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No mês de Janeiro de 2026, Portugal foi sucessivamente
atingido por três depressões (Hipólito -Início de janeiro com precipitação
intensa, vento forte e saturação inicial dos solos. Irene-Meados de Janeiro com
frentes sucessivas, agravamento da instabilidade, preparação do terreno para a
Kristin - 27-29 de Janeiro com ciclogénese explosiva, rajadas até 178 km/h,
cinco mortos e danos severos. Foram depressões
atlânticas de grande intensidade |
Embora cada uma destas tempestades tenha tido características próprias, todas partilham um conjunto de causas estruturais que explicam não apenas a sua formação, mas também a sua trajectória e o impacto particularmente severo sobre o território português. A compreensão destas razões exige uma análise que vá além da meteorologia imediata e que considere o contexto atmosférico mais amplo, as tendências climáticas globais e a vulnerabilidade acumulada do país após semanas de precipitação intensa. O ponto de partida para compreender estes fenómenos é a dinâmica do Atlântico Norte, uma região onde se formam grande parte das tempestades que afectam a Europa Ocidental. Nos últimos anos, esta região tem registado alterações significativas, nomeadamente o aumento da temperatura da superfície do mar, que tem sido consistentemente superior à média histórica.
Este aquecimento não é um detalhe secundário; trata‑se de um factor determinante para a intensificação das depressões, pois a energia disponível no oceano sob a forma de calor e humidade alimenta os sistemas atmosféricos, tornando‑os mais vigorosos. Quando o mar está mais quente, a evaporação aumenta, a atmosfera retém mais vapor de água e, consequentemente, as tempestades tornam‑se mais intensas e capazes de produzir precipitação extrema. Outro elemento fundamental é a corrente de jato, uma faixa de ventos muito fortes que circula a grande altitude e que funciona como uma espécie de “autoestrada” atmosférica para as depressões. Nos últimos meses, esta corrente tem apresentado ondulações mais pronunciadas e um posicionamento particularmente favorável à entrada directa de sistemas depressionários sobre a Península Ibérica.
Quando a corrente de jato se desloca para sul ou se torna mais
sinuosa, cria corredores que permitem que as depressões, em vez de seguirem
para o norte da Europa, se encaminhem directamente para Portugal. Esta
alteração no comportamento da corrente de jato está associada a mudanças
térmicas no Ártico e no Atlântico, que por sua vez estão relacionadas com o
aquecimento global. Assim, embora cada depressão tenha causas meteorológicas
imediatas, o pano de fundo climático não pode ser ignorado. A primeira das três
depressões que atingiram Portugal enquadra‑se num padrão relativamente típico
de inverno. Formou‑se no Atlântico, intensificou‑se ao aproximar‑se da
Península e trouxe chuva e vento fortes, mas dentro do que se poderia
considerar normal para a estação. No entanto, mesmo esta primeira tempestade beneficiou de um Atlântico mais quente e de
uma corrente de jato posicionada de forma a canalizar a depressão para o
território português. A sua passagem deixou os solos húmidos e os rios mais
cheios, criando condições que, embora não críticas, começaram a preparar o
terreno para problemas futuros.
A
segunda depressão foi mais intensa e mais persistente. A sua formação resultou da interacção entre um cavamento
atlântico e outro sistema meteorológico situado mais a norte, na região da
Galiza. Esta interacção aumentou o gradiente de pressão, intensificando os
ventos e prolongando a instabilidade atmosférica. A
passagem sucessiva de frentes frias e quentes trouxe precipitação contínua,
saturando ainda mais os solos e elevando os níveis dos cursos de água. A vulnerabilidade do território começou a tornar‑se
evidente com pequenas inundações, deslizamentos de terra e dificuldades no
escoamento das águas pluviais começaram a multiplicar‑se. Esta
segunda depressão, embora não tão extrema como a que viria a seguir,
desempenhou um papel crucial na amplificação dos impactos da depressão Kristin,
pois deixou o país sem capacidade de absorver mais água.
A
terceira depressão, Kristin, foi um fenómeno meteorológico de outra ordem de
magnitude. Classificada como uma ciclogénese explosiva, Kristin desenvolveu‑se
de forma extremamente rápida, com uma queda abrupta da pressão atmosférica no
seu centro em menos de 24 horas. Este
tipo de fenómeno ocorre quando uma depressão se intensifica a um ritmo muito
superior ao normal, geralmente devido à combinação de vários factores como um
forte contraste térmico entre massas de ar, uma corrente de jato
particularmente intensa e uma grande disponibilidade de energia no oceano. No
caso de Kristin, todos estes elementos estavam presentes e alinhados de forma
quase perfeita para produzir uma tempestade de grande violência.
A
energia adicional fornecida pelo Atlântico, que se encontrava com temperaturas
acima da média, desempenhou um papel decisivo. A depressão absorveu grandes quantidades de vapor de
água, que, ao condensar, libertou calor latente um processo que alimenta e
intensifica os sistemas de baixa pressão. Simultaneamente, a corrente de jato
encontrava‑se especialmente forte e posicionada de forma a acelerar o
desenvolvimento da depressão e a direccioná‑la directamente para Portugal. Este
alinhamento de factores fez com que Kristin atingisse o país com uma
intensidade invulgar, trazendo rajadas de vento que ultrapassaram os 170 km/h
em algumas regiões e precipitação extremamente intensa num curto espaço de
tempo.
O impacto da Kristin foi agravado por razões que vão além
da meteorologia imediata. Em primeiro lugar, os solos estavam
completamente saturados devido às duas depressões anteriores, o que significa
que praticamente não havia capacidade de absorção. Qualquer precipitação
adicional escoava rapidamente para rios, ribeiras e zonas urbanas, provocando
inundações súbitas. Em segundo
lugar, as infra-estruturas estavam fragilizadas como árvores enfraquecidas que caíram
com facilidade, taludes instáveis cederam e sistemas de drenagem, sobrecarregados,
colapsaram em vários pontos. Em terceiro lugar, a trajectória da depressão foi
particularmente desfavorável, entrando directamente pelo centro do país, em vez
de passar mais a norte, como acontece com muitas tempestades atlânticas. Esta
trajectória aumentou a área afectada e expôs regiões densamente povoadas a
ventos e chuvas de grande intensidade.
A conjugação destes factores explica porque a Kristin foi
tão devastadora. No entanto, para compreender plenamente
o fenómeno, é necessário considerar também o papel das alterações climáticas.
Embora não se possa afirmar que uma tempestade específica é “causada” pelo
aquecimento global, existe um consenso científico robusto de que o aquecimento
do planeta aumenta a probabilidade e a intensidade de eventos meteorológicos
extremos. Tempestades mais intensas, períodos de chuva mais concentrada e
padrões atmosféricos mais instáveis são tendências observadas em várias regiões
do mundo, incluindo a Europa. No
caso de Portugal, estas tendências manifestam‑se através de invernos mais
irregulares, com períodos de seca alternados com episódios de precipitação
extrema, e através de uma maior frequência de depressões intensas que atingem
directamente o território.
Assim,
as três depressões que atingiram Portugal não podem ser vistas como eventos
isolados, mas como parte de um padrão mais amplo que combina variabilidade
natural com tendências climáticas de longo prazo. A primeira depressão abriu o
ciclo, a segunda intensificou a vulnerabilidade e a terceira, Kristin, revelou
de forma dramática os limites da capacidade de resposta do território a
fenómenos extremos. A análise
integrada destes episódios mostra que Portugal enfrenta desafios crescentes no
domínio da protecção civil, da gestão de recursos hídricos e da adaptação às
alterações climáticas. A preparação para o futuro exigirá não apenas melhores
sistemas de previsão e alerta, mas também investimentos estruturais em drenagem
urbana, reforço de infra-estruturas, ordenamento do território e educação para
o risco.
Em suma, as razões das três depressões que atingiram
Portugal culminando na ciclogénese explosiva da Kristin encontram‑se na
combinação de factores atmosféricos imediatos, condições oceânicas anómalas,
alterações na corrente de jato e vulnerabilidade acumulada do território. A
compreensão destes elementos é essencial para antecipar futuros episódios e
para desenvolver estratégias eficazes de mitigação e adaptação num contexto
climático cada vez mais desafiante.
Bibliografia (formato adaptado):
·
Instituto
Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Comunicados meteorológicos e boletins
de alerta, janeiro de 2026.
·
Agência
Europeia do Ambiente. Relatórios sobre eventos extremos e alterações climáticas
na Europa, 2025-2026.
·
Organização
Meteorológica Mundial (OMM). Tendências globais de ciclogénese e padrões
atmosféricos, relatório anual 2025.
·
Observatório
do Clima. “Ciclogénese explosiva e vulnerabilidade urbana: o caso de Kristin em
Portugal.” Revista Clima & Sociedade, fevereiro de 2026.
·
Jornal
Público. “Tempestade Kristin: cinco mortos e dezenas de desalojados.” Reportagem
de 30 de janeiro de 2026.
·
Universidade
de Lisboa, Instituto Dom Luiz. Estudos sobre a corrente de jato e impacto
regional das depressões atlânticas, 2024-2026.

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