A relação entre os Estados Unidos e o Irão constitui,
desde o final da década de 1970, um dos eixos centrais da política
internacional no Médio Oriente. A sucessão de crises, momentos de aproximação e
subsequentes rupturas moldou um quadro de desconfiança mútua que condiciona
qualquer tentativa de estabilização regional. Nas últimas semanas, segundo a
narrativa política emergente em Washington, voltou a ganhar força a
possibilidade de uma operação militar americana contra alvos iranianos,
alegadamente motivada pela reconstrução de instalações nucleares previamente
destruídas. Este cenário, ainda que não totalmente inesperado, representa uma
inflexão significativa face à estratégia recente dos Estados Unidos, que
procurava pressionar Teerão sem recorrer a uma confrontação directa.
A acusação de que o Irão estaria a restaurar infra-estruturas
nucleares previamente atacadas serve, no discurso político americano, como
fundamento para justificar uma eventual acção militar. A
formulação apresentada por figuras de destaque da administração, como o
secretário de Estado e o vice‑presidente, assenta na ideia de que Teerão teria
ignorado advertências explícitas e retomado atividades consideradas
inaceitáveis por Washington. Contudo,
a fragilidade desta argumentação é evidente pois reconstruir instalações civis
ou militares após um ataque não constitui, por si só, prova de intenção
ofensiva, mas antes uma resposta previsível de qualquer Estado soberano que
procura restaurar capacidades estratégicas. A insistência nesta
narrativa revela, mais do que uma evidência factual, a necessidade política de
criar um enquadramento justificativo para uma mudança de postura.
A
referência explícita ao risco de o Irão adquirir armas nucleares funciona como
elemento mobilizador da opinião pública e como mecanismo de legitimação
interna. A evocação dos
erros cometidos no Iraque em 2003, nomeadamente a utilização de informações
imprecisas para justificar uma invasão, demonstra que a administração americana
está consciente da sensibilidade do tema. Ao mesmo tempo, a afirmação de que
não se devem “aprender em excesso” as lições do passado sugere uma tentativa de
equilibrar prudência e assertividade, evitando que a memória de conflitos
prolongados impeça a adopção de medidas consideradas necessárias.
A ordem de evacuação imediata dos funcionários da
embaixada americana em Jerusalém constitui outro sinal de que Washington encara
a situação com crescente gravidade. A retirada preventiva de pessoal
diplomático é um indicador clássico de que se antecipam hostilidades ou
represálias, e funciona como mensagem indirecta para aliados e adversários. A
conjugação destes elementos aponta para uma alteração significativa na
avaliação estratégica americana, que parece ter concluído que a pressão
diplomática e económica não produziu os resultados desejados.
A falência da estratégia de pressão
e a procura de alternativas
Durante
meses, a política dos Estados Unidos assentou na ideia de que a ameaça credível
de força militar poderia levar o Irão a aceitar um acordo mais favorável para
Washington. Esta abordagem, que
combina dissuasão com diplomacia coerciva, pressupõe que o adversário reconhece
a superioridade militar americana e prefere evitar um confronto directo. No
entanto, Teerão demonstrou resiliência e capacidade de absorver custos,
recusando concessões substanciais. A ausência de resultados tangíveis obrigou
Washington a reconsiderar a sua estratégia.
A procura de um “plano B” revela a dificuldade de
conciliar objectivos ambiciosos com limitações operacionais. A própria
estrutura militar americana tem manifestado reservas quanto à viabilidade de
uma campanha prolongada, alertando para a escassez de munições e para a
necessidade de evitar um envolvimento que possa transformar‑se num novo
conflito de desgaste. Esta posição reflecte não apenas preocupações logísticas,
mas também a consciência de que o contexto geopolítico actual marcado pela
competição com a China e pela guerra na Ucrânia limita a capacidade dos Estados
Unidos de se envolverem simultaneamente em múltiplos teatros de conflito.
A
hesitação interna explica a preferência por uma estratégia que minimize o risco
político e militar. Uma das opções consideradas consiste em permitir que Israel
desencadeie o primeiro ataque, replicando o padrão observado em confrontos
anteriores. Esta abordagem
permitiria aos Estados Unidos intervir posteriormente, apresentando a sua acção
como resposta defensiva destinada a proteger um aliado. Tal enquadramento
reduziria o custo político interno e internacional, ao mesmo tempo que
preservaria a imagem de Washington como actor relutante, mas responsável.
Outra
possibilidade consiste na realização de um ataque limitado, cuidadosamente
calibrado para evitar uma escalada descontrolada. Um ataque “demonstrativo”, eventualmente comunicado
antecipadamente a Teerão, teria como objectivo sinalizar determinação sem
desencadear uma resposta massiva. Esta lógica de
contenção, embora arriscada, procura equilibrar a necessidade de reafirmar
credibilidade com a de evitar um conflito regional de grandes proporções.
O papel de Israel e a lógica da
escalada controlada
Israel
desempenha um papel central na equação estratégica. A sua percepção de ameaça existencial face ao programa
nuclear iraniano condiciona profundamente a política americana. A
coordenação entre Washington e Telavive é, por isso, essencial para compreender
a evolução da crise. A preferência americana
por um ataque inicial israelita não decorre apenas de considerações políticas
internas, mas também da convicção de que Israel está disposto a assumir riscos
que os Estados Unidos procuram evitar.
A
lógica da escalada controlada, frequentemente invocada em contextos de
dissuasão, assume que é possível modular a intensidade do conflito de forma a
evitar um confronto total. Contudo, esta premissa é altamente contestável no
caso do Irão. A estrutura política e militar iraniana, marcada pela influência
dos Guardas da Revolução e por uma cultura estratégica que valoriza a
resistência, tende a interpretar ataques externos como desafios à sua soberania
e legitimidade. A probabilidade de uma resposta significativa é, portanto,
elevada, mesmo que o ataque inicial seja limitado.
Além disso, o Irão dispõe de uma rede de aliados e grupos
armados na região que podem actuar como extensões indirectas da sua política de
defesa. A possibilidade de ataques contra interesses americanos ou israelitas
por intermédio de milícias no Líbano, Síria, Iraque ou Iémen aumenta o risco de
uma escalada regional difícil de controlar. Assim, a ideia de que é possível
conduzir uma operação cirúrgica sem consequências imprevisíveis revela‑se
excessivamente optimista.
A
dimensão interna da política americana
A
política externa dos Estados Unidos não pode ser dissociada das dinâmicas
internas. A necessidade de demonstrar firmeza perante adversários estratégicos
é frequentemente utilizada como instrumento de consolidação política. A retórica sobre o risco nuclear iraniano desempenha,
neste contexto, uma função simbólica pois reforça a imagem de liderança e projecta
a ideia de que a administração está disposta a agir para proteger a segurança
nacional.
Contudo, a memória colectiva da guerra do Iraque continua
a exercer influência significativa. A sociedade americana mostra‑se cada vez
mais avessa a intervenções militares prolongadas, sobretudo quando os objectivos
não são claramente definidos. A administração, consciente desta sensibilidade,
procura apresentar qualquer eventual acção como limitada no tempo e no alcance.
A insistência em evitar “guerras sem fim” constitui, assim, uma tentativa de
antecipar críticas e de enquadrar a intervenção como excepcional e necessária.
A divisão entre decisores políticos e sectores das forças
armadas e dos serviços de inteligência revela tensões estruturais. Enquanto a
liderança política privilegia a projecção de força, os responsáveis militares
tendem a adoptar uma abordagem mais cautelosa, baseada na avaliação dos riscos
operacionais. Esta divergência não é nova, mas torna‑se
particularmente relevante num momento em que os recursos militares estão
dispersos por múltiplos compromissos internacionais.
O Irão perante a pressão externa
Do ponto de vista iraniano, a pressão americana é
interpretada como parte de uma estratégia mais ampla de contenção e isolamento.
A
narrativa interna enfatiza a necessidade de resistir à ingerência estrangeira e
de preservar a soberania nacional. Esta
postura é reforçada por décadas de sanções económicas e por uma percepção
generalizada de que os Estados Unidos procuram limitar o desenvolvimento
tecnológico e militar do país.
A
recusa em ceder perante ameaças externas não decorre apenas de convicções
ideológicas, mas também de cálculos estratégicos. Teerão sabe que demonstrar
fraqueza poderia incentivar novas exigências e comprometer a sua posição
regional. Ao mesmo tempo, o
Irão procura evitar um confronto directo que poderia ter consequências
devastadoras para a sua economia e estabilidade interna. Esta
combinação de resistência e prudência explica a complexidade da sua resposta.
A reconstrução de instalações nucleares, interpretada por
Washington como provocação, pode ser vista pelo Irão como acto de normalização
e reafirmação de autonomia. A ambiguidade estratégica em torno do programa
nuclear iraniano que insiste no seu carácter civil, mas mantém margens de
incerteza constitui um instrumento de pressão e de dissuasão. Ao
manter um nível controlado de opacidade, Teerão procura evitar tanto a
submissão total quanto a ultrapassagem de limites que desencadeiem uma
intervenção militar inevitável.
A imprevisibilidade do sistema
internacional e os riscos de erro de cálculo
A actual conjuntura internacional caracteriza‑se por
elevada instabilidade. A competição entre grandes potências, a
fragmentação de alianças e a multiplicação de conflitos regionais criam um
ambiente propício a erros de cálculo. No caso específico da relação entre os
Estados Unidos e o Irão, a ausência de canais de comunicação robustos aumenta o
risco de interpretações erradas e de escaladas involuntárias.
A
história recente demonstra que crises envolvendo programas nucleares tendem a
gerar dinâmicas de tensão difíceis de controlar. A percepção de ameaça existencial pode levar os Estados a
adoptar medidas preventivas que, por sua vez, são interpretadas pelo adversário
como agressões iminentes. Este ciclo de acção e reacção pode conduzir a
confrontos que nenhum dos lados desejava inicialmente.
A
possibilidade de um ataque limitado, concebido para enviar uma mensagem, pode
ser interpretada pelo Irão como prelúdio de uma ofensiva mais ampla. Da mesma
forma, uma resposta iraniana destinada apenas a demonstrar capacidade de
retaliação pode ser vista pelos Estados Unidos como escalada inaceitável. A
ausência de confiança mútua amplifica estes riscos.
Assim, a evolução recente da política americana em
relação ao Irão revela uma combinação de frustração estratégica, necessidade de
reafirmação de credibilidade e limitações operacionais. A mudança de postura,
marcada pela preparação de uma possível operação militar, resulta da percepção
de que a pressão diplomática não produziu os efeitos desejados. Contudo,
qualquer acção militar comporta riscos significativos, tanto para a
estabilidade regional quanto para os interesses dos Estados Unidos. A interacção
entre Washington, Teerão e Telavive forma um triângulo estratégico complexo, no
qual cada movimento pode desencadear reacções imprevisíveis. A crença na
possibilidade de ataques limitados e controlados ignora a natureza
profundamente volátil da relação e a multiplicidade de actores envolvidos. A
história demonstra que conflitos iniciados com objectivos restritos podem
rapidamente transformar‑se em confrontos prolongados.
A crise actual deve, por isso, ser analisada não apenas
como episódio isolado, mas como expressão de tensões estruturais que persistem
há décadas. A ausência de mecanismos de confiança, a
sobreposição de interesses regionais e a instrumentalização política da ameaça
nuclear tornam improvável uma resolução rápida. O desafio consiste em evitar
que a lógica da escalada se imponha sobre a racionalidade estratégica,
conduzindo a um conflito cujas consequências seriam imprevisíveis.
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