplificar processos e melhorar a eficiência. A
execução de fundos europeus, especialmente no âmbito do Plano de Recuperação e
Resiliência, evidenciou dificuldades estruturais na capacidade de implementação
do Estado. A necessidade de reforçar competências técnicas, atrair talento e
promover reformas organizacionais tornou‑se evidente, influenciando debates
sobre o papel do Estado e a qualidade dos serviços públicos.
No
domínio da segurança interna, Portugal manteve níveis relativamente baixos de
criminalidade em comparação com outros países europeus. No entanto, desafios
como o cibercrime, a violência doméstica e o tráfico de seres humanos
continuaram a exigir respostas coordenadas e especializadas. A cooperação
internacional, especialmente no âmbito europeu, desempenhou papel central na
prevenção e combate a estas ameaças.
6. Educação, Ciência e
Inovação
O
sistema educativo português em 2025 continuou a enfrentar desafios relacionados
com desigualdades de acesso, falta de recursos e necessidade de modernização
pedagógica. Embora Portugal tenha registado progressos significativos nas
últimas décadas, especialmente na redução do abandono escolar precoce,
persistiam disparidades regionais e socioeconómicas que influenciavam o
desempenho académico.
A
educação superior enfrentou pressões relacionadas com financiamento,
internacionalização e retenção de talento. As universidades e politécnicos procuraram
reforçar a sua competitividade global, mas enfrentaram limitações estruturais,
especialmente no que diz respeito à capacidade de atrair investigadores e
docentes altamente qualificados. A ciência e a inovação mantiveram‑se como
áreas estratégicas, mas condicionadas por financiamento insuficiente e pela
dificuldade em transformar conhecimento científico em valor económico.
A
digitalização da educação avançou, mas de forma desigual, revelando tanto
oportunidades como desafios. A integração de tecnologias digitais no ensino
exigiu investimentos significativos, formação de professores e adaptação de
currículos. A literacia digital tornou‑se competência essencial, influenciando
debates sobre o futuro da educação e a preparação das novas gerações para um mercado
de trabalho em transformação.
7. Cultura, Património e
Identidade
A
cultura portuguesa em 2025 continuou a desempenhar papel central na identidade
nacional e na projecção internacional do país. A diversidade cultural, a
vitalidade das artes e a riqueza do património histórico contribuíram para um
ambiente cultural dinâmico e criativo. No entanto, o sector enfrentou desafios
relacionados com financiamento, precariedade laboral e necessidade de
modernização de infra-estruturas.
A
internacionalização da cultura portuguesa continuou a crescer, especialmente no
cinema, literatura, música e artes performativas. Criadores portugueses
alcançaram reconhecimento internacional, contribuindo para a visibilidade
global do país. O património cultural, tanto material como imaterial, continuou
a ser valorizado, embora frequentemente condicionado por limitações orçamentais
e desafios de conservação.
A
cultura desempenhou também papel importante na coesão social, promovendo
diálogo intercultural e valorização da diversidade. A imigração contribuiu para
enriquecer o panorama cultural, introduzindo novas expressões artísticas e
promovendo intercâmbio entre comunidades.
8. Portugal no Mundo:
Diplomacia, UE e CPLP
A
política externa portuguesa em 2025 manteve‑se orientada para o
multilateralismo, a cooperação internacional e o reforço das relações com a UE
e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A participação activa em
organismos internacionais continuou a ser pilar da diplomacia portuguesa,
reflectindo compromisso com a estabilidade global, os direitos humanos e o
desenvolvimento sustentável.
A
relação com a UE foi central, influenciando políticas económicas, ambientais e
de segurança. Portugal procurou posicionar‑se como actor construtivo,
defendendo a coesão europeia e a necessidade de respostas coordenadas a
desafios globais. A participação em programas europeus de financiamento
desempenhou papel fundamental na modernização do país, embora enfrentasse
desafios de execução.
A CPLP
continuou a ser espaço estratégico de cooperação, especialmente nos domínios
económico, cultural e educativo. A língua portuguesa manteve‑se como elemento
central da diplomacia portuguesa, contribuindo para redes de influência e
oportunidades de cooperação internacional.
PARTE
IV
O SISTEMA
POLÍTICO PORTUGUÊS
A
compreensão das eleições presidenciais de 2026 exige uma análise aprofundada do
sistema político português, das suas raízes históricas, da arquitectura
constitucional e das dinâmicas que moldam o comportamento eleitoral. Portugal
possui um modelo institucional singular no contexto europeu, caracterizado por
um equilíbrio delicado entre poderes, por uma cultura política marcada pela
moderação e por uma evolução democrática que, apesar de tensões e crises, se
consolidou ao longo de quase cinco décadas. Esta parte do estudo procura
oferecer uma leitura integrada do sistema político português, articulando
história, teoria constitucional e ciência política.
1. Evolução Histórica do
Regime Democrático
A
democracia portuguesa, instaurada após a Revolução de 25 de Abril de 1974,
desenvolveu‑se num contexto de transição complexa, marcado pela necessidade de
reconstruir instituições, redefinir identidades políticas e integrar o país num
quadro europeu e internacional profundamente diferente daquele que existia
durante o regime autoritário. A Constituição de 1976 estabeleceu as bases do
regime democrático, consagrando direitos fundamentais, separação de poderes e
um modelo de semipresidencialismo que procurava equilibrar a legitimidade democrática
do Presidente da República com a centralidade do Governo e da Assembleia da
República.
Ao
longo das décadas seguintes, o sistema político português passou por várias
revisões constitucionais, que ajustaram o equilíbrio de poderes e consolidaram
a estabilidade institucional. A redução dos poderes presidenciais em áreas como
a nomeação do Governo e a intervenção na governação quotidiana contribuiu para
reforçar o carácter moderado do semipresidencialismo português, aproximando‑o
de modelos parlamentares com Presidente eleito por sufrágio universal.
A
integração europeia desempenhou papel central na evolução do regime
democrático. A adesão à Comunidade Económica Europeia em 1986 impulsionou
reformas económicas, modernização institucional e consolidação democrática. A
participação na UE moldou políticas públicas, influenciou debates internos e
reforçou a estabilidade do sistema político, ao mesmo tempo que introduziu
novos desafios relacionados com soberania, competitividade e coesão social.
A
evolução do sistema partidário português também merece destaque. Durante
décadas, o país foi caracterizado por relativa estabilidade partidária, com
dois grandes partidos um de centro‑esquerda e outro de centro‑direita a
alternarem no poder. No entanto, a partir da década de 2010, verificou‑se
crescente fragmentação, com o surgimento e consolidação de novas forças
políticas, reflectindo transformações sociais, económicas e culturais. Esta
fragmentação tornou o sistema mais plural, mas também mais complexo, exigindo
maior capacidade de negociação e compromisso.
2. A Constituição de 1976 e o
Semipresidencialismo Moderado
A
Constituição da República Portuguesa define o Presidente da República como
órgão de soberania eleito por sufrágio universal directo, com mandato de cinco
anos e possibilidade de reeleição para um segundo mandato consecutivo.
O
Presidente possui poderes relevantes, mas limitados, que incluem:
·
Nomear
o Primeiro‑Ministro, tendo em conta os resultados eleitorais
·
Dissolver
a Assembleia da República em circunstâncias excepcionais
·
Vetar
legislação, com possibilidade de confirmação parlamentar
·
Fiscalizar o cumprimento da Constituição
·
Representar o Estado português
·
Comandar as Forças Armadas
·
Intervir
em situações de crise política ou institucional
Este
conjunto de competências confere ao Presidente um papel de árbitro e moderador,
mais do que de governante. O Presidente não governa, mas influencia a
governação através da sua autoridade moral, capacidade de mediação e
legitimidade democrática. A sua intervenção é mais frequente em momentos de
crise, quando a estabilidade institucional está em risco.
O
semipresidencialismo português distingue‑se de modelos mais fortes, como o
francês, pela menor intervenção do Presidente na formação e direcção do
Governo. Em Portugal, o Governo é responsável perante a Assembleia da
República, e não perante o Presidente, o que reforça o carácter parlamentar do
sistema. No entanto, a legitimidade directa do Presidente confere‑lhe peso
político significativo, especialmente em momentos de tensão entre órgãos de
soberania.
A
Constituição também estabelece limites claros ao poder presidencial, garantindo
que a intervenção do Presidente se faça dentro de parâmetros democráticos e
constitucionais. A dissolução da Assembleia, por exemplo, só pode ocorrer em
circunstâncias específicas e não pode ser utilizada de forma arbitrária. Este
equilíbrio entre poderes contribuiu para a estabilidade do regime ao longo das
décadas.
3. O Papel do Presidente da
República
O
Presidente da República desempenha funções que combinam dimensão simbólica,
institucional e política. A sua legitimidade deriva do voto directo dos
cidadãos, o que lhe confere autoridade moral e capacidade de intervenção em
momentos críticos. No entanto, o exercício do cargo exige prudência, moderação
e respeito pelos limites constitucionais.
O
papel do Presidente pode ser analisado em três dimensões principais:
a) Dimensão Institucional
O
Presidente é garante da Constituição, da independência nacional e do regular
funcionamento das instituições democráticas. Esta função implica vigilância
permanente sobre a actuação dos restantes órgãos de soberania, bem como
capacidade de intervenção em situações de crise.
b) Dimensão Política
Embora
não governe, o Presidente influencia a vida política através de discursos,
vetos, nomeações e mediação entre forças políticas. A sua intervenção pode
contribuir para estabilizar o sistema ou, em momentos excepcionais, para
desbloquear impasses.
c) Dimensão Simbólica
O
Presidente representa a unidade do Estado e desempenha papel central na
construção da identidade nacional. A sua figura é frequentemente associada a
valores como estabilidade, continuidade e responsabilidade democrática.
Esta
combinação de funções torna as eleições presidenciais momentos de grande
importância simbólica e institucional, nos quais os eleitores não escolhem
apenas uma figura política, mas também um garante da estabilidade democrática.
4. O Comportamento Eleitoral
Português
O
comportamento eleitoral em Portugal é influenciado por factores históricos,
sociológicos e económicos. As eleições presidenciais, em particular, apresentam
características distintas das legislativas, dado que se centram em figuras
individuais e não em partidos políticos. Embora o apoio partidário desempenhe papel
relevante, muitos eleitores tomam decisões com base em percepções pessoais
sobre competência, carácter e capacidade de representar o país.
A
participação eleitoral nas presidenciais tende a ser mais elevada do que em
eleições europeias ou autárquicas, mas inferior à das legislativas. A abstenção
tem aumentado ao longo das décadas, reflectindo tendências globais de
desafeição política, mudanças geracionais e transformações na relação entre
cidadãos e instituições.
O
eleitorado português é heterogéneo, com diferenças significativas entre
regiões, gerações e grupos socioeconómicos. A idade é um dos factores mais
relevantes: poiseleitores mais velhos tendem a participar mais e a valorizar
estabilidade institucional, enquanto eleitores mais jovens demonstram maior
volatilidade e menor identificação com figuras políticas tradicionais.
A
influência dos media e das redes sociais tornou‑se cada vez mais relevante,
especialmente entre eleitores jovens. A comunicação política digital
transformou a forma como candidatos se apresentam, como mensagens são
disseminadas e como percepções são moldadas. No entanto, a televisão continua a
desempenhar papel central, especialmente em debates e entrevistas.
PARTE
V
ELEIÇÕES
PRESIDENCIAIS EM PORTUGAL: TENDÊNCIAS HISTÓRICAS
As eleições
presidenciais portuguesas constituem um objecto de estudo particularmente
relevante no contexto da ciência política, não apenas pela sua importância
institucional, mas também pelas características específicas que as distinguem
de outros actos eleitorais. Desde 1976, estas eleições têm revelado padrões
consistentes, embora sujeitos a transformações ao longo do tempo, que permitem
compreender a forma como os cidadãos interpretam o papel do Presidente da
República e como exercem o seu direito de voto. Esta parte do estudo analisa as
tendências históricas que moldaram as eleições presidenciais portuguesas, com
especial atenção à participação eleitoral, aos perfis sociológicos do
eleitorado, à evolução da comunicação política e ao impacto das crises económicas
e sociais.
1. Padrões de Participação
Eleitoral
A
participação eleitoral nas eleições presidenciais portuguesas tem variado ao
longo das décadas, reflectindo factores como contexto político, competitividade
da eleição, percepção pública do papel do Presidente e transformações sociais
mais amplas. Em geral, as eleições presidenciais tendem a registar níveis de
participação superiores aos das eleições europeias e inferiores aos das
legislativas, embora esta tendência não seja uniforme. Nos primeiros anos da
democracia, a participação foi elevada, reflectindo o entusiasmo cívico da
transição democrática e a percepção de que o Presidente desempenhava papel
central na consolidação do regime. Com o passar do tempo, a participação
começou a diminuir, acompanhando tendências globais de desafeição política e
mudanças geracionais. A abstenção tornou‑se fenómeno estrutural, influenciado
por factores como desinteresse político, percepção de distância entre cidadãos
e instituições, e dificuldades logísticas, especialmente entre emigrantes.
A
competitividade da eleição é um dos factores que mais influenciam a
participação. Eleições com forte disputa tendem a mobilizar mais eleitores,
enquanto eleições percepcionadas como previsíveis ou dominadas por uma figura
amplamente consensual tendem a registar maior abstenção. A presença de
múltiplos candidatos com perfis distintos também contribui para aumentar o
interesse público, ao passo que eleições com poucos candidatos ou com forte
assimetria de notoriedade tendem a gerar menor mobilização. A participação
eleitoral também varia significativamente entre regiões. As áreas urbanas
tendem a apresentar níveis de abstenção mais elevados, enquanto regiões rurais
e de menor densidade populacional registam maior participação. Este padrão
reflecte diferenças sociológicas, níveis de mobilização comunitária e
percepções distintas sobre o papel das instituições.
2. Perfis Sociológicos do
Eleitorado
O
eleitorado português é heterogéneo, e as eleições presidenciais revelam padrões
sociológicos que ajudam a compreender o comportamento eleitoral. A idade é um
dos factores mais determinantes pois eleitores mais velhos tendem a participar
mais e a valorizar estabilidade institucional, enquanto eleitores mais jovens
demonstram maior volatilidade e menor identificação com figuras políticas
tradicionais. O nível de escolaridade também influencia o comportamento
eleitoral. Eleitores com maior escolaridade tendem a participar mais e a
demonstrar maior interesse por debates institucionais, enquanto eleitores com
menor escolaridade apresentam níveis mais elevados de abstenção. No entanto,
estas tendências não são absolutas e variam consoante o contexto político e a
natureza da eleição.
A
dimensão socioeconómica desempenha igualmente papel relevante. Eleitores com
maior rendimento e estabilidade profissional tendem a participar mais, enquanto
grupos socioeconómicos mais vulneráveis apresentam níveis mais elevados de
abstenção. A percepção de que o sistema político não responde às necessidades
destes grupos contribui para este fenómeno, reflectindo desafios mais amplos de
inclusão democrática. As diferenças regionais também são significativas.
Regiões com forte tradição cívica e associativa tendem a apresentar maior
participação, enquanto áreas urbanas densamente povoadas, marcadas por
mobilidade social e anonimato, registam níveis mais elevados de abstenção. A
diáspora portuguesa, embora numerosa, continua a apresentar níveis reduzidos de
participação, apesar de melhorias nos mecanismos de voto no estrangeiro.
3. A Evolução da Comunicação
Política
A
comunicação política nas eleições presidenciais portuguesas transformou‑se
profundamente ao longo das últimas décadas. Nos primeiros anos da democracia, a
televisão desempenhava papel central, com debates, entrevistas e tempos de
antena a constituírem os principais meios de comunicação entre candidatos e
eleitores. A imprensa escrita também desempenhava papel relevante, contribuindo
para a formação da opinião pública e para o escrutínio das propostas e perfis dos
candidatos. Com o avanço da tecnologia digital, especialmente a partir da
década de 2010, as redes sociais tornaram‑se elemento central da comunicação
política. Plataformas como Facebook, Instagram, YouTube e, mais recentemente,
redes de formato curto, passaram a desempenhar papel determinante na forma como
candidatos comunicam, como mensagens são disseminadas e como eleitores
interagem com conteúdos políticos.
A
comunicação digital introduziu novas dinâmicas, como segmentação de audiências,
viralização de conteúdos e personalização de mensagens. Estas ferramentas
permitiram aos candidatos alcançar públicos mais jovens e diversificados, mas
também introduziram desafios relacionados com desinformação, polarização e
superficialidade do debate público. Apesar da crescente importância das redes
sociais, a televisão continua a desempenhar papel central, especialmente em
debates e entrevistas. Estes momentos são frequentemente decisivos para a
formação de percepções públicas, dado que permitem comparar directamente os
candidatos e avaliar competências, postura e capacidade de comunicação.
4. O Impacto das Crises
Económicas e Sociais
As
crises económicas e sociais têm impacto significativo nas eleições
presidenciais, influenciando percepções sobre estabilidade institucional,
confiança nas instituições e prioridades dos eleitores. Em períodos de crise,
os eleitores tendem a valorizar figuras que transmitam segurança, experiência e
capacidade de gestão. Em períodos de estabilidade, podem valorizar renovação,
mudança ou inovação. A crise financeira de 2008, a crise da dívida soberana
europeia e a pandemia da década de 2020 tiveram impacto profundo no
comportamento eleitoral português, reforçando a importância do papel do
Presidente como garante da estabilidade e da continuidade democrática. Estas
crises também contribuíram para aumentar a desafeição política e a abstenção,
especialmente entre grupos socioeconómicos mais vulneráveis. A crise da
habitação, a pressão sobre o SNS e as desigualdades sociais emergentes em 2025
constituem factores que moldam o ambiente que antecede as eleições de 2026.
Embora o Presidente não tenha competências directas nestas áreas, a percepção
pública do seu papel como figura de referência institucional influencia a forma
como os eleitores interpretam o contexto político.
5. A Transformação Geracional
do Voto
A
transformação geracional é um dos fenómenos mais relevantes para compreender as
eleições presidenciais contemporâneas. Eleitores mais jovens tendem a
demonstrar menor identificação com instituições tradicionais, maior
volatilidade eleitoral e maior dependência de redes sociais para informação
política. Estes eleitores valorizam temas como ambiente, igualdade, direitos
digitais e inovação, que nem sempre são centrais no debate presidencial
tradicional. Eleitores mais velhos, por outro lado, tendem a valorizar
estabilidade, experiência e continuidade institucional. A sua participação
eleitoral é mais elevada, o que lhes confere peso significativo no resultado
final. Esta diferença geracional cria dinâmicas complexas, nas quais candidatos
precisam de comunicar eficazmente com públicos distintos, utilizando
estratégias diferenciadas.
PARTE
VI
FATORES
QUE INFLUENCIAM AS ELEIÇÕES DE 2026
As
eleições presidenciais de 2026 ocorrem num contexto nacional marcado por
desafios económicos, tensões sociais, transformações tecnológicas e exigências
institucionais que moldam o comportamento dos eleitores e influenciam a
percepção pública sobre o papel do Presidente da República. Embora o Presidente
não governe, a sua função como garante da estabilidade institucional, moderador
do sistema político e representante da unidade nacional confere às eleições
presidenciais uma importância simbólica e prática que transcende a lógica
partidária. Esta parte do estudo analisa os factores estruturais que
influenciam o ambiente eleitoral de 2026, organizados em dimensões económicas,
sociais, institucionais, mediáticas e internacionais.
1. Factores Económicos
A
economia desempenha papel central na formação das percepções públicas e na
definição das prioridades eleitorais. Embora o Presidente da República não
tenha competências directas na governação económica, o contexto económico
influencia a forma como os eleitores interpretam a necessidade de estabilidade
institucional, continuidade democrática e capacidade de mediação entre órgãos
de soberania.
Em
2025, Portugal enfrentou um conjunto de desafios económicos persistentes,
incluindo:
·
Crescimento económico moderado
·
Pressões inflacionistas em bens essenciais
·
Aumento dos custos da habitação
·
Taxas de juro elevadas
·
Baixa produtividade estrutural
·
Dificuldades de retenção de talento
·
Pressões
sobre o rendimento disponível das famílias
Estes
factores contribuem para um ambiente de incerteza económica que influencia o
comportamento eleitoral. Em períodos de instabilidade económica, os eleitores
tendem a valorizar figuras que transmitam segurança, experiência e capacidade
de garantir estabilidade institucional. A percepção de risco económico aumenta
a importância simbólica do Presidente como figura moderadora. A crise da
habitação é particularmente relevante. O aumento dos preços, a escassez de
oferta acessível e a pressão do turismo e do investimento estrangeiro criaram
um ambiente de preocupação generalizada, especialmente entre jovens e famílias
de classe média. Embora o Presidente não tenha competências directas nesta
área, a percepção pública de que o país enfrenta desafios estruturais
influencia a forma como os eleitores interpretam o papel das instituições
democráticas. A sustentabilidade das finanças públicas é outro factor
relevante. A necessidade de equilibrar consolidação orçamental com investimento
público influencia debates sobre o papel do Estado, a qualidade dos serviços
públicos e a capacidade de resposta governativa. Em contextos de pressão
económica, os eleitores tendem a valorizar estabilidade institucional e
previsibilidade política.
2. Factores Sociais
A
sociedade portuguesa em 2025 enfrentou desafios significativos relacionados com
desigualdades, envelhecimento populacional, imigração e coesão social. Estes
factores influenciam o ambiente eleitoral, moldando percepções sobre
prioridades nacionais e expectativas quanto ao papel do Presidente. O
envelhecimento populacional é um dos fenómenos mais relevantes. Eleitores mais
velhos tendem a participar mais e a valorizar estabilidade institucional, o que
confere peso significativo a este grupo no resultado final. A sua participação
elevada contrasta com a menor participação de eleitores jovens, que demonstram
maior volatilidade e menor identificação com instituições tradicionais. As
desigualdades sociais, embora moderadas em comparação com outros países
europeus, tornaram‑se tema central do debate público. A percepção de injustiça
social, alimentada por dificuldades no acesso à habitação, saúde e
oportunidades económicas, influencia a forma como os eleitores interpretam o
papel das instituições democráticas. Em contextos de desigualdade crescente,
aumenta a importância simbólica do Presidente como figura de unidade nacional.
A
imigração desempenha papel relevante na dinâmica social. Portugal tornou‑se
destino atractivo para trabalhadores estrangeiros, estudantes internacionais e
cidadãos em busca de qualidade de vida. Este fenómeno contribui para mitigar os
efeitos do envelhecimento populacional, mas também gera desafios de integração
e pressão sobre serviços públicos. A diversidade crescente influencia debates
sobre identidade nacional, coesão social e papel das instituições. A saúde
mental emergiu como tema prioritário, especialmente entre jovens. A percepção
de que o país enfrenta desafios estruturais nesta área influencia expectativas
sobre o papel do Estado e das instituições democráticas. Embora o Presidente
não tenha competências directas na gestão do SNS, a sua capacidade de promover
consensos e sensibilizar a sociedade para temas estruturais é valorizada.
3. Factores Institucionais
O
sistema político português, baseado num semipresidencialismo moderado, confere
ao Presidente da República papel central na estabilidade institucional. Em
momentos de fragmentação partidária, tensões entre órgãos de soberania ou
crises políticas, o Presidente desempenha função de árbitro e moderador. Esta
dimensão institucional influencia profundamente as eleições presidenciais. A
fragmentação do sistema partidário, que se intensificou ao longo da década de
2020, contribui para um ambiente político mais complexo e imprevisível. A
multiplicação de forças políticas com representação parlamentar aumenta a
dificuldade de formar maiorias estáveis e exige maior capacidade de negociação
e compromisso. Neste contexto, o papel do Presidente como garante da
estabilidade torna‑se ainda mais relevante.
A
relação entre Governo e Presidente é outro factor institucional importante.
Embora o Presidente não governe, a sua capacidade de mediação e influência
simbólica pode contribuir para estabilizar o sistema político. Em contextos de
tensão entre órgãos de soberania, os eleitores tendem a valorizar figuras que
transmitam equilíbrio, prudência e capacidade de diálogo. A confiança nas
instituições democráticas é variável estrutural que influencia o comportamento
eleitoral. Em 2025, a confiança manteve‑se relativamente estável, mas foi
afectada por debates sobre eficácia do Estado, qualidade dos serviços públicos
e capacidade de resposta a desafios estruturais. A percepção de que o
Presidente desempenha papel de garante da democracia influencia a forma como os
eleitores interpretam a importância das eleições presidenciais.
4. Factores Mediáticos e
Digitais
A
comunicação política desempenha papel central nas eleições presidenciais
contemporâneas. A transformação digital alterou profundamente a forma como
candidatos comunicam, como mensagens são disseminadas e como eleitores
interagem com conteúdos políticos. Em 2026, estas dinâmicas serão ainda mais
relevantes. As redes sociais tornaram‑se ferramentas essenciais de comunicação
política, especialmente entre eleitores jovens. Plataformas digitais permitem
segmentação de audiências, personalização de mensagens e viralização de
conteúdos. No entanto, também introduzem desafios relacionados com
desinformação, polarização e superficialidade do debate público.
A
televisão continua a desempenhar papel central, especialmente em debates e
entrevistas. Estes momentos são frequentemente decisivos para a formação de
percepções públicas, dado que permitem comparar directamente os candidatos e
avaliar competências, postura e capacidade de comunicação. A imprensa escrita e
os meios digitais desempenham papel relevante na análise, escrutínio e
contextualização das propostas e perfis dos candidatos. A diversidade de meios
contribui para pluralidade de perspectivas, mas também aumenta a complexidade
do ambiente informativo.
A
literacia mediática é variável estrutural que influencia o comportamento
eleitoral. Eleitores com maior literacia tendem a avaliar criticamente
informações e a participar mais activamente no debate público, enquanto
eleitores com menor literacia são mais vulneráveis a desinformação e
manipulação.
5. Factores Internacionais
O
contexto internacional desempenha papel relevante nas eleições presidenciais,
influenciando percepções sobre segurança, economia e papel de Portugal no
mundo. Em 2025, o ambiente internacional foi marcado por tensões geopolíticas,
desafios energéticos e transformações tecnológicas que influenciam o ambiente
eleitoral de 2026. A UE desempenha papel central na política portuguesa. A participação
em programas europeus de financiamento, a necessidade de coordenação em
políticas económicas e a importância da integração europeia influenciam
percepções sobre estabilidade institucional e prioridades nacionais.
As
tensões geopolíticas globais, especialmente relacionadas com energia, segurança
e tecnologia, contribuem para aumentar a importância simbólica do Presidente
como representante do Estado e figura de referência internacional. A CPLP e a
diáspora portuguesa desempenham papel relevante na projecção internacional do
país. A ligação entre Portugal e comunidades lusófonas influencia debates sobre
identidade nacional, cooperação internacional e papel do Presidente na
diplomacia.
6. Temas Prováveis da
Campanha
Embora
não seja possível prever conteúdos específicos da campanha presidencial de
2026, é possível identificar temas estruturais que, com elevada probabilidade,
desempenharão papel central no debate público:
·
Estabilidade institucional
·
Habitação e desigualdades sociais
·
Saúde e sustentabilidade do SNS
·
Economia, produtividade e emprego
·
Transição energética e alterações climáticas
·
Educação, ciência e inovação
·
Papel
de Portugal na União Europeia
·
Coesão social e integração
·
Transformação digital e literacia mediática
Estes
temas reflectem desafios estruturais do país e influenciam percepções sobre o
papel do Presidente como garante da estabilidade, promotor de consensos e
representante da unidade nacional.
PARTE
VII
CENÁRIOS
GERAIS PARA 2026
As
eleições presidenciais de 2026 realizam‑se num contexto nacional e
internacional marcado por incerteza, transformação e exigência. Embora não seja
possível prever resultados ou comportamentos individuais, é possível construir
cenários estruturais que ajudam a compreender o ambiente em que o acto
eleitoral terá lugar. Estes cenários não são previsões, mas sim modelos
analíticos que permitem identificar tendências, riscos e
oportunidades, com base na observação de factores económicos, sociais,
institucionais e geopolíticos.
A
construção de cenários é uma metodologia amplamente utilizada em estudos
políticos e estratégicos, permitindo antecipar possíveis evoluções do sistema e
preparar respostas adequadas. No caso português, a análise de cenários para
2026 deve considerar a especificidade do sistema semipresidencial, a
fragmentação partidária, a evolução da economia, a pressão sobre serviços
públicos, a transformação digital e o papel de Portugal no contexto europeu.
1. Cenários Institucionais
O
primeiro conjunto de cenários diz respeito ao funcionamento das instituições
democráticas e ao papel do Presidente da República no equilíbrio entre poderes.
Em 2026, Portugal poderá enfrentar diferentes enquadramentos institucionais,
dependendo da relação entre Governo, Assembleia da República e Presidência.
Cenário Institucional A - Estabilidade Governativa com Cooperação
Institucional
Neste
cenário, o Governo mantém condições de estabilidade, seja através de maioria
absoluta, seja através de acordos parlamentares sólidos. A relação entre
Governo e Presidente é marcada por cooperação institucional, respeito mútuo e
previsibilidade. O Presidente desempenha papel moderador, intervindo apenas em
momentos pontuais e dentro dos limites constitucionais. Este cenário favorece
percepções de continuidade e estabilidade, reduzindo a probabilidade de tensões
políticas significativas durante o ciclo eleitoral.
Cenário Institucional B - Fragmentação Parlamentar com Necessidade de
Mediação Presidencial
A
fragmentação partidária, que se intensificou ao longo da década de 2020, pode
gerar um cenário em que o Governo depende de acordos variáveis e instáveis.
Neste contexto, o Presidente desempenha papel mais activo como mediador,
promovendo diálogo entre forças políticas e contribuindo para evitar crises
institucionais. Este cenário aumenta a relevância simbólica do Presidente como
garante da estabilidade e pode influenciar o comportamento eleitoral,
reforçando a importância da figura presidencial.
Cenário Institucional C - Crise Política com Dissolução da Assembleia
Embora
não seja desejável, é possível que tensões entre Governo e Parlamento conduzam
a uma crise política que exija intervenção presidencial, incluindo a dissolução
da Assembleia da República. Este cenário coloca o Presidente no centro da vida
política e aumenta a importância das eleições presidenciais como momento de
reafirmação da estabilidade democrática. A percepção pública do papel do
Presidente como árbitro torna‑se particularmente relevante.
2. Cenários Económicos
A
economia é variável estrutural que influencia profundamente o ambiente
eleitoral. Em 2026, Portugal poderá enfrentar diferentes cenários económicos,
dependendo da evolução da inflação, das taxas de juro, do investimento público
e privado, da execução de fundos europeus e da conjuntura internacional.
Cenário Económico A - Recuperação Moderada com Estabilidade
Neste
cenário, a inflação estabiliza, as taxas de juro diminuem gradualmente e o
crescimento económico mantém ritmo moderado. A execução de fundos europeus
acelera, contribuindo para modernização de infra-estruturas e reforço da
competitividade. Este ambiente favorece percepções de normalidade e reduz a
pressão social, criando contexto eleitoral relativamente estável.
Cenário Económico B - Estagnação com Pressões Sociais
A
economia pode enfrentar estagnação, com crescimento reduzido, inflação
persistente em sectores essenciais e dificuldades no mercado de trabalho. A
crise da habitação mantém‑se como tema central, alimentando percepções de
injustiça social. Este cenário aumenta a importância simbólica do Presidente
como figura de unidade e estabilidade, influenciando prioridades eleitorais.
Cenário Económico C - Recessão com Impacto Social Significativo
Embora
menos provável, não é impossível que Portugal enfrente recessão, influenciada
por factores externos como desaceleração europeia, tensões geopolíticas ou
choques energéticos. Este cenário aumenta a incerteza e reforça a importância
do papel presidencial como garante da continuidade democrática.
3. Cenários Sociais
A sociedade
portuguesa enfrenta desafios estruturais que influenciam o ambiente eleitoral,
incluindo desigualdades, envelhecimento populacional, imigração e pressão sobre
serviços públicos.
Cenário Social A - Coesão com Pressões Moderadas
Neste
cenário, embora persistam desafios, a sociedade mantém níveis razoáveis de
coesão, com serviços públicos a funcionarem de forma aceitável e tensões
sociais controladas. Este ambiente favorece percepções de estabilidade e
continuidade.
Cenário Social B - Tensões Crescentes e Desigualdades Visíveis
A
crise da habitação, dificuldades no SNS e desigualdades regionais podem gerar
tensões sociais significativas. A percepção de que o Estado enfrenta
dificuldades estruturais influencia o comportamento eleitoral, aumentando a
importância simbólica do Presidente. Este cenário favorece debates sobre
justiça social, coesão e papel das instituições.
Cenário Social C - Polarização e Fragmentação
Embora
Portugal historicamente apresente níveis reduzidos de polarização, não é
impossível que tensões sociais e económicas conduzam a maior fragmentação. Este
cenário aumenta a importância do Presidente como figura de unidade nacional.
4. Cenários Geopolíticos
O
contexto internacional influencia percepções sobre segurança, economia e papel
de Portugal no mundo.
Cenário Geopolítico A - Estabilidade Europeia
A UE
mantém coesão, reforça autonomia energética e coordena políticas económicas.
Este cenário favorece previsibilidade e reduz tensões internas.
Cenário Geopolítico B - Tensões Geopolíticas com Impacto Económico
Conflitos
internacionais, instabilidade energética ou tensões comerciais podem afectar
Portugal. Este cenário aumenta a importância do Presidente como representante
internacional do Estado.
Cenário Geopolítico C - Reconfiguração da Ordem Internacional
Transformações
profundas na ordem global podem exigir reposicionamento estratégico de
Portugal. Este cenário reforça o papel diplomático do Presidente.
5. Riscos e Oportunidades
As
eleições de 2026 apresentam riscos e oportunidades estruturais:
Riscos
·
Aumento da abstenção
·
Desinformação digital
·
Tensões sociais
·
Fragmentação política
·
Crises económicas inesperadas
Oportunidades
·
Reforço da confiança nas instituições
·
Consolidação da democracia
·
Debate público qualificado
·
Renovação geracional da participação cívica
·
Afirmação internacional de Portugal
PARTE VIII
CONCLUSÃO GERAL
A
análise aprofundada de Portugal em 2025 e do enquadramento das eleições
presidenciais de 2026 permite compreender um país em transformação, confrontado
simultaneamente com desafios estruturais e oportunidades estratégicas. O ano de
2025 revelou‑se um ponto de inflexão, no qual tensões económicas, sociais e
institucionais convergiram para moldar um ambiente político complexo, exigente
e profundamente marcado pela necessidade de estabilidade, confiança e
capacidade de adaptação. Ao longo deste estudo, foi possível observar que
Portugal enfrenta um conjunto de desafios persistentes que influenciam
directamente o clima político e social como a crise da habitação, a pressão sobre
o Serviço Nacional de Saúde, a necessidade de modernização da administração
pública, a fragmentação partidária, a estagnação económica e as desigualdades
sociais. Estes factores não actuam isoladamente; pelo contrário, interagem
entre si, criando um ambiente de incerteza que exige respostas coordenadas e
visão estratégica.
A
nível económico, 2025 foi marcado por crescimento moderado, inflação ainda
presente em sectores essenciais e dificuldades estruturais relacionadas com
produtividade, competitividade e retenção de talentos. A pressão sobre o
rendimento das famílias, agravada pelo aumento das taxas de juro e pelos custos
da habitação, contribuiu para um sentimento generalizado de insegurança
económica. Embora o país tenha beneficiado de programas europeus de
financiamento, a execução destes revelou limitações na capacidade
administrativa do Estado, evidenciando a necessidade de reformas profundas. No
plano social, o envelhecimento populacional, as desigualdades e a pressão sobre
serviços públicos constituíram desafios centrais. A crise da habitação tornou‑se
símbolo das dificuldades enfrentadas por jovens e famílias de classe média,
enquanto a saúde mental emergiu como tema prioritário, reflectindo
transformações culturais e exigências contemporâneas. A imigração continuou a
desempenhar papel relevante na dinâmica demográfica, contribuindo para mitigar
os efeitos do envelhecimento, mas também exigindo políticas de integração
eficazes.
A
nível institucional, o sistema político português demonstrou resiliência, mas
também fragilidades. A fragmentação partidária aumentou a complexidade da
governação, exigindo maior capacidade de diálogo e compromisso. O papel do
Presidente da República, enquanto garante da estabilidade institucional e
moderador do sistema, tornou‑se ainda mais relevante num contexto de tensões
políticas e sociais. A análise histórica das eleições presidenciais revelou
padrões consistentes, mas também transformações significativas, especialmente
relacionadas com comunicação digital, participação eleitoral e comportamento
geracional. A nível internacional, Portugal manteve uma postura diplomática
orientada para o multilateralismo, a integração europeia e a cooperação
lusófona. O contexto global de 2025, marcado por tensões geopolíticas, desafios
energéticos e transformações tecnológicas, exigiu uma diplomacia activa e
adaptativa. A participação na UE continuou a ser pilar fundamental da política
externa portuguesa, influenciando políticas económicas, ambientais e de
segurança.
A
construção de cenários para 2026 permitiu identificar diferentes possíveis
enquadramentos institucionais, económicos, sociais e geopolíticos. Estes
cenários não constituem previsões, mas sim modelos analíticos que ajudam a
compreender a complexidade do ambiente eleitoral. Em todos eles, o papel do
Presidente da República surge como elemento central da estabilidade
democrática, reflectindo a importância simbólica e institucional da função
presidencial no sistema político português. As eleições presidenciais de 2026
serão, portanto, realizadas num contexto marcado por exigência, transformação e
necessidade de confiança. Os eleitores enfrentarão um conjunto de desafios que
influenciam percepções sobre prioridades nacionais, papel das instituições e
expectativas quanto ao futuro do país. A escolha presidencial, embora não
determine directamente a governação, desempenha papel fundamental na definição
do clima político, na mediação entre órgãos de soberania e na representação da
unidade nacional.
A
democracia portuguesa, apesar das tensões e desafios, demonstrou ao longo das
últimas décadas uma capacidade notável de adaptação, resiliência e
continuidade. O sistema político, embora pressionado por fragmentação e
exigências crescentes, mantém estruturas sólidas que garantem estabilidade
institucional. A sociedade portuguesa, apesar das desigualdades e tensões,
continua a valorizar a democracia, a participação cívica e o papel das
instituições. A análise de Portugal em 2025 e das eleições presidenciais de
2026 revela, em última instância, um país em busca de equilíbrio entre tradição
e modernidade, entre estabilidade e mudança, entre identidade nacional e
integração europeia. O futuro dependerá da capacidade de enfrentar desafios
estruturais, promover coesão social, modernizar o Estado e reforçar a confiança
nas instituições democráticas.
As
eleições presidenciais de 2026 constituem, assim, não apenas um momento de
escolha individual, mas também um exercício colectivo de reflexão sobre o país
que Portugal é e o país que deseja ser. A sua importância transcende a dimensão
política imediata, assumindo papel central na afirmação da maturidade
democrática, na consolidação da estabilidade institucional e na projecção
internacional do país.
O que dizem as sondagens as
eleições presidenciais de 2026?
As
sondagens presidenciais portuguesas disponíveis até 14 de Janeiro de 2026
mostram uma corrida extremamente fragmentada e sem qualquer favorito claro. O
Radar das Sondagens do Observador, actualizado a 11 de Janeiro, indica
um empate técnico entre André Ventura (21,55%), António José Seguro (21,53%) e
João Cotrim de Figueiredo (19,22%), com Henrique Gouveia e Melo (15,76%) e Luís
Marques Mendes (14,74%) já mais distantes. Estes dados revelam a subida
consistente de Seguro e Cotrim desde Dezembro, enquanto Mendes e Gouveia e Melo
continuam a descer. Ventura mantém-se estável, mas sem vantagem suficiente para
se destacar, e nenhum candidato se aproxima dos 50%, o que torna praticamente
inevitável uma segunda volta.
A
sondagem tracking da Pitagórica para TVI, CNN Portugal, Jornal de Notícias
e TSF, divulgada a 10 de Janeiro, confirma esta tendência de reconfiguração da
liderança. Segundo estes dados, António José Seguro surge em primeiro lugar com
20,8%, seguido de João Cotrim de Figueiredo com 20,1% e André Ventura com
19,8%. Gouveia e Melo aparece com 17,4% e Marques Mendes com 15,7%. A
Pitagórica destaca que Cotrim ultrapassa Ventura pela primeira vez e que Mendes
atinge mínimos de campanha, mantendo-se um empate técnico entre os cinco
primeiros devido à margem de erro.
A
sondagem da Universidade Católica (CESOP) para RTP, Público e Antena
1, divulgada no início de Janeiro, reforça o cenário de elevada incerteza.
Ventura lidera com 24%, seguido de Seguro com 23% e Cotrim com 19%, enquanto
Gouveia e Melo e Marques Mendes surgem empatados com 14%. A Católica conclui
que três candidatos Ventura, Seguro e Cotrim têm condições estatísticas para
chegar à segunda volta. Os dados mostram ainda que Ventura apresenta a maior
taxa de rejeição entre os principais candidatos, com apenas 33% dos inquiridos
a admitir votar nele numa segunda volta, enquanto Seguro e Gouveia e Melo
surgem como os candidatos com maior aceitação nesses cenários.
No
conjunto das sondagens, a situação permanece altamente competitiva e sem um
líder consolidado. O novo grupo da frente é composto por António José Seguro,
João Cotrim de Figueiredo e André Ventura, enquanto Luís Marques Mendes e
Henrique Gouveia e Melo registam quebras significativas. A segunda volta é
praticamente inevitável e, segundo os dados da Católica, André Ventura continua
a perder em todos os cenários de confronto directo.
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